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Desarrumada e Debaixo de cada cor, na Galeria Belo-Galsterer

Apesar das práticas e dos portefólios distintos, e de se constituírem como mostras separadas e independentes, há uma lógica comum nas exposições Desarrumada, de Rita Gaspar Vieira, e Debaixo de cada cor, de Pedro Calapez. Em ambas abunda o nexo de camadas, da construção material com recurso ao tempo, das finas peles que se sobrepõem e que absorvem e comportam tempos, cadências, materiais e cores diversas. Se no primeiro caso é um palimpsesto que se submete às matérias do desenho, no outro é um palimpsesto de tintas, cores vibrantes e saturações abundantes. Em qualquer dos casos estão implícitos os métodos de trabalho e a forma como a arte acontece num processo de depuração de cada camada, estrato ou sedimentação.

Desarrumada é uma designação irónica para um sentido de ordem que é sempre subjetivo. E é justamente nessa ordem, nesse ponto impreciso para muitos, mas claro para a artista, que Rita Gaspar Vieira explora a materialidade da arte, do tempo e do espaço do desenho. Contudo, é, simultaneamente, uma investigação sobre o lugar do artista e da génese da criação: a atmosfera experimental do atelier; as mesas pejadas de pó e detritos de projetos anteriores, que se resgatam em projetos sempre a acontecer; restos e sobras que ficam a aguardar novo sentido, nova ordem, criando uma superfície compósita de grafite, cores e papéis vários e carvão.

Nesta perspetiva, Gaspar Vieira reitera uma continuidade no processo criativo com as sobrevivências do passado – o que o passado empresta ao presente e que é característica de uma ecologia e de uma economia própria da arte, feita, no caso da artista, de acasos, pausas, “erratas”, múltiplas ações, derramações e escamações com pasta de algodão, água e grafite. E através da água, a natureza ganha propósito e agência nas obras expostas, tomando parte do processo criativo e dando forma às obras.

Se o modo de operação de Gaspar Vieira tem fundamento no desenho, é na pintura que Calapez situa a sua lógica de conceção da obra de arte. A tela é um espaço de sobreposição, composição, experimentação, mescla e subtração de cores. É um exercício formalista e abstrato, que encontra na materialidade plástica da tinta a sua justificação, sem, no entanto, esquecer um desenho vago que deixa adivinhar a sugestão de qualquer coisa difusa, evanescente – a forma de um sonho, quase esquecido e agora recuperado, ou a paisagem mental de um lugar inventado. Debaixo de cada cor é um regresso à noção tradicional da pintura, ao espaço da tela, delimitado, contido, sem que isso represente um compromisso na liberdade e no impulso criativo. É o ímpeto da prova, do risco, da mancha que se espraia sobre a tela branca, da técnica de arrasto que sobrepõe camadas de cor, luz e tonalidades.

Ambas as mostras são manifesto dessa pulsão controlada do querer-fazer, do ver-acontecer, de aceitar as consequências da produção artística. Ambas tocam a verdade do ato criativo, e que é sempre o da prova, do teste, da imprevisibilidade, do gesto que sai torto, mas que é genuíno e ganha expressão e existência no olhar.

Desarrumada, de Rita Gaspar Vieira, e Debaixo de cada cor, de Pedro Calapez, podem ser vistos na Galeria Belo-Galsterer até 31 de julho.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, arquitetura…

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