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A Decade that Exploded e Eixo-Próprio: Duas exposições na Rialto6

Perante as massas de informação e a respetiva aceleração dos ciclos de comunicação e de capital, como delinear os movimentos que dão sentido à última década do século XXI?

O dilúvio das imagens, a complexidade das suas relações, conduz-nos para a ilusão de um eterno presente e uma aparente proximidade que comporta uma distância inextricável. Em A Decade that Exploded, exposição concebida pela galeria Reena Spaulings Fine Art NY/LA, procura-se destrinçar indícios do real perante a exposição exacerbada das imagens. O fio condutor das obras apresentadas consiste na introdução de pontuações que interrompem narrativas associadas aos dispositivos de consumo imagético.

Este exercício de reflexão traz-nos algumas pistas em relação às estruturas mediáticas que definem economias de poder, como o caso das obras 1 Escaping is just engaging in another platform (2019) e 7 Media creates the world it claims to merely show us (2019), de Georgie Nettel, ou ainda Donate to the Tate (The Beatles) (2015), de Merlin Carpenter. Por outro lado, salientam-se mecanismos de construção da memória humana versus dispositivos tecnológicos, como a obra Being and/or Time (2013-2016), de Ken Okiishi, na qual o artista apresenta um diário digital a 24 frames por segundo com a totalidade das imagens tiradas no seu iPhone durante um período de três anos em Nova Iorque, ou o exemplo de New Models Decade Brain (2020), uma compilação cronológica de acontecimentos mundiais relevantes (entre janeiro de 2010 e dezembro de 2014) interligados com reflexões pessoais de Bjarne Melgaard.

Mantendo as estruturas reflexivas em torno da hiperinformação/hipercomunicação e respetivos mecanismos contíguos de vigilância e poder, em exposição estão também presentes obras de Claire Fontaine, Jak Ritger, Juliana Huxtable, Klara Linden, Loretta Fahrenholz, Larry Johnson, Henrik Olesen, Heji Shin e Reena Spaulings.

Em paralelo com A Decade that Exploded, Rialto6 apresenta-nos a exposição individual Eixo-Próprio, de Pedro Barateiro, na qual o artista se foca nas relações do corpo do artista e do espectador com os meios externo/interno, podendo as mesmas materializar-se através de narrativas não lineares onde a imagem e a palavra se interpelam entre o sentido poético e político, como o exemplo de 82 poems (2001-2008), um conjunto de vídeos concebidos sem guião e apresentados na montra da Rialto6 ao longo dos dias da exposição. Adicionalmente, o artista apresenta-nos três obras: a instalação The Astronaut Metaphor (2013), Teoria da Fala – Orelha-Objeto (2008) e uma escultura que dá o título à exposição: Eixo-Próprio (2021). Entre as imagens e os discursos que as permeiam, Barateiro explora a absorção e a reprodução inconsciente dos modelos que nos submetem à sua visibilidade.

Em ambas as exposições apresentadas na Rialto6, «o olho panóptico que tudo vê» é desnudado pelos artistas a partir do seu próprio interior sistémico, perspetivando-se espaços de liberdade dentro dos encadeamentos digitais, políticos e mediáticos.

A Decade that Exploded e Eixo-Próprio mantêm-se na Rialto6, em Lisboa, até 30 de julho.

Margarida Alves (Lisboa, 1983). Artista, doutoranda em Belas Artes (FBAUL). Investigadora bolseira pela Universidade de Lisboa. Licenciada em Escultura (FBAUL, 2012), mestre em Arte e Ciência do Vidro (FCTUNL & FBAUL, 2015), licenciada em Engenharia Civil (FCTUNL, 2005). É artista residente no colectivo Atelier Concorde. Colabora com artistas nacionais e estrangeiros. A sua obra tem um carácter interdisciplinar e incide sobre temas associados à origem, alteridade, construções históricas, científicas e filosóficas da realidade.

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