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Urihi theri: Sheroanawe Hakihiiwe na Kunsthalle Lissabon

Depois de visitar a exposição Urihi theri, do artista yanomami Sheroanawe Hakihiiwe, uma questão se fez gigante: como abordar a arte indígena? Não é a mesma situação de fazer uma crítica a um artista de um Estado-nação, seja este europeu ou sul-americano. A disparidade de cosmovisão cria um abismo cognitivo e é necessário reconhecê-lo e nomeá-lo para evitar a ameaça do exotismo e da projeção de paradigmas estéticos colonizadores. A minha apreensão está profundamente incrustada por modos de valorização “dos brancos”, a forma como eu reconheço e valorizo um objeto artístico não é a mesma forma da dos ameríndios. Por isso identifico a necessidade da escuta e também da imaginação para poder abordar um corpo de trabalho que entrelaça o que circunscrevemos como esfera estética com outras esferas: econômica, social, religiosa e política. Hakihiiwe expõe esta compreensão em um vídeo para Para Site, um espaço de arte contemporânea em Hong Kong:

“Na minha comunidade localizada na selva, as mulheres fazem e pintam as cestas e os homens fazem e pintam as flechas. Celebramos e dançamos ao pintar nossos corpos com pigmentos naturais de plantas e animais. Pintamos nossos corpos com linhas, pontos, animais, vermes, borboletas e outros desenhos de insetos. Tanto adultos quanto crianças pintam seus corpos e isso nos deixa feliz. O trabalho que faço nestes papéis está intimamente relacionado com todo o universo que conheço com Uriji (a selva) que vejo quando saio para a selva acompanhado por pessoas da comunidade e da família. […] Também conheço os animais e as plantas, seus rastros e como se movem na selva. O Shapori (xamãs) fala comigo e me conta sobre as coisas. Os animais falam por meio dos xamãs. O espírito nos ajuda. Isto é muito importante. Minha mãe me ensinou muito e me falou sobre nossos costumes e nossa cultura. Tudo o que vi ou ouvi, penso nisso tudo na minha cabeça. Eu faço meu trabalho com todo esse conhecimento e experiência.”

A fala do artista nos ajuda a criar um imaginário referente a modos de existência e de produção de sentido distantes da nossa sociedade e a apreciar as suas pinturas com um olhar dilatado. A exposição Urihi theri (o lugar da selva), na Kunstalle Lissbon, apresenta dez pinturas de Hakihiiwe, sendo três delas inéditas, em grande formato e em tecido. Observamos nas linhas delicadas uma expressão figurativa que extrai o essencial da forma, chegando ao ponto de não ser facilmente identificável. Para o olhar não familiarizado, as formas aparentam ser simplesmente geométricas, como em Kopina mipe/Vespeiro, em que pequenos círculos pintados em preto e vermelho formam agrupamentos horizontais, ou em Mishimishima tahiyape/Arbusto da floresta tropical, em que seis elementos verticais concêntricos e assimétricos representam uma espécie de folhagem. A síntese e o minimalismo do desenho refletem uma relação íntima com os elementos vegetais e animais retratados. Os títulos dos trabalhos também sinalizam a conexão entre artista e Uriji (a selva): Hareremi kaweiki/Barba de inseto, Warimahi akataju/Meia árvore de Ceiba, Wakari/Fruta doce da floresta tropical.

As pinturas em tecido da série Uriji theri dão nome à exposição e retratam, como nos outros desenhos, elementos da selva. Há porém uma diferença original na composição – observamos uma sobreposição dos elementos. Na pintura Sem Título II, vemos no plano de fundo árvores com folhagens coloridas (verde, amarelo e roxo). No primeiro plano, o artista acrescenta formas geométricas como linhas em espiral, pontos negros e amarelos. Na outra pintura da série, vemos o oposto – árvores semelhantes são acrescentadas sobre linhas e formas em vermelho (uma delas semelhante a um vulcão ou mais próximo da realidade amazônica, um cupinzeiro). A terceira pintura em tecido em mostra na exposição, Seiseimi kona/Cantar como as cigarras, também é composta de sobreposições, mas nas cores preto e rosa. Identificamos representações de ramagens e outros elementos vegetais em preto e, novamente, linhas e pontos soltos sobre o desenho.

Lembro de quando fui na floresta amazónica pela primeira vez e da impressão que me causou estar diante do que nomearia de “imensidão caótica do vivo” e por isso compartilho da abordagem do artista quando ele declara que a “selva é uma comunidade em si”. Os desenhos de Hakihiiwe são fascinantes, vemos nas linhas e pontos mínimos a coreografia da comunidade-selva de um ponto de vista ancestral (é bom lembrar que a tribo yanomami é uma civilização milenar). O movimento energético do desenho teorizada por Kandinsky manifesta-se aqui como um belo exemplo, mas isto sou eu a estetizar o que é mágico.

A exposição Urihi theri estará aberta ao público na Kunsthalle Lissabon, em Lisboa, até 5 de junho.

 

Roda Viva | Ailton Krenak | 19/04/2021

Fogo Cruzado LIVE: Como expor arte indígena?

 

Maíra Botelho escreve em PT/BR.

Maíra Botelho (1991, Brasil) tem uma formação multidisciplinar dentro dos campos da comunicação visual, artes plásticas, filosofia e performance. Atuou profissionalmente como designer gráfica no Brasil após se licenciar na PUC-MG, tendo ainda estudado Artes Plásticas na Escola Guignard - UEMG e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Recentemente concluiu uma Pós-Graduação em Estética - Filosofia na Nova Universidade de Lisboa.

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