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Entrevista a Luisa Cunha, vencedora do Grande Prémio Fundação EDP Arte 2021

Vencedora do Grande Prémio Fundação EDP Arte 2021, Luisa Cunha apresenta KMS na capa deste mês da edição online da UMBIGO. É neste contexto que colocámos algumas questões à artista, cujo longo percurso artístico e carreira consolidada comportam particular importância no contexto da arte contemporânea portuguesa assumindo uma relevância histórica preponderante.

 

Joana Duarte – Como é receber um prémio como o Grande Prémio Fundação EDP Arte 2021 passadas cerca de três décadas de trabalho?

Luisa Cunha – Muito inesperado. E muito gratificante.

JD – A Luisa é uma artista multidisciplinar. Utiliza vários suportes tais como textos sonoros, fotografia, desenho, vídeo, objetos, intervenções e performance. De que modo é que estes vários suportes se cruzam e/ou se relacionam?

LC – O ponto de encontro deles sou eu própria. Sendo suportes tão diferenciados exprimem uma mesma linguagem. Linguagem essa que contém uma transformação operada através dum espaço, de um filme, de uma leitura específica, de uma paisagem ou de uma conversa. As emoções sentidas são então traduzidas com grande sintetismo, quer se trate de fotografia, desenho, performance ou ainda texto sonoro.

JD – No seu trabalho, a linguagem verbal é um elemento fundamental. Existe um jogo permanente de construção e desconstrução de significados que desconstrói convenções e protocolos. É desconcertante ao mesmo tempo que cativante. Qual a importância da linguagem no seu corpo de trabalho?

LC – Embora sob a forma de textos sonoros, a linguagem é, na maior parte dos casos, visual e no caso das obras Ali vai o João (1996) e Biblioteca (2007) chega a ser fotográfica. Nalguns casos, os textos refletem uma indignação esculpida – é o caso de Frydm!. Noutros, afloram questões do público/privado, da esfera comunicacional ou ainda da relação espaço/tempo num determinado espaço, que é o caso da obra 1680 metros para a Bienal de São Paulo.

JD – E como é que a linguagem se relaciona com o espaço e com o corpo, elementos tão presentes e transversais a todo o seu trabalho?

LC – O corpo tem a sua linguagem corporal, o espaço uma linguagem espacial. Um corpo e uma mente disponíveis passam pelos espaços e dialogam, interagem e daí surgem palavras impregnadas das características daquela pessoa, no meu caso: o humor, a ironia, a consciência da nossa precariedade, etc.

JD – Algumas das suas obras – ou frases que constituem algumas das suas obras – são em português e outras em inglês. Existe algum critério para a escolha da língua que atribui às várias obras?

LC – Nenhum. Essas obras quando emergem trazem já uma língua e uma entoação. É uma questão de sonoridade, creio, não decido nada. O inglês tem a vantagem de não distinguir entre feminino e masculino e de ser muito sintético. Devo ter encaixado essas características na minha cabeça que nem preciso refletir.

JD – Muitas das suas obras são concebidas para um lugar específico, recordo-me da peça Até aqui, executada a propósito da exposição O material não aguenta, para o Atelier-Museu Júlio Pomar, em 2018, que implicou um corte no rodapé do edifício projetado pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira. Considera esta e talvez outras peças como sendo site-specific ou poderão ser adaptadas a outros lugares?

LC – Essa e várias outras podem perfeitamente ser adaptadas a outros lugares.

JD – A propósito da mesma exposição, realizou a performance Mapa Mundi ou Brown and Blue, em novembro de 2018. Momento único que deixou o público com vontade de assistir a mais. Planeia fazer alguma performance num futuro próximo?

LC – Não planeio nunca nada, como já várias vezes tenho dito. A ideia que pedir uma performance terá de ser concretizada nesse suporte.

JD – Fale-nos acerca da imagem escolhida para a capa deste mês da edição online da UMBIGO, retirada da série KMS, de 2008.

LC – Uma série de fotografias que tem mais uma vez a ver com a relação espaço/tempo e o mapeamento de troços de estrada. Sempre fui atraída por estes marcos que se iam tornando “passado” enquanto eu ia de carro: tão simples, tão totémicos. Esta série voltou a ser apresentada em 2012, em Lisboa e no Porto, fazendo parte do projeto OUTDOORS, da iniciativa de Sandro Resende.

JD – Para além do valor monetário do Grande Prémio Fundação EDP Arte 2021, o artista escolhido é homenageado através de uma exposição de caráter retrospetivo e/ou antológico. Existe já alguma ideia para esta exposição? Alguns detalhes, nomeadamente ao nível dos trabalhos a apresentar, que nos possa adiantar?

LC – As peças que considero icónicas estarão presentes. Igualmente presentes peças que tenham sido menos mostradas em Lisboa. A seguir, irei fazer uma seleção de todo trabalho feito entre 2007 e 2022.

JD – Para além da exposição a propósito do Prémio recebido, existem outros projetos futuros? Quais?

LC – Isto não é um projeto, mas sim finalmente uma concretização: ir à inauguração da Bienal de São Paulo em setembro. Em novembro, uma individual em Santiago de Compostela. Até lá, preparar essa exposição e as seguintes.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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