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Burned Against the Rear Fender: Monika Grabuschnigg na Lehmann + Silva

A galeria Lehmann + Silva inaugurou no passado dia 12 de abril a primeira exposição individual da artista austríaca Monika Grabuschnigg em Portugal. Burned Against the Rear Fender, nas palavras de Martin Jackson no texto da exposição, dá “continuidade às suas [Monika Grabuschnigg] investigações sobre o desejo corporal e cerebral”.

O primeiro contacto com a exposição é uma obra que arde – à entrada da galeria, somos confrontados com um painel de cerâmica que incorpora duas pequenas chamas, pendurado por correntes de ferro. À esquerda, no chão, vemos um conjunto de sapatos de plástico queimados, dobrados, deformados, também eles ardem. A utilização do fogo, um material/imaterial vivo, intensifica a estética surrealista das obras, que se relacionam com o espaço branco da galeria, clinicamente iluminada, como que artefactos de um gótico contemporâneo – provas de uma realidade não compaginável com o presente. Sente-se uma intenção de alienação da realidade, a artista apresenta as suas obras numa dimensão à qual estas não parecem pertencer. Não há uma tentativa de integração das obras no espaço, mas sim uma assumida descontextualização. Esta quebra entre os objetos expostos e o espaço que os expõe realça o carácter surrealista das obras.

Há ainda um conjunto de pequenas peças de pintura em cerâmica que, relacionando-se com a materialidade das restantes obras, introduzem a representação da figura humana. A inclusão da dimensão humana na exposição, através de pequenas figuras pintadas, remete para as primeiras formas de arte rupestre, para a necessidade humana de pertença através da imagem, através da representação. Estas figuras contrastam com a exposição pela sua forma, cor e temática, tendo apenas em comum com as restantes obras a sua materialidade. A relação entre obras, entre a criação e o criador, entre a exposição de um ambiente e a própria exposição, demonstram um equilíbrio entre o surreal e o real, entre uma estética cavernosa e o calor do fogo, o calor humano.

Monika Grabuschnigg, premiada em 2018 com o Berlin Art Prize, integra variadas coleções europeias, tendo sido indicada pela revista Artsy enquanto uma das 20 artistas mulheres a impulsionar a prática da escultura contemporânea. A exposição pode ser visitada na galeria Lehmann + Silva até 30 de maio.

Doutoranda de Filosofia na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa de Braga, é mestre em Crítica Curadoria e Teorias da Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e licenciada em Artes Plásticas – Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Em 2018 lança o primeiro número da revista Dose da qual é cofundadora e editora, e em 2020 funda o espaço de estúdio para artistas o.estúdio no Bonfim, Porto. Trabalha atualmente como artista plástica, curadora freelancer e escritora, tendo já contribuído com artigos para diversas publicações.

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