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Gaia: Salomé Lamas no gnration

A pandemia provocada pelo coronavírus não poderá ser um alerta para o modo extrativista, corrosivo e destrutivo como habitamos a Terra? Estaremos à beira da extinção? Partir para Marte, como Elon Musk propõe, poderá ser uma alternativa? Ou alterar a nossa presença no planeta, como sugere Daniel Christian Wahl? E se não fizermos nada, como argumenta Slavoj Žižek? Gaia, de Salomé Lamas, patente até 29 de maio no gnration, permite fazer estas questões e muitas mais, pelo meio dos projetos multidisciplinares, que resultam nas instalações Extraction: The Raft of the Medusa e Gaia, produzido no âmbito do programa Scale Travels, desenvolvido em parceira entre o gnration e o INL – Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia.

Na primeira sala, é apresentado Extraction: The Raft of the Medusa, onde o ambiente é escuro, iluminado por um foco azulado, que aponta para uma parte do chão com cascalho, encimado por um ecrã diagonal ao espaço. É nesta envolvente fria que assistimos à curta-metragem homónima, que segundo Salomé Lamas na entrevista a Justin Jaeckle: “foi uma tradução do quadro de Téodore Géricault A Balsa da Medusa (1818-19)… uma das obras mais citadas na arte contemporânea, para criticar a realidade”. O que se destaca da pintura histórica de Géricault é que as figuras representadas não são heróis mitológicos, mas vítimas reais de um naufrágio, junto à costa africana. O pintor escolheu o momento de maior tensão, quando os sobreviventes viam ao longe o navio que os iria salvar. O projeto de Lamas, como indica a folha de sala: “refere-se ao paradigma colonial, visões do mundo e tecnologias que marcam as regiões de alta biodiversidade de forma a reduzir a vida à conversão de recursos capitalistas com um enorme impacto ambiental e social”. Esta ideia é materializada no vídeo, pelo meio de um cenário, com uma plataforma formada por cascalho, sob uma pirâmide em tons claros (Despair), onde um conjunto de homens brancos entrelaçados, lutam para se manterem naquele espaço diminuto, rematado por uma pirâmide negra invertida (Hope), paralelismo com a composição geométrica de Géricault. Ao longo deste combate desesperante entre corpos nus, muitas vezes dissolvidos em plano pormenor, ouvimos uma voz: “Consumir, poluir, destruir… Jangada onde estamos todos… Nem toda a gente comprou bilhete”, em simultâneo a uma banda sonora que acompanha o arco narrativo, que culmina com o desaparecimento da massa humana, num fumo denso, como se uma nave tivesse descolado. Talvez uma metáfora relacionada com a Medusa, figura feminina da mitologia grega, que quem quer que olhasse diretamente seria transformado em pedra e a ganância extrativista da humanidade, que cada vez mais perde a ligação com a natureza e se vai tornando coisa.

Quando entramos em Gaia, instalada contiguamente, tudo é silencioso e negro. No entanto, ao andarmos, calcamos cascalho ruidoso e o nosso olhar vê alguma claridade, que nos dirige para uma placa com uma imagem de um meteorito comprado no eBay (proveniente de Campo del Cielo) e um QR code. Ao acionarmos o código e colocarmos os auscultadores, somos transportados por faixas sonoras, que descrevem a viagem do meteorito há milénios pelo espaço, passando pela Via Láctea, embatendo na Terra e testemunhando todas as alterações do planeta, até ao apocalipse e a esperança por um mundo novo. Banda sonora composta por música eletrónica, sons da natureza, ou música clássica, que merece ser acompanhada pela leitura dos textos anexos à exposição, com partes da investigação realizada pela autora, nomeadamente excertos do seu diário, ou citações de pensadores contemporâneos (alguns deles já apontados no início desta redação), que nos dirige a experiência expositiva. Gaia, na mitologia grega é a Mãe-Terra. Este projeto retrata a contemporaneidade face às alterações climáticas, por ainda estarmos a refletir sobre as várias hipóteses de uma extinção e as múltiplas soluções para que tal não aconteça.

Existe uma ligação poética entre Extraction: The Raft of the Medusa e Gaia, quer pela primeira anunciar que só existe uma balsa para um grupo de privilegiados se salvar do apocalipse, quer pela segunda desenvolver a viagem até à nossa extinção, através de um objeto extraterrestre. A exposição pensa o Antropoceno, reforçando o conceito de interdependência, como base para as nossas obrigações éticas em relação aos outros.

Gaia, de Salomé Lamas, até 29 de maio no gnration.

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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