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Solfatara, de João Jacinto

Em Solfatara [1], as matérias sulfurosas inspiram o magma primitivo e expiram a pele da terra. Ao contrário dos vulcões extintos, a dormência expressa-se através da respiração, de um movimento diáfano onde o amarelo enxofre envolve as nuvens de vapor e gás.

Na obra de João Jacinto, a respiração vulcânica constitui-se corpo da pintura. Tal como as profundezas da terra, se elaborássemos uma monitorização química das telas, poderíamos inferir as estruturas que permeiam as camadas invisíveis ao nosso olhar. Contudo, entre o tempo do corpo e o tempo geológico, sabemos que um dia a latência poderá dar lugar à erupção.

O mergulho na obra do pintor remete-me para um excerto fílmico de Herzog [2] sobre Katia e Maurice Krafft, dois investigadores que dedicaram a sua vida ao estudo dos vulcões. Contudo, ao fazê-lo, teriam de se expor e caminhar nas margens das terras ígneas. Em 1991, foram submersos por um fluxo piroclástico no Monte Unzen, no Japão. Ambos estavam cientes do risco da aproximação física, da sua imprevisibilidade inerente, mas tal nunca foi motivo para se afastarem da boca dos vulcões.

Quando visitei a exposição Solfatara, João Jacinto revelou-me que era um perigo as pinturas permanecerem no seu atelier. De algum modo, perante o corpo do artista, estariam sempre inacabadas. Algumas telas sofreram sobreposições hápticas ao longo do tempo; outras foram rasgadas, destruídas e compostas por uma moldura envolvente dos resquícios precedentes.

Ao longo de décadas, o artista aprofundou-se nas pinturas como um laboratório vulcânico em atividade, traduzindo-se a sucessão de gestos em devir material poiético: ação subtil de umas matérias sobre as outras.

O instante [3] ultrapassou a constância e absorveu a falha, a morte, o fracasso, a erupção. As escolhas-gestos do pintor traduziram-se em momentos existenciais onde o tempo e a eternidade se intersetam… E a deriva do(s) corpo(s) expandiu-se para o outro, para aquele que experiencia a obra de arte in loco, na boca do vulcão, no espaço da exposição, onde a respiração sulpha terra nos conduz para além da imagem do dispositivo, no sentido inter-material da pintura.

Solfatara, uma exposição individual de João Jacinto, na Galeria 111, em Lisboa, até 5 de junho de 2021.

 

[1] Vulcão Solfatara, Nápoles, Itália. Disponível aqui.

[2] HERZOG, Werner, Into the Inferno – Katia and Maurice Krafft, 28 de outubro de 2016. Disponível na Netflix.

[3] Alusão ao conceito de Instante de Søren Kierkegaard, 2017. Disponível aqui.

Margarida Alves (Lisboa, 1983). Artista, doutoranda em Belas Artes (FBAUL). Investigadora bolseira pela Universidade de Lisboa. Licenciada em Escultura (FBAUL, 2012), mestre em Arte e Ciência do Vidro (FCTUNL & FBAUL, 2015), licenciada em Engenharia Civil (FCTUNL, 2005). É artista residente no colectivo Atelier Concorde. Colabora com artistas nacionais e estrangeiros. A sua obra tem um carácter interdisciplinar e incide sobre temas associados à origem, alteridade, construções históricas, científicas e filosóficas da realidade.

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