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Rezo os dentes da tua boca, de Fábio de Carvalho

“Seja o que for o que ela dê a ver e qualquer que seja a maneira, uma foto é sempre invisível: não é ela que vemos.” Roland Barthes in A Câmara Clara.

Eu me lembro do primeiro gesto: com o meu braço direito afasto uma cortina preta. E assim adentro uma sala iluminada por luzes vermelhas habitada por instantes cristalizados em papel: fotografias de diferentes dimensões instaladas nas paredes, uma no chão, e uma suspensa por fios conectados ao teto. A sensação era a de que estava rodeada por sussurros do fantasmagórico, espécies de evidências que pareciam me levar adiante, para um tempo utópico, ou me reportar para trás. Estava em um lugar íntimo, de escolhas particulares de um olhar que compôs; que observou e escolheu um objeto ou um momento para ser guardado.

As luzes vermelhas fazem referência ao laboratório fotográfico. Um espaço em que a magia da química acontece (alquimia?). Capturar a luz e transcrevê-la para o papel é algum tipo de feitiço da modernidade. Há uma fascinação por esse método que a fotografia digital não alcança. Nesse sentido, a exposição Rezo os dentes da tua boca, de Fábio de Carvalho, é efetiva. Efetiva no sentido de que transporta corpos e os impele a experienciar a atmosfera da revelação e da descoberta, da imagem no seu estágio embrionário, do “tomar forma” da fotografia em particular, mas também do processo criativo que o artista constrói e desconstrói.

As fotografias expostas não expressam uma narrativa singular, são manifestações do que Roland Barthes define como “spectrum” da fotografia. Palavra que mantém, através de sua raiz, uma relação com o “espetáculo”. São imagens-índices da ocasião do encontro entre lente-olhar e um instante transcorrido; acrescentando essa coisa um pouco terrível que há em toda fotografia: o retorno do morto. Como José Pardal Pina escreve no texto de sala, Rezo os dentes da tua boca não é tanto sobre o que se retrata, mas sim uma investigação sobre a natureza da fotografia, a sua materialidade e os seus limites.

Além da instalação composta por fotografias e luzes vermelhas, há na sala expositiva uma janela intencionalmente à mostra, já que outras janelas estão tapadas. Do interior vemos frações do prédio e árvores. Vemos uma delimitação da vida exterior, do quotidiano e do momento presente. A presença desse enquadramento contrapõe com a imagem suspensa das fotos e ainda remete a outro processo técnico da fotografia: o visor como o dispositivo ótico.

Fábio de Carvalho busca em sua concepção de montagem expositiva colocar o corpo do visitante em movimento. Um exercício fenomenológico da fotografia que se inicia no abrir das cortinas. A exposição está patente na Sala do Lado, em Lisboa, até 31 de maio de 2021 e está sujeita a marcações.

 

A autora escreve em português do Brasil.

Maíra Botelho (1991, Brasil) tem uma formação multidisciplinar dentro dos campos da comunicação visual, artes plásticas, filosofia e performance. Atuou profissionalmente como designer gráfica no Brasil após se licenciar na PUC-MG, tendo ainda estudado Artes Plásticas na Escola Guignard - UEMG e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Recentemente concluiu uma Pós-Graduação em Estética - Filosofia na Nova Universidade de Lisboa.

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