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Liebestod – Amor e Morte: Vasco Araújo no Sismógrafo

Liebestod – Amor e Morte, de Vasco Araújo, com a curadoria de Bruno Marques, patente até 15 de maio de 2021 no Sismógrafo, propõe uma reflexão acerca do amor romântico, da paixão e da sua impossibilidade, através do vídeo e da instalação, que resulta de uma investigação realizada pelo artista, compreendendo entrevistas a psicanalistas do Azerbeijão e da Alemanha, que analisam as óperas Tristão e Isolda e Leyli e Majnun, respondendo a questões sobre o significado do amor, as relações dos protagonistas, a desilusão e a perda, permitindo ao espectador questionar sobre se a morte é a solução para o amor eterno.

Bruno Marques, curador da exposição, na folha de sala esclarece: “Vasco Araújo desmonta o artifício no qual assenta a retórica do drama. Enquanto exercício de desconstrução, se o artista expõe ao espectador os códigos, as falácias e contradições inerentes à narrativa e à encenação do espetáculo operático, o espectador, em compensação, entrega-lhe a inocência do seu imaginário, para que a sua consciência, a respeito das armadilhas do amor romântico, possa ser beliscada.” De acordo, ao passarmos as cortinas pretas que servem de entrada a Liebestod, emergimos num ambiente instalativo enegrecido, apenas iluminado por luzes azuis pontuais, que nos apontam para vários quadros, com excertos de textos e imagens que iremos ver mais tarde no vídeo apresentado ao fundo da sala em formato auditório.

Liebestod, apresentada pela primeira vez em 2019, no Azerbeijão, parte da estrutura em quatro atos de Leyli e Majnun, para uma desconstrução espacial, narrativa e sintática. Justaposição de imagens em movimento, textos e fotografias; da ficção, pelas paisagens de ambientes bucólicos, com coloração expressiva, sonorizada pelas óperas, do documentário, pelas entrevistas realizadas a psicanalistas; e de duas lendas eternizadas pela oralidade, ambas sobre o amor trágico, porém uma da cultura ocidental e outra da oriental, do cristianismo e do islamismo, pressupondo a universalidade e a atualidade da temática.

Na exposição, há um uso da montagem proveniente do cinema, enquanto operação sintática, narrativa e espacial. A ligação entre as artes visuais e o cinema, assim como o seu inverso, tem um longo percurso, sob múltiplas formas, práticas e investigações teóricas. Delfim Sardo, em O Exercício Experimental da Liberdade (2017), afirma que esta relação surge: “Em primeiro lugar, como processo mútuo de referência (…). Em segundo lugar, como processo operativo: as artes visuais absorveram do cinema os mecanismos de montagem e edição que lhe são próprios (…). Por fim, o cinema entrou no universo das artes visuais como um dispositivo espacial.” Esta ideia de montagem remete para Eisenstein, que tem como pressuposto a combinação de duas partes, de modo a criar-se um novo conceito, uma ideia de obra total, tal como Vasco Araújo explora Tristão e Isolda/Leyli e Majnun, ficção/documentário, espacialidade/imagens em movimento. No mesmo sentido, ainda nos recordamos de Wagner e do seu Gesamtkunstwerk, que parte do teatro e da ópera, da junção de saberes e práticas artísticas, por forma a uma arte totalizante, e que em Liebestod, as várias justaposições resultam num ambiente instalativo à parte da realidade das cortinas que delimitam o espaço expositivo, como se se tratasse de um cenário.

Por fim, ainda no âmbito da montagem dialética de Eisenstein, é importante referir a proposta de Aby Warburg, Atlas Mnemosyne, uma conceção da história da arte articulada através de várias analogias, um espaço de pensamento e de análise, que por sua vez advém da identificação dos Pathosformel. Conceito que, como afirma Delfim Sardo, “podemos tentar traduzi-lo como fórmulas de pathos, isto é, uma formulação da história de arte como recorrência de emoções partilhadas, de comunidades emocionais a partir de sobrevivências e ressurgimentos de movimentos”. Curiosamente, Pathosformel é o nome do projeto expositivo que Vasco Araújo inaugurou na Galeria da Escola das Artes da UCP no final do ano passado, e que justamente se tratava de uma obra interdisciplinar, em que havia, tal como em Liebestod, uma desconstrução sobre o modo como nos relacionamos com o mundo e com o outro, uma montagem de várias práticas artísticas, de signos e de narrativas, sobre o desejo, o amor e a ilusão, que nos permitiu formular novas questões, pela totalidade de referências apresentadas.

Liebestod – Amor e Morte, patente no Sismógrafo, pode ser visitada até às 19h00 de 15 de maio de 2021.

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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