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Fábio Colaço, Portraits, na Galeria Nave

Ambiguidade. Talvez essa seja a chave do trabalho de Fábio Colaço. Uma “chave-mecanismo” que proporciona o acesso a diferentes portas cognitivas para olhares díspares. A potência da análise na simplicidade propositiva é o grande êxito de sua abordagem de temas sociais, políticos e económicos. Na sua mais recente exposição, Portraits, Colaço utiliza a pintura como média para expor uma ideia, ou melhor, a torção de uma ideia que se manifesta em uma provocação. Trata-se de trinta retratos a óleo sobre tela de líderes do séc. XXI de diferentes contextos políticos e culturais. Canvas de 30 x 40, instalados lado a lado, formam duas sequências de retratos fixados em uma única superfície.

A torção se expressa a partir de duas “dobras” formais criadas pelo artista: 1. As figuras são representadas embaçadas, airbrushed, de tal forma que a fisionomia se torna de difícil reconhecimento. 2. Figuras fictícias imaginadas pelo artista estão entre os retratos de líderes contemporâneos e a identidade dos retratados não é revelada.

O que é oferecido para o público é um convite de recognição. Quem são os líderes representados? A identificação de uns e não outros gera outros questionamentos: por que a imagem de certos personagens de relevância internacional são facilmente reconhecíveis? A cosmopolitização de certos líderes estaria diretamente ligada a imagem construída por esses? Seriam os líderes – representantes de um coletivo – estabelecidos e reconhecidos como tal por conta do uso da sua própria imagem como ícone? O quão estamos conscientes do nosso consumo repetitivo e involuntário da imagem de personagens líderes diariamente em diferentes médias?

Mercedes Céron, diretora artística da galeria, escreve no catálogo da exposição: “A série Portraits explica-se facilmente se consideramos que a sociedade atual – e conforme o que a própria história já nos apresentou, é representada numa cena teatral composta por figuras líder que retratam a sociedade.” Partindo do pressuposto de que estamos todos envolvidos em uma “cena teatral”, representando papeis no desenrolar de uma narrativa, retratos de líderes como vultos não identificados supõe uma representatividade em potencial – está nos olhos de quem vê a capacidade de dar-lhe forma e reconhecimento, ou seja, afirmar o papel que estes ocupam enquanto líderes.

Portraits, exposição individual de Fábio Colaço está patente na Galeria Nave até o dia 29 de maio de 2021 em Lisboa.

 

A autora escreve em português do Brasil.

Maíra Botelho (1991, Brasil) tem uma formação multidisciplinar dentro dos campos da comunicação visual, artes plásticas, filosofia e performance. Atuou profissionalmente como designer gráfica no Brasil após se licenciar na PUC-MG, tendo ainda estudado Artes Plásticas na Escola Guignard - UEMG e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Recentemente concluiu uma Pós-Graduação em Estética - Filosofia na Nova Universidade de Lisboa.

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