Top

Entrevista a Aric Chen, curador da exposição X não É Um País Pequeno – Desvendar a Era Pós-Global, no MAAT

X Não É Um País Pequeno – Desvendar a Era Pós-Global é uma exposição com curadoria de Aric Chen com Martina Muzi, que está patente no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa. A exposição explora a condição pós-global em que vivemos e os fenómenos de “desglobalização” e realinhamento geopolítico a que assistimos. Processos que foram acelerados durante a atual pandemia. Conversámos com Aric Chen a propósito destes temas.

 

Joana Duarte – O título da exposição X Não É Um País Pequeno refere-se ao mapa Portugal não é um país pequeno concebido por Henrique Galvão nos anos 30 que apresentava a superfície do império português sobreposta, e, portanto, comparada, com a dos principais países da Europa. Fala-nos desta analogia trazida numa época pós-colonial e que serviu de ponto de partida para a exposição.

Aric Chen – É sempre minha intenção trazer tópicos que sejam interessantes para mim e que de algum modo se relacionem com o local onde a exposição acontece.

Sendo um americano que vive na China há treze anos, questões relacionadas com a pós-globalização ou com o desenrolar da globalização, como a conhecemos nos últimos trinta anos, têm estado muito presentes na minha mente, assim como na de muitos designers, artistas e arquitetos.

Quando estive em Portugal, o modo como a discussão pós-colonial estava ou talvez, não estivesse a acontecer, atraiu-me. Ao regressar a Xangai, tropecei na noção de pluricontinentalismo que era defendida pelo Estado Novo nos anos 30 e que é manifestada neste icónico cartaz. Esta ideia fascinou-me e forneceu-me uma âncora local histórica para pensar acerca de questões muito contemporâneas.

A ideia de que a noção de Estado-nação estava a ser tão radicalmente redefinida, ou que pelo menos estava a tentar ser radicalmente redefinida pelo então governo, relacionada com o modo como algumas dessas relações coloniais mudaram, especialmente desde a crise financeira de 2008, pareceu-me ser um excelente ponto de partida para explorar um campo mais vasto.

JD – Falando desse campo mais vasto, assistimos a processos de “desglobalização” e de realinhamento geopolítico que assinalam uma era pós-global. O que é a condição pós-global e de que se tratam os processos que lhe estão associados?

AC – É chamada “pós-global” porque não sabemos o que realmente é. E quando não sabemos o que algo é, adicionamos simplesmente a palavra “pós” antes da palavra.

JD – É algo que vem depois.

AC – Exatamente. E isso significa o que vem depois? O que é aquilo? Muitas pessoas da minha geração, desde a década de 90, vêm a globalização como uma espécie de caminho inexorável para uma interconexão e abertura cada vez maiores. Esta tem sido a realidade nos últimos 30 anos que vemos agora desmoronar-se. Isto não significa necessariamente que estamos perante um fenómeno de desglobalização. O que é fascinante agora é que assistimos a processos que ocorrem em simultâneo que muitas vezes seguem uma lógica contraditória. De algum modo as coisas estão a fechar-se ao mesmo tempo que outros canais se estão a abrir. Canais que não seguem ideologias, sistemas de valor ou mesmo, grandes rivalidades de poder do mesmo modo que costumavam. Assistimos à implementação simultânea de uma espécie de micro-estratégias que por vezes entram em conflito. É, assim, com esse tipo de mundo composto por múltiplas lógicas que se desenrolam ao mesmo tempo que temos que nos começar a familiarizar e habituar. Todos dizem que o mundo está a ficar mais complexo, e é exatamente isso que queremos dizer com complexidade.

JD – Doze anos após a crise financeira global, altura em que o processo de globalização abrandou, assistimos a fenómenos que indicam uma espécie “fecho” do mundo progressivo – guerras comerciais, crise de refugiados, um crescente nacionalismo, o Brexit, entre outros. De que modo é que estes fenómenos afetam o “fluxo transnacional” de pessoas, ideias e recursos?

AC – Sim, é isso que estamos a tentar resolver agora, coletivamente. E é isso que alguns artistas, designers e arquitetos que participam nesta exposição exploram. Devo reforçar que conforme algumas coisas se fecham, outras vão-se abrindo. O projeto do Brick Lab, estúdio de arquitetura com sede em Jeddah, na Arábia Saudita, analisa as implicações do relaxamento daquele país, antes dominado por um regime conservador religioso extremamente duro, face à legalização de espaços de cinema. Penso que muita gente sabe que durante muito tempo os cinemas foram proibidos na Arábia Saudita como parte dessa repressão mais ampla à modernização, ocidentalização e liberalização que começou na década de 1980. Muito recentemente os cinemas foram legalizados, assim como muitas outras ações foram permitidas. Antes da pandemia estive em Jeddah e provavelmente vi mais pessoas a tocar música e a dançar na rua do que nas ruas de Chicago, onde cresci. Portanto, este tipo de abertura é real.

Ao mesmo tempo que se instala o Brexit, que assistimos ao aumento do populismo em toda a Europa, aos anos Trump nos EUA, existem estados autoritários, como a Arábia Saudita que representam um novo tipo de abertura.

Recentemente a China tenta convencer o mundo de que é porta-estandarte do livre comércio e do transnacionalismo através da iniciativa Belt and Road. No ano passado, enquanto estávamos a trabalhar nesta exposição, Israel reestabeleceu as relações diplomáticas com os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein. Uma vez mais, o mundo não está apenas a fechar-se, está também a abrir-se. Mas, o que está a causar estas flutuações é a parte interessante.

JD – Perante os fenómenos contraditórios a que assistimos em simultâneo, quer de fecho, quer de abertura, como referes, para onde pensas que caminhamos? Talvez o fenómeno que melhor evidencia um fecho seja um dos mais recentes, a pandemia, que de algum modo o acelerou drasticamente. A globalização que, promovendo uma ligação global de pessoas e bens, proporcionou uma rápida difusão a nível mundial da pandemia, acaba ela própria por ser afetada por este vírus que conduziu à interrupção da livre circulação de pessoas e impôs o encerramento de fronteiras. Quais poderão ser as consequências deste processo? Regressaremos a um mundo fragmentado composto por Estados-nação? Ou, pelo contrário, cultivaremos o mundo plural que a globalização proporcionou e que de algum modo se enfatizou perante a situação atual verificando-se alianças entre governos, ideologias, empresas e cidadãos face à pandemia?

AC – Primeiro a crise financeira de 2008 e agora a pandemia, ambas relevaram as fraquezas da globalização. Não só em termos de dependência de cadeias de suprimentos e atritos geopolíticos, mas também de desigualdades e aí por diante.

Agora, penso que o cenário otimista é, como dizes, cultivarmos um mundo mais plural e encontrarmos maneira de essas contradições coexistirem para podermos encontrar um equilíbrio e uma convivência produtiva da diferença. Este é o cenário ideal. Se isto irá acontecer, não sabemos. Uma vez que assistimos a uma condição híbrida de olhar para dentro, contando com o olhar para fora. Se esta condição funcionar bem, poderá ser muito construtiva, mas se não funcionar bem, pode ser extremamente perigosa.

Na China, o governo propõe agora um conceito a que chama de dupla circulação. Trata-se de um conceito económico que se aplica à geopolítica. Basicamente traduz-se no foco no desenvolvimento tecnológico e económico interno e no consumo em nome da autossuficiência ao mesmo tempo que as fronteiras continuam abertas para o comércio e envolvimento externo.

Penso que é este tipo de direção que todos estamos a tomar, e que talvez seja um outro enquadramento da ideia local-global ou “Glocal” falada nas últimas décadas.

Isto é algo muito difícil de equilibrar já que estamos programados para pensar em binários, preto ou branco, certo ou errado. É por isso que vemos todo o tipo de discursos a dirigirem-se para extremos por meio de ciclos de reação e resistência. E é aí que se torna perigoso. Se pudermos permitir que esses binários coexistam e encontrarmos forma de trabalharem juntos, esse seria sem dúvida o melhor resultado. No entanto não tenho a certeza se o poderemos fazer.

JD – Como achas que poderemos encontrar um ponto de equilíbrio entre coisas que são completamente opostas?

AC – Não é apenas preto ou branco ou cinza. Precisamos de explorar os cinzas, mas para além dos tons cinza também podemos explorar a coexistência entre o preto e o branco.

JD – E de que modo a arte pode ser expressão deste tipo de pensamento crítico?

AC – Bom, acho que a resposta está exatamente na tua pergunta. Ou seja, a arte, o design, a arquitetura, a cultura, ajudam-nos a dar sentido e a articular ideias, questões e desafios muito complexos, por vezes abstratos e aparentemente intangíveis. Ao ajudar-nos a entender isso não quero dizer que a cultura vai salvar o mundo, mas pelo menos dá-nos uma base para que tenhamos discussões construtivas.

JD – Referindo os nove projetos que trouxeste para esta exposição, apresentados por designers, arquitetos e artistas de diferentes geografias, eles próprios constituem pensamentos críticos acerca dos temas de que falámos anteriormente. Fala-nos de alguns destes projetos e dos pensamentos que lhes estão associados.

AC – Queríamos com esta exposição criar uma espécie de paisagem pós-global de uma forma quase literal. Esta ideia foi maravilhosamente expressa e articulada pelos designers da exposição, Bureau, e a designer gráfica, Joana Pestana.

A exposição progride de um universo o mais “real” e imediato possível para um universo mais especulativo. Descendo a rampa da galeria oval do MAAT, o que se vê ao longo da parede é uma série de cartazes Pro-EU que Wolfgang Tillmans tem vindo a criar e divulgar desde o referendo do Brexit em 2016. Isto é algo que vem do mundo real com o qual os visitantes se podem identificar e relacionar uma vez que experienciaram muitos dos episódios que figuram nesses cartazes.

Este percurso é dividido pela Teeter-Totter Wall, uma recriação da intervenção de Ronald Rael & Virginia San Fratello em 2019 na parede da fronteira dos Estados Unidos com o México. Cortando a galeria literalmente ao meio, este é também um projeto muito real.

Entrando numa dimensão mais especulativa, Jing He, designer chinesa que mora na Holanda, criou três cenários nos quais a tipologia do arco triunfal assume novas formas e significados na Coreia do Norte, em Kunming, a sua cidade natal, e no Cambodja.

Já Revital Cohen e Tuur Van Balen desenvolveram um projeto investigando o próximo New London Casino em Macau. Este é um casino construído pela Sands Corporation, cujo fundador era um importante doador político tanto para Trump como para Netanyahu, Primeiro Ministro de Israel.

Esta exposição é acerca de como a situação global está a mudar tão rapidamente e o quão imprevisível é. No decorrer da exposição, Sheldon Adelson, fundador da Sands, morreu, Trump não foi reeleito, alterando-se a situação da fronteira entre os Estados Unidos e o México e a política de imigração nos EUA. As coisas continuam a mudar, felizmente neste caso, para melhor. Tem sido realmente fascinante ver as coisas acontecerem em tempo real à medida que as investigamos através desta exposição.

JD – Coloco uma última questão que penso ser a indicada para concluir muitos dos tópicos referidos ao longo desta entrevista. Existe um outro tipo de globalização do mundo, uma globalização proporcionada pelos meios digitais. Neste momento, estamos a ver-nos e a conversar e encontramo-nos em diferentes partes do mundo. A interconectividade mundial proporcionada pela internet, que nos permite estar permanentemente em contacto com qualquer parte do mundo, é cada vez mais utilizada, nomeadamente face a todos os fenómenos que referimos. Qual será o impacto da atual era pós-global no mundo digital?

AC – Essa é uma muito boa pergunta. Na verdade, acertaste em cheio, já que o surgimento do digital é tanto uma causa como uma consequência dos processos exatos que temos vindo a falar. Por um lado, está a unir-nos como nunca pensámos ser possível, por outro lado está também a fragmentar-nos.

Provavelmente acabaste de colocar a maior questão, á qual eu não sou capaz de responder de forma conclusiva. Voltando ao que já referi, não é apenas preto e branco, não é apenas cinza, mas é preto e branco ao mesmo tempo. O que precisamos para melhorar é negociar esses opostos, ou binários, ou o que quer que sejam, ao mesmo tempo, certo? E esses binários incluem o digital e o físico, e também o modo como eles interagem entre si.

 

X Não É Um País Pequeno – Desvendar a Era Pós-Global com curadoria de Aric Chen com Martina Muzi, é sem dúvida uma exposição cuja visita é indispensável para uma reflexão acerca do mundo atual e poderá ser vista até 6 de setembro no MAAT.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €25

(portes incluídos para Portugal)