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Leite Derramado

A irreversibilidade da vida é concomitante à força do presente. A vida é acionada, transformada e comandada pelo presente, sem hipótese de recurso, recuo, renovação. Quando muito, há um hiato transitório ou preparatório, que antecede a próxima ação e que é ditado, por vezes, por acontecimentos universais, sistemáticos ou societários. O livre arbítrio e as possibilidades infinitas que cada vida pode ter são quimeras absurdas num “par ação-reação” permanente. É a vida possível, negociada sempre pelas circunstâncias do presente, sem que isso comprometa, todavia, a capacidade de superação.

Aludindo ao ditado popular de “chorar sobre o leite derramado”, a exposição Leite Derramado, na Zaratan – Arte Contemporânea, é um ensaio conjunto sobre essa inevitabilidade do presente, da factualidade incontornável que nos fita inexoravelmente, sem que a consigamos esquecer ou, sequer, ludibriar. É, por outras palavras, um confronto com a realidade do contexto pós-pandémico, que não significa – ao contrário do que possa parecer – a ultrapassagem ou a cura plena da pandemia, mas a sua aceitação no quotidiano, a naturalização nas rotinas de cada indivíduo ou sociedade e a consequente ressignificação de uma vida que já não é e que tem de ser entendida, vivida, experienciada sob um novo prisma.

Há uma certa domesticidade que não escapa e que é ampliada pelo próprio espaço expositivo. Cenas de intimidade, pequenos pormenores, o tempo contido, suspenso, à espera de ação… A tensão entre um tempo que não volta para trás, um tempo que tarda em passar ou um tempo que se pretende fugaz, impetuoso ou enérgico existe em cada momento de Leite Derramado. É uma omnitemporalidade que pede escrutínio e chama por um entendimento mais profundo dos fenómenos de dilatação e contração temporais a que a pandemia e os sucessivos confinamentos nos sujeitaram.

Simultaneamente, esta foi uma oportunidade para novas produções ou, alternativamente, reorganizar arquivos e criar novos nexos dentro dele.

Do seu confinamento, Frederico Brízida devolve-nos o corpo enquanto território de exploração pornográfica e busca dum prazer que se parece esfumar e virar sonho. Próximo também da ideia de paisagem, Pedro Gramaxo alia a nova produção às restrições de circulação e ao confinamento junto de lugares onde a natureza é abundante. Luísa Cunha recria uma obra em gesso de 2007, reiterando fisicamente o que poderia ser o leite derramado a um canto da sala. Pedro Cabrita Paiva propõe a distorção dos objetos após um longo período de tédio e apatia, no qual “passou o tempo a olhar para o teto”. É o derretimento dos objetos, da luz, do que se tinha por adquirido até há bem pouco; um objeto que muda de estado; um falo que perdeu o vigor e agora descansa sob o efeito da gravidade da conjuntura atual. Fábio Cunha expõe um momento de intimidade, aborrecimento e desafio, em que a vida familiar acontece a par de uma compulsão digital. São os imperativos sociais, que se fundem com os familiares, que se confundem com o trabalho. Sara & André resgatam o que sobrou de um exercício de exposição de documentos aos elementos naturais durante o confinamento.

Entretanto, um queijo aguarda decomposição. Ou cura.

Cada obra expressa uma mística própria de cada momento de frustração, melancolia, enfado, repetição, comum a todos os que viram o seu quotidiano reconfigurado por força do vírus. Mas há também humor, experimentação e prazer – lenitivos para uma realidade heteróclita e inaudita, que requer confronto e compreensão.

No entanto, é igualmente notório um esforço de combatividade, de ver no leite-derramado-que-não-volta-ao-pacote uma hipótese de enfrentar a tradição dum sector cultural que se viu paralisado e ausente, nalguns casos, de apoio. A exposição não deixa, portanto, de olhar para os próprios métodos e contextos de produção e de espelhar as circunstâncias precárias e limitadas em que muitos artistas trabalham.

Porque certos sistemas estão para lá da sua manutenção ou recondução. Muitos sistemas estão para lá recuperação e vão inevitavelmente morrer no esquecimento alheio. Se não vale a pena chorar pelo leite derramado, também não vale a pena olvidar o descuido ou a distração que nos levaram a derramá-lo numa primeira instância.

Leite Derramado está patente na Zaratan – Arte Contemporânea até 15 de maio, com a curadoria de Pedro Gramaxo.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, arquitetura…

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