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The Air-Conditioned Nightmare, de Diogo Bolota

Inaugurou a primeira exposição individual de Diogo Bolota na galeria Uma Lulik_, The Air-Conditioned Nightmare, que pode ser visitada até ao dia 22 de maio. À primeira vista, ao entrar no espaço expositivo, somos confrontados com uma instalação composta por oito esculturas que parecem distantes do trabalho do artista, mas à medida que o olho se ajusta à baixa luminosidade imposta, descobrimos a ligação inerente ao corpo de trabalho de Bolota.

A instalação pode ser entendida como um conjunto desenhado a pensar no todo, a materialidade das esculturas em grupo contribui para uma narrativa que interpretamos como individual ao observar cada uma das diferentes peças. Um pouco como Diogo versa no seu texto “Ser” não é um “pedaço” mas um todo, comunicando-nos a sua ideia construtiva do espaço. Há qualquer coisa de visceral em descobrir ao mais ínfimo pormenor cada parte do todo, ao entrarmos na sala escura que lembra um qualquer laboratório experimental, ou algo que se assemelhe, pois com a luz ténue é difícil caracterizar ao certo a sala em que nos encontramos, deixando apenas as obras respirar.

Descobrimos no espaço central uma carcaça de bovino, que transmite a ideia da passagem do tempo, há quanto tempo estará assim? Quão longa terá sido a vida do bicho que agora se deita na mesa para ilustrar a nossa condição frágil, que do pó vimos e que ao pó voltamos? Apesar dos objetos representados serem novidade nos trabalhos expostos do artista (taxidermia, animais, mutações animalescas), o tema da condição humana é-lhes comum. A questão do envelhecimento está presente, que muitas vezes retrata através da dentadura e que aqui faz com o esqueleto.

Em torno do centro, o espaço é adornado com outros bichos, que impõem esta ideia de dissecação e de descodificação do corpo – um peixe, um sapo, uma ave. Os bichos esventrados não são à escala real, se o fossem haveria algo monstruoso num sapo de 3 palmos de comprimento, mas a sua dimensão ajuda ao sentimento de medo e insegurança e, pela primeira vez, falamos de morte. O artista aborda a passagem do tempo e de estados, mas raramente a morte. Há um bife (falso) no canto da sala, que conversa com a carcaça de vaca – dois estados, duas mutações, uma vida e uma morte.

Mas, nesta pintura desmembrada, há uma luz que vibra, um coração que pulsa, escondido, num canto da sala que só vemos à segunda vista. É a promessa que para haver morte, tem de haver vida. Cada uma das esculturas representa uma vida, a passagem do tempo que não controlamos. Se o título da exposição remete para o escritor Henry Miller, muitas vezes associado a um quase auto-biografismo, podemos entender o coração pulsante como a presença do artista sobre a obra.

Begin this moment, wherever you find yourself, and take no thought of the morrow. (…) Do your part to the best of your ability, regardless of the consequences.” Henry Miller, em The Air-Conditioned Nightmare, dá-nos o mote para a exposição, e para a vida. Resta-nos esperar para ver o que Bolota traz a seguir.

Concluiu a Licenciatura em Relações Internacionais com um minor em Ciências da Comunicação, na Universidade Nova de Lisboa, e o Mestrado em Mercados de Arte, no ISCTE. Tem vindo a colaborar com alguns projetos culturais como a AZAN, o ProjetoMAP e a REDE art agency. Assistiu à produção da exposição ProjetoMAP 2010-2020 Mapa ou Exposição, no Museu Coleção Berardo, e produziu a exposição I WILL TAKE THE RISK, na AZAN. Esteve envolvida na edição do livro ProjetoMAP Mapa de Artistas de Portugal e contribui para publicações como a GQ Portugal.

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