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Sustentabilidade e Arte – Parte II

Desde tempos pré-históricos que o Homem se relaciona com a natureza, transformando os ambientes à sua volta ao mesmo tempo que procura perceber as forças do planeta, as cores, imagens, padrões. Desde esses tempos, os artistas têm sido profundamente influenciados, desenrolando-se em movimentos artísticos com diferentes práticas e pensamentos. O paradigma para o contemporâneo dá-se com características fundamentais como a primazia do discurso conceptual, a transgressão permanente da fronteira entre arte e não-arte e o alargamento do campo artístico. São características importantes para a proximidade à ecologia e à sustentabilidade, uma vez que existe mais permeabilidade e flexibilidade dentro do campo artístico. Caminhamos para um momento de consciencializar o público, criar diálogo, mudar comportamentos e encorajar o respeito pelo meio ambiente, que tanto precisamos nesta fase de crise ambiental. Estará a resposta no apostar na regionalização em vez de na globalização? Ou mesmo apostar no local? Será a prevalência do online em detrimento do físico? Ou poderá haver um misto? É necessário perceber qual o percurso palmilhado entre o antes e o agora, no que toca à busca pela sustentabilidade na arte.

Numa altura em que as preocupações se prendem com questões climáticas, ambientais e de preservação do nosso planeta, torna-se um assunto extremamente atual pensar os vários movimentos artísticos, já que as suas preocupações continuam muito patentes nas obras dos artistas contemporâneos. Podemos associar estes pareceres a muitos artistas, ao longo dos séculos, com a sua preocupação em pintar paisagens naturais e o crescimento das cidades e da indústria de modo negativo, mas foi a partir do século XXI que se conceptualizou, cada vez mais, tomando como inspiração as várias correntes anteriores – respeitando o meio ambiente, apelando para a reciclagem com o uso de materiais diferentes, passando mensagens com base nos princípios da sustentabilidade. Falamos da Land Art, que precedeu a Environmental Art, seguida da Green Art e da Eco Art, mas o que lhes é sempre comum é a centralidade no ambiente. O seu pioneiro foi Robert Smithson, sendo a sua obra mais conhecida Spiral Jetty (1970), mas também um largo grupo de artistas experimentava formas de responder às questões ambientais, como De Maria, Robert Morris ou Richard Long. A Land Art pode ser considerada como uma primeira experimentação que traz luz à nossa noção de perceção do ambiente como conceito. Hoje, importa refletir a capacidade de moldar comportamentos e práticas para lá dos domínios normais, adotando abordagens mais pragmáticas e plurais, que são fulcrais no debate sobre as alterações climáticas e a necessidade de se agir para práticas sustentáveis. Hoje, além dos artistas que foram vanguardistas na sua essência, importa pensar o papel dos vários agentes da arte.

As conquistas da globalização possibilitam gerar discursos críticos de reforço à cidadania, impondo a responsabilização, direitos e deveres. Desta forma, surgiram evoluções e marcos históricos no mundo da arte. A Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES), que inicia em 1975 e estabelece o enquadramento legal em termos internacionais com vista à conservação e à sustentabilidade da fauna e da flora, está em vigor em mais de 180 países do mundo, a fim de regular e monitorizar o comércio de espécies. O grande objetivo é o de travar o uso de espécies em vias de extinção, como o marfim e a tartaruga, para beneficiar a vida das populações locais e do planeta. Sem se saber o que viria a ser a crise climática da atualidade, já se dava um largo passo na direção de práticas sustentáveis. Como exemplo, de um modo geral, ainda se enfrentam problemas como o abate de elefantes para marfim, a caça ilegal, a transformação de terra, a desflorestação e a rápida expansão humana, que têm de ser combatidos a nível global, uma vez que há países que continuam a permitir o comércio do marfim oriundo do Zimbabué e da Zâmbia. De lembrar que foi no Zimbabué que o leão Cecil foi morto – a preço de ouro.

É importante que se juntem as figuras do mundo das artes para decidir que práticas podem trazer mais sustentabilidade ao mundo da arte, seguindo o mote de Frances Morris, diretora do Tate Modern, que no ano passado anunciou um plano ambicioso para a sustentabilidade do museu: “Chegou um momento em que devemos oferecer compaixão, liderança e reconhecimento criando um contexto para o setor das artes visuais evoluir”. Podemos implementar à escala exemplos como usar um método de car pool para transportar as obras de arte ou usar caixas transportadoras para várias obras de forma reutilizável. Sobretudo, é importante que se inteirem dos 3 Rs – que as famílias há muito conhecem – reutilizar, reciclar e reduzir. Outra ideia que surgiu da conferência We Make Tomorrow, promovida pelas Serpentine Galleries, foi a de apostar em exposições com temas ligados ao ambiente, para trazer (ainda) mais atenção ao tema. Mais que tudo, percebeu-se que o mundo da arte não pode continuar a operar da mesma maneira. É necessário atualizar modelos de negócio e desafiar o status quo.

É importante perceber como o mundo dos mercados de arte funcionava antes da pandemia, quer o panorama das feiras de arte, que se espalham pelo mundo de forma exponencial, do ponto de vista global, quer das galerias, do ponto de vista local. Bem como o funcionamento de museus e bienais. Antes, as galerias eram nacionais. Agora, não há galerista que não mostre artistas de outros países. Podemos analisar também a proliferação de feiras internacionais, com cada vez mais nacionalidades presentes, mas não podemos dizer que sejam efetivamente globalizadas, já que há sempre um peso regional significativo. As feiras de arte continuam a ser o centro das atenções. Nas últimas duas décadas, tem havido um crescimento no interesse pelos eventos deste género. Em 2000, existiam cerca de 55 feiras internacionais estabelecidas no mercado, crescendo drasticamente para quase 300 em 2018, adicionando-se ainda as feiras regionais e locais. Estes valores resultam num sistema sobrepovoado, numa expansão muito superior ao que o mercado pode suportar, com feiras quase todas as semanas do ano. Ainda assim, acredita-se que o número de feiras tenha chegado ao seu limite e que, a partir de agora, comecem a ser consolidadas apenas as mais importantes, decrescendo o número de eventos anuais. Pode ser vantajoso de um ponto de vista sustentável, já que haverá menos eventos a decorrer a nível internacional – o que levará a menos viagens e deslocações em massa. Existiu, em tempos, uma mudança do modelo de negócio prevalente dos mercados de arte, do local para o internacional, catapultado pelas feiras internacionais, que pode ser explicado em parte pela melhoria da comunicação, da internet e dos preços mais baixos das passagens aéreas. Haverá espaço para pegar nos exemplos que se praticam no “novo normal” que vivemos e aplicá-los a novos modelos de negócio?

Ao longo dos últimos anos, o número de visitantes em feiras tem-se alterado – o que pode trazer vantagens do ponto de vista sustentável. A feira TEFAF Maastricht perdeu 4% dos seus visitantes. No entanto, este valor pode ser justificado por ter aberto outras duas feiras, em Nova Iorque, uma na primavera e outra no outono – o que possibilita aos colecionadores deslocarem-se a estas feiras, mais perto, em vez de irem à primeira. De um ponto de vista sustentável, é positivo que aconteça – fomenta a regionalidade e uma diminuição de deslocações aéreas poluidoras. Apostar no local e na regionalização é também algo já feito por alguns galeristas e organizadores de feiras, como o caso da Art Fair Tokyo, que em vez de aspirar ao internacional, aposta em experiências locais. Também o online tem vindo a ganhar campo e expressão nos mercados de arte, ainda antes de romper a pandemia, e é de se tirar o maior proveito deste modelo: isto inclui vendas através de websites de dealers e leiloeiras, plataformas ou mesmo vendas exclusivas online. E mais, é de esperar que este seja um modelo em crescimento e que caracterize o futuro dos mercados de arte, para lá dos tempos confinados.

Um movimento mais ecológico vai continuar a crescer e a diversificar-se, empresas começam a produzir bens orgânicos, recicláveis e biodegradáveis, mais produtos ecofriendly e feitos com materiais reciclados (assim como algumas peças de arte); instituições governamentais, instituições sem fins lucrativos e empresas começam a dedicar-se e a agir com o futuro em vista. Como resultado, mais pessoas começam a ter comportamentos que coadunam com as medidas sustentáveis. A arte sempre foi uma forma de representação, ação e divulgação e, se o continuar a ser de forma a “abrir os olhos” à sociedade, podemos atingir grandes progressos e dar largos passos até ao comportamento sustentável e ambientalista – individual e em sociedade – que o planeta tanto precisa.

Concluiu a Licenciatura em Relações Internacionais com um minor em Ciências da Comunicação, na Universidade Nova de Lisboa, e o Mestrado em Mercados de Arte, no ISCTE. Tem vindo a colaborar com alguns projetos culturais como a AZAN, o ProjetoMAP e a REDE art agency. Assistiu à produção da exposição ProjetoMAP 2010-2020 Mapa ou Exposição, no Museu Coleção Berardo, e produziu a exposição I WILL TAKE THE RISK, na AZAN. Esteve envolvida na edição do livro ProjetoMAP Mapa de Artistas de Portugal e contribui para publicações como a GQ Portugal.

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