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Anda, Diana: Entrevista a Diana Niepce

Anda, Diana é a nova criação da coreógrafa e bailarina Diana Niepce. Nesta peça, Diana reivindica o seu corpo como lugar revolucionário e, ao fazê-lo, coloca em cima da mesa a possibilidade de qualquer corpo ocupar este lugar. O corpo que vai sendo Diana nasce da relação com os outros dois corpos em cena (Bartosz Ostrowski e Joãozinho da Costa), expandindo-se na intimidade que surge do contacto com os mesmos. Esta intimidade foi reservada à esfera privada, mas não lhe pertence exclusivamente. Diana Niepce faz com que o público experiencie a intimidade dos corpos-que-se-tocam lembrando-nos que, de uma maneira ou de outra, somos também aqueles corpos. Pegando nas palavras da bailarina, “não se trata de procurar o meu corpo no corpo do outro, mas sim de ir ao encontro do outro”. Os corpos são corpos porque habitam uma esfera de entendimento e perceção comum, sendo esta porventura a maior declaração da peça: não se é corpo sozinho. Anda, Diana está em cena no Teatro do Bairro Alto até 24 de abril.

Rodrigo Fonseca – No início da peça, aquelas figuras fizeram-me muito lembrar acrobacias. A maneira como te posicionavas, os teus braços, estares quase sempre pendente… Tinha que ver com algum imaginário do teu passado?

Diana Niepce – Ao longo da peça, as ideias de não gravidade e de tridimensionalidade estão bastante presentes. Há uma viagem de construção do corpo, um corpo morto, hirto, que vou construindo através do corpo deles. Ao construir este corpo, vou usando imagens que têm algo de escultórico, surgem figuras que se assemelham a deusas, Cristos… Estas figuras vão gerando tensão, vão reconstruindo o meu corpo e, sim, muitas destas técnicas são técnicas de circo/novo circo que pretendo trabalhar mais no campo performativo. A peça tem um tempo longo, duracional… Queria trabalhar a verticalidade do corpo, do corpo que se verticaliza, do corpo que gera tensão e que, ao mesmo tempo, é um corpo frágil. A fragilidade do corpo é muito poética, mas no quotidiano não damos espaço para que ela nasça, não temos acesso ao detalhe, ao pormenor… Isso acontece na intimidade. Anda, Diana é também sobre a queda, sobre o corpo que cai – eu na peça caio muitas vezes.

RF – Durante o espetáculo, há um jogo constante entre os dois bailarinos em cena, um jogo de peso e contrapesos, de vaivém. Tu és sempre o volante, mas a tua base muda constantemente.

DN – É um jogo de tensão, de contrapesos, de forças de oposição. É muito detalhada e milimétrica a forma como isto acontece, porque o risco está muito presente. A forma como tenho trabalhado passa por explorar a extensão dos corpos uns nos outros. Tenho estado a trabalhar estas tensões há algum tempo, tanto que na minha última peça esta qualidade já estava presente. Os corpos em Anda, Diana não funcionam isolados e, quando se separam, deixam o espectador numa zona de desconforto. Claro que o meu corpo tem a linguagem do passado, de bailarina e acrobata. O meu novo corpo é uma grande fusão de técnicas. Esta peça é também um diário (editado pela Sistema Solar), escrito de forma muito crua, muito exposta, violenta e sarcástica. Na peça, tentei criar uma atmosfera onírica, com um tempo muito próprio, de modo a que o público pudesse experienciar o corpo que vai sendo construído.

RF – A música no início da peça tem uma qualidade metálica, obscura e intimista, no entanto, no momento em que estás sozinha de pé no centro da cena, a música transforma-se e surge uma atmosfera mais delicada… Ouvem-se uns passarinhos.

DN – Há uma ambiguidade recorrente na peça: É violento? É poético? No jogo entre nós os três, está também presente a ideia de submissão, de dominação dos corpos… O meu corpo finalmente dança no momento em que se separa por completo do deles. Anda, Diana explora a imagem do corpo que dança. O imaginário da música desta peça vai beber muito aos sons produzidos por uma ressonância magnética. Já fizeste alguma ressonância magnética?

RF – Não.

DN – A ressonância tem um som muito eletrónico (trum trum trum). Parece um ambiente de guerra. A primeira coisa que fazes quando tens um acidente é uma ressonância magnética. Parte da ideia de como o som habita este espaço, um espaço que pode ser visto como uma viagem um pouco assustadora. O Gonçalo Alegria (som) tem usado muito as descrições destas experiências que escrevi no livro e, sim, o som dos pássaros é algo presente nas ressonâncias magnéticas! Serve para te descontrair. Esta peça é muito importante para mim devido à reformulação do meu corpo. Porém, interessa-me também a reformulação dos outros corpos: O que é o corpo que dança? Qual é a hierarquia do corpo performativo? Este tipo de questões tem-me acompanhado há algum tempo. O meu corpo é uma transformação do corpo anterior de dança. Não é muito óbvio para um(a) bailarino(a) como trabalhá-lo nem como trabalhar comigo! Nunca percebem bem qual é o meu nível de fragilidade, há muito medo de cair! Sou uma pessoa tetraplégica, há um grande nível de risco nas coisas que faço, mas interessa-me explorá-lo. O risco coloca-te num estado de contemplação que dá acesso a uma nova forma de olhar o corpo.

Rodrigo Fonseca (1995, Sintra). Estudou na Escola Artística António Arroio, é licenciado em História da Arte pela FCSH/UNL, e pós-Graduado em Artes Cénicas pela mesma faculdade. Viajou pela Europa central, pelos Balcãs, América do Sul, e viveu na Itália, Grécia, e Brasil. O seu trabalho artístico desenvolve-se na música e no corpo, entre a pele da planta do pé e a pele da superfície do chão. Organiza e programa o festival Dia Aberto às Artes (Mafra), e é membro fundador da associação cultural A3 - Apertum Ars. É um dos fundadores da CusCus Discus. Participou como músico no espetáculo CusCus World Musik Radio 196.7 FM, apresentado em Bruxelas (Festival Vivarium, 2019), Lisboa (Desterro, 2019) e Marselha (La Deviation, 2020). Participou como performer no espetáculo PARAANDAR, inserido no Festival Snow Black 2019 (Moita), e no evento A TROPA BELADONA (2019), na ADAO - Associação Desenvolvimento Artes e Ofícios (Barreiro) — produções d’A Bela Associação.

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