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Ciclo Ernesto de Sousa: Revolution OUR Body

Desde há uns meses que, na minha agenda, quinta-feira à tarde não era dia de visitar novas exposições. Desta vez, escrevi no dia 8 de abril “Inauguração Appleton com vários !!!” por saber onde iria toda a gente para fugir de casa. A ocasião da exposição é, também, coincidente com o alvoroço da esperada retoma, o Ciclo Ernesto de Sousa (1921-1988), que celebra o centenário do nascimento do artista. A reprodução do filme de intervenção em Super8 Revolution My Body no. 2, projetada sobre 3 folhas de papel/ecrã, convidava os visitantes da exposição a desenharem estrelas, assinaturas e sombras. A peça era uma filmagem realizada pelo artista, que documenta uma manifestação de operários. Fiquei durante algum tempo a observar os gestos de cada um dos intervenientes, eram característicos, com uma técnica própria. A reação geral era, contudo, a de esperar pelo momento certo do filme como se o que fossem desenhar marcasse aquele instante. O frame onde o pincel tocava a folha permanecia estático no papel através da linha pintada, perpetuando simultaneamente a justaposição de todas as imagens.

Antes da visita a esta exposição, revisitei nos arquivos da RTP a reportagem de João Manuel Rocha de Sousa sobre a exposição coletiva Alternativa Zero (1977), organizada pelo artista celebrado na Appleton, da qual restam os carimbos que acompanham a intervenção no papel/ecrã. A preto e branco, a AZ é descrita: “experiência não muito usual”, “não imediatamente acessível ao público”, “francamente polémica” e “exposição entre aspas, digamos assim”. Esta iniciativa, em que participaram nomes como Helena Almeida, Julião Sarmento, Alberto Carneiro, Ana Hatherly, entre outros igualmente relevantes, foi um marco nas práticas artísticas conceptuais e de new media na história da arte portuguesa. O programa de exposições e eventos iniciado por Ernesto de Sousa trouxe para a esfera pública a provocação e, em retrospetiva, o seu trabalho como artista e curador estabeleceu, a longo prazo, exigências conceptuais e críticas ao sistema artístico português dos anos 70. Uma reação em cadeia que se prolongou até aos anos 90.

Por sua vez, dia 8, ao ver à porta do espaço da Appleton todo o aparato artístico contemporâneo desde artistas, curadores, críticos, galeristas e interessado-curiosos, relembro o título do filme mostrado, bem como Rocha de Sousa, que durante a reportagem propõe o levantamento de questões fugindo a juízos de valor concretos. Pondo-me também no lugar de outros corpos e avaliando as linhas condutoras defendidas por Ernesto de Sousa. Passados 32 anos da sua morte, indago:

O que evoca o trabalho exposto de Ernesto de Sousa?

O que significa, agora, a revolução artística?

São os artistas que lideram a vontade de mudança?

Há sequer esse desejo…?

Faz parte, não só do sistema da arte contemporânea, mas também da sua crítica, especular sobre os caminhos da criação artística. Em especial, neste momento de incertezas e de um potencial retorno das quintas-feiras a um espaço em branco na agenda. Talvez resida ainda nos artistas, essa possibilidade de pensar uma exposição depurada de todos as conceções previamente estabelecidas.

No piso de baixo do espaço Appleton, inaugurava a exposição da jovem artista Maria Ana Vasco Costa, que projetou, através de uma enorme folha aguarelada de azul glaciar, o cenário de Ice Ice Baby. O título que, segundo a artista, se apropria da música de Vanilla Ice, constrói um contexto expositivo binominal. Dada a aparência gelada daquela sala, existe também uma energia intrínseca. Foram dispersados no chão objetos que se apresentam com essa mesma dualidade: brilhantes e secos; maciços e ocos; pesados e leves. E é dessa ambiguidade que parte a artista para transmitir a sobreposição de significados e memórias que, tal como a água gelada dos glaciares, preservam. Ice Ice Baby é a lembrança de Vera Appleton do seu dearest friend Michael Biberstein, que a levou a escrever uma carta-relato sobre a exposição de Maria Ana e a esperança de “voltar a viver”. Nas suas palavras: sobre o corpo-revolução dos artistas que vivem dentro de outros artistas, encontro a resposta às minhas questões anteriores.

O Ciclo Ernesto de Sousa e a exposição Ice Ice Baby estão abertos ao público até ao dia 22 de abril. Depois de Rafael Toral, Pedro Sousa vem brindar-nos com um segundo concerto no âmbito do Ciclo Ernesto de Sousa (nessa mesma data, pelas 20h).

Licenciada em Artes e Humanidades (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2018), é programadora cultural e curadora independente de arte contemporânea. Em paralelo com a frequência do Mestrado em Fine Arts Curating (Goldsmiths, University of London), dedica-se à investigação de espaços expositivos não convencionais e metodologias curatoriais alternativas. (retrato por Hugo Cubo, 2020)

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