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Entrevista a José Maçãs de Carvalho

Inaugurado a 4 de julho de 2020, o Centro de Arte Contemporânea de Coimbra (CACC) vem reforçar a importância da cidade no panorama da Arte Contemporânea em Portugal integrando, nas palavras de José Maçãs de Carvalho, o polígono cultural da cidade. Corpo e Matéria trata-se da primeira exposição de um ciclo de três intitulado De que é feita uma Coleção? e conta com curadoria de José Maçãs de Carvalho e David Santos, incluindo obras de Allan Sekula, Amadeo de Souza-Cardoso, Ana Vidigal, Antoni Muntadas, Antoni Tàpies, António Palolo, Douglas Gordon, Eduardo Batarda, Gerardo Burmester, Helena Almeida, João Louro, João Tabarra, João Vieira, Joaquim Bravo, Joaquim Rodrigo, John Baldessari, Jorge Martins, José de Guimarães, José Loureiro, Julião Sarmento, Júlio Pomar, Maria Helena Vieira da Silva, Nikias Skapinakis, Paul Morrison, Paula Rego, Pedro Cabrita Reis e Rui Chafes.

Fluxo e Metamorfose inaugurou a 9 de abril.

 

Daniel Madeira – De que modo poderemos considerar esta edificação, no sentido simbólico, como um elemento descentralizador no panorama da Arte Contemporânea em Portugal? Ou será que poderemos falar de uma nova centralidade?

José Maçãs de Carvalho – Antes de mais, é claro que o Ministério da Cultura iniciou uma política de descentralização e de atenção para a da Arte Contemporânea. Desde logo, pela transferência destas 193 obras do Estado para Coimbra durante 25 anos, mas também pela criação da figura do Curador da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, na pessoa do David Santos. É também nesse sentido que o David Santos fará, em conjunto comigo, a curadoria das três primeiras exposições do CACC a partir da coleção do Estado em depósito em Coimbra e que corresponde em grande parte à coleção que pertencia ao BPN e que foi adquirida no início de 2020 pelo Estado.

Do nosso ponto de vista, (Município de Coimbra e do projeto que apresentei) o objetivo é contribuir para ajudar Coimbra a sedimentar uma posição no campo da arte contemporânea, que de resto tem sido relevante, nas últimas décadas. Esta sedimentação tem-se feito notar com vários agentes: o CAPC e o seu novo folego, a Bienal de Arte/AnoZero, também a excelente programação do CAV, a Galeria do Colégio das Artes com propostas laboratoriais no campo da curadoria, o TAGV, o Museu Municipal, galerias privadas e outros espaços independentes, assim como com as várias atividades constatáveis em áreas contíguas: o teatro, a performance, a dança e o cinema. De realçar igualmente a geografia cultural da cidade.

Há uma psicogeografia que favorece a proliferação artística: desde logo a longevidade e a qualidade de algumas estruturas, depois a localização dos diferentes pontos, relativamente concentrados na zona da Alta, Universidade, Praça da República e Baixa, criando naturalmente um percurso pedonal de fácil acesso entre todos estes espaços. Em suma, uma concentração geográfica que favorece a prática e a receção artísticas. Ora, diria que a ambição é que Coimbra se mantenha vital e se consolide como lugar central na Arte Contemporânea.

DM – Pegando no título escolhido para este ciclo de três exposições com curadoria de José Maçãs de Carvalho e de David Santos, de que é então feita a coleção de 193 obras da coleção de Arte Contemporânea do Estado, que faziam parte da coleção ex-BPN? Como a descreveria em traços gerais (sabendo de que se trata de um work in progress eventualmente)?

JMC – Antes de mais diria que este conjunto de obras pretende ser uma coleção, como um acervo quer ser um arquivo. É difícil encontrar, à partida, uma identidade definida para este conjunto de obras. Nota-se que as aquisições não tinham linhas orientadoras e prospetivas. É um conjunto muito heterogéneo, errático, ao contrário de outras coleções no país com forte marca do colecionador ou dos conselheiros e que têm uma visão de conjunto, coerente. Aquilo que poderia ser um problema pode tornar-se um desafio. Desde logo, de positivo, há o facto de estas obras terem sido resgatadas do esquecimento. Entretanto, o que eu e o David Santos estamos a fazer é um estudo das obras e a sua projeção curatorial para três exposições. É uma espécie de autópsia para encontrar vários fios narrativos ou núcleos compreensivos. No fundo, eu e o David, olhamos para elas com a mesma exaltação que qualquer colecionador sente quando adquire obras. É tudo novo, mas pode permitir ligações inesperadas, de obras que não tinham a disposição de estarem juntas. Importante é que as obras sejam devolvidas ao olhar do público, depois de tantos anos “desaparecidas”.

DM – Depois de Corpo e Matéria, poder-nos-á revelar o título e o conceito a aplicar na próxima exposição?

JMC – Fluxo e Metamorfose. Esta segunda exposição coloca em relação obras que representam diversas abordagens desses conceitos, com dinâmicas formais e cromáticas na superfície da imagem, ou experiências informais… veremos imagens marcadas pela metamorfose, entre figuração e abstração nas quais a matriz vem do inconsciente ótico ou da força criativa em exercícios de liberdade absoluta, marcados por imagens de fluidez…

A terceira exposição, que encerrará este ciclo comigo e com o David Santos, aproximará obras que intrinsecamente têm narrativas vincadas e que colocam em tensão ou em diálogo a imagem e a palavra.

DM – Acerca deste primeiro espaço, provisório, que limitações encontraram ao gesto curatorial? Quais as potencialidades do mesmo?

JMC – A reabilitação deste espaço faz parte de uma política de reabilitação do Centro Histórico por parte da Câmara Municipal de Coimbra. Este edifício, que durante vários anos foi utilizado por um banco, não estava a ser usado e foi escolhido pela sua posição no coração do centro histórico da cidade de Coimbra, junto ao Arco de Almedina, num local que recebe um excelente fluxo de pessoas. É impossível deixar de ver o edifício. Esta escolha, assim como outras que afastam determinados edifícios da especulação imobiliária e os aproximam do poder público onde podem ter estas funções culturais, enquadra-se na candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura.

A Câmara Municipal de Coimbra assumiu o facto de este edifício ser um local provisório, não deixando de garantir todas as condições museológicas necessárias e legais, com o máximo de qualidade. É uma excelente galeria em três pisos. Há algumas limitações (era um edifício de escritórios) como por exemplo o pé direito, que dificulta a mostra de algumas obras, mas mesmo assim tem várias virtudes como o facto de ter uma escada central que permitir ver o edifício em movimento. O acesso às obras é feito de modo ascendente – pode fazê-lo descendentemente a partir do elevador. Há uma cadência para o visitante que me parece interessante.

DM – Que vantagens trará o novo espaço – a antiga sucursal da Manutenção Militar em Coimbra?

JMC – A Divisão de Projetos com a Divisão de Museologia e eu próprio temos estado a trabalhar no programa preliminar para o novo edifício do Centro de Arte Contemporânea de Coimbra na antiga sucursal da Manutenção Militar na Avenida Sá da Bandeira. Está praticamente finalizado de forma a que, em muitos poucos meses, possa ser posto a concurso de Arquitetura para a sua reabilitação. Tenho trabalhado com a Câmara Municipal nesse sentido, de forma a identificar as necessidades, que irão muito para além das necessidades atuais do presente edifício. Aliás, posso dizer que quer o Presidente, Manuel Machado, quer a Vereadora da Cultura, Carina Gomes, estão pessoalmente empenhados para que seja um projeto prioritário. Um projeto para o futuro próximo, não apenas a pensar na coleção do Estado.

Será um edifício com dois andares: com um corpo principal e outro corpo adjacente. Entre esses dois corpos há a ideia de criar espaços intermédios de circulação e para atividades culturais. O novo edifício vai permitir ter bastante mais obras em exposição permanente, e será um salto gigante na expressão do Centro de Arte Contemporânea, não só por uma questão de espaço, mas essencialmente por permitir acrescentar à Coleção do Estado uma outra coleção de obras de Arte Contemporânea que a Câmara Municipal de Coimbra tem na sua posse. Para além disso, faz parte do programa que apresentei uma política de aquisições anual atribuindo a este projeto também uma missão mecenática. Relativamente à curadoria, gostaria imenso que o CACC trabalhasse exclusivamente a partir de coleções privadas ou institucionais, muito por ter sido uma coleção que motivou a criação do mesmo – coleções locais numa primeira instância e mais tarde alargado a uma dimensão nacional. Há uma série de coleções privadas em Portugal a crescer de uma forma exponencial, e os colecionadores acabam por não ter espaço para as obras. No futuro, o CACC pode tornar-se numa espécie de casa do colecionador.

Trata-se de criar uma identidade distinta dos outros Centros de Arte do país.

DM – Poderemos ver, mais tarde, uma itinerância da Coleção do CACC em diálogo ou não com outras coleções em outros Centros de Arte pelo país?

JMC – Eu diria que os próximos anos devemos sedimentar a Coleção na cidade e na região na relação com coleções que terão de ter sempre uma grande relevância no campo da Arte Contemporânea. São vários os colecionadores quer da cidade quer da região com coleções que contam com bastante qualidade, e que demonstram uma grande atenção ao panorama dos últimos 30/40 anos da Arte Contemporânea portuguesa e até internacional.

DM – Como é que encontraram a coleção no início da vossa investigação? As informações relativas à mesma estavam dispersas ou havia alguma espécie de base de dados atualizada?

JMC – Toda a operação em torno da coleção ex-BPN foi das operações mais rápidas, eu diria quase da história de Portugal. Repare: o Ministério da Cultura adquire formalmente a coleção no início de 2020, no dia 4 de julho desse mesmo ano estávamos a inaugurar no CACC. Adquiri-la formalmente, identificar e peritar todas as obras… foi o processo mais rápido de sempre no que toca a este tipo de processos. As obras estavam identificadas pelas duas Sociedades ligadas à liquidação do BPN e encontravam-se à guarda de uma empresa especializada em conservação, mas tiveram de ser todas peritadas pelo DGPC num processo longo, eficaz e pragmático, permitindo que todas tivessem condition report para poderem viajar. Concomitantemente, todas as obras de reabilitação do edifício ficaram igualmente prontas atempadamente, num trabalho inexcedível por parte de todas as equipas da Câmara Municipal de Coimbra, com especial relevância para a Divisão de Museologia e à Elisabete Carvalho. Conseguimos por exemplo identificar as galerias que venderam a maior parte das obras, mas não temos mais nenhum tipo de informação. O que pode ser encarado como um problema pode também ser visto como um desafio: a ausência de um passaporte identitário desta Coleção é o nosso desafio (meu e do David Santos) – procurar a identidade a partir do projeto curatorial num exercício de análise, hermenêutico, interpretativo, projetivo. Em suma, trata-se da construção de um atlas cujo corolário máximo da sua identidade será uma política de aquisições anuais, fazendo do CACC um lugar entre outros polos importantes do país que possa marcar a diferença, criando um novo ponto de atração na cidade de Coimbra.

DM – Conseguimos, através dela, entender a história da arte contemporânea portuguesa ou há “vazios temporais” que quebram essa cronologia?

JMC – A cronologia desta coleção é pouco precisa, ou seja, temos obras muito diversas – a sua falta de identidade até nesse campo se manifesta. O que se nota é que há um maior número de aquisições de obras de determinados períodos, mas que provavelmente coincidem com relações comerciais do banco com determinadas galerias. Se temos uma predominância de determinadas obras dos anos 60/70 provavelmente isso decorre da predominância de determinada galeria na relação com as aquisições do banco. Há esses pequenos aspetos. Para lhe responder, a Coleção do ponto de vista cronológico é abrangente, mas tem núcleos com poucas obras e tem artistas só com uma obra ou artistas com duas obras de um determinado período, não permitindo uma identificação artística clara desse mesmo artista. Parece-me mais interessante que a política de aquisições crie um rasto com pequenos núcleos de obras em vez de ir ao mercado aumentar alguns destes núcleos, que de tão pequenos ou não existem obras no mercado para os complementar ou as que existem terão preços extremamente elevados. Parece-nos mais pertinente a aposta em artistas jovens e em meio-de-carreira que encontrem filiações com estes pequenos núcleos. Por exemplo, temos duas obras de Mário Cesariny e uma do Joaquim Rodrigo, seria muito difícil complementar através do mercado. Será mais interessante e sustentável encontrar afinidades partindo das práticas identificáveis destes núcleos e destes artistas, projetando-as nas práticas artísticas atuais.

DM – Em paralelo com esta primeira exposição, Corpo e Matéria, foi organizado um ciclo de conversas com nomes relevantes do panorama artístico nacional. De que forma este ciclo complementa a exposição?

JMC – O ciclo de conversas faz parte dos processos de mediação e de comunicação do CACC e da própria coleção tendo como motivação, no centro nevrálgico ou conceptual, a ideia de Coleção. Foi assim que ele nasceu e é a partir desta ideia que olhamos para o futuro. Achamos que um ciclo de conversas, utilizando todos os recursos competentes no país e também em Coimbra, claro está, procurando identificar, através da experiência dos convidados, um panorama das últimas décadas ao nível das coleções, dos centros de arte, dos museus, e das políticas culturais no campo da Arte Contemporânea.

A primeira conversa com Sandra Vieira Jürgens, Miguel von Haffe Pérez e Pedro Pita mediada por mim e pelo David Santos centrou-se em fazer uma revisão das políticas públicas para a arte, para os museus e para a museologia por um lado e, por outro, perceber o que poderá ser importante para o futuro. Na segunda conversa com Celso Martins e Isabel Nogueira o debate centrou-se obviamente nos aspetos da crítica de arte, na sua expressão nos media e nas publicações académicas.

O ciclo de conversas incluía mais duas atividades que foram, entretanto, adiadas: uma aula aberta/pensamento em ação, que se baseia na mimetização dos processos de investigação académicos na arte, lecionada por mim e pelo meu colega Pedro Pousada e uma recolha de depoimentos de várias figuras da cidade de Coimbra acerca de várias obras da Coleção, num momento de aproximação à diversidade do espectador por um lado, e de aproximação do próprio CACC à cidade. Esta matriz será transportada para a segunda e a terceira exposição deste ciclo, do ponto de vista do dispositivo, mas variando na questão dos assuntos e das ideias a abordar. Todos estes elementos servirão para incluir uma mediateca do CACC para consulta e investigação futura.

Há também um aspeto muito importante a realçar neste campo da relação com outras entidades: estamos a fazer protocolos no campo da mediação, serviço educativo, e curadoria, para já, com o Mestrado em Estudos Curatoriais do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra numa ligação, a meu ver, fundamental para criar uma dinâmica nova, jovem e atualizada no campo da curadoria. Temos, aliás, já uma estagiária que fará um primeiro estudo da coleção com participação ativa no campo curatorial e na mediação, de forma a que o CACC também seja um lugar de produção de conhecimento.

 

Artistas presentes em Fluxo e Metamorfose

Andy Denzler

Antoni Muntadas

Antoni Tàpies

António Dacosta

Art & Language

Carlos Calvet

Eduardo Batarda

Eduardo Nery

Fernando Calhau

Francisco Laranjo

Frank Thiel

Helena Almeida

Ilda David

Jason Martin

João Hogan

João Paulo Feliciano

Manuel Casimiro

Mário Cesariny

Menez

Miguel Barceló

Nadir Afonso

Nikias Skapinakis

Pedro Calapez

Pedro Chorão

Peter Zimmermann

Pia Fries

Vespeira

 

José Maçãs de Carvalho é artista, curador e professor universitário. Doutorado em Arte Contemporânea pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra (2014). Estudou Literatura na Universidade de Coimbra (anos 80) e Gestão de Artes em Macau (anos 90) – onde trabalhou e viveu. É professor no Departamento de Arquitetura e no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra (coordenador do Mestrado em Estudos Curatoriais). É artista e usa a fotografia desde 1990 e o vídeo desde 2000. Publicou vários livros e está representado em coleções institucionais e privadas. É também curador do Centro de Arte Contemporânea de Coimbra.

Daniel Madeira (Coimbra, 1992) é licenciado em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e mestrando em Estudos Curatoriais na mesma universidade. Coordena desde 2018 o Espaço Expositivo e o Projeto Educativo do Centro de Artes de Águeda.

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