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Entrevista a Alice Bonnot

Alice Bonnot é uma curadora independente, cujo interesse passa pelo desenvolvimento de práticas curatoriais e artísticas ambientalmente sustentáveis, impulsionadas por soluções ecológicas. Desenvolve atualmente um programa de residências artísticas sustentáveis na zona rural de Lisboa. Bonnot fala sobre a importância das práticas verdes e partilha com honestidade ambições e uma visão para criar um novo modelo de residências artísticas sociais que seja ambientalmente sustentável.

 

Josseline Black: Tendo em conta o teu trabalho nos últimos anos, o que te levou a abordar questões prementes, como a crise ambiental e climática?

Alice Bonnot: Sempre tive interesse em comissariar exposições com uma motivação social e política. Acts of disruption, a exposição que comissariei em janeiro de 2018 no The Concept Space, em Londres, é um bom exemplo, pois convidou o público a questionar as estruturas sociais e os valores existentes. A exposição respondeu à ideia de que a interação, a resistência e a perturbação são alguns dos primeiros passos na construção de uma sociedade alternativa e na disrupção do status quo. Os oito artistas que escolhi abordaram questões sociopolíticas através de diferentes aspetos, incluindo os impactos do capitalismo, do consumo massificado e da autoridade imposta às pessoas e ao planeta. Ultimamente, os impactos das alterações climáticas e da atividade humana tornaram-se tão evidentes que foi impossível não incluir estas questões nas minhas investigações curatoriais.

JB: Hoje em dia, uma parte importante do teu trabalho consiste em diminuir o impacto ambiental das exposições de arte contemporânea. Segues estratégias específicas?

AB: A diminuição do impacto ambiental das exposições de arte contemporânea exige uma reconsideração coletiva da forma como agimos enquanto trabalhadores de arte. Isto é válido para curadores, artistas, colecionadores, galerias, transportadores, etc. Todos partilhamos a responsabilidade e cada decisão deve ser tomada com consciência do impacto que temos no ambiente. Em 2019, desenvolvi uma metodologia em quatro passos para entender os desafios ambientais associados à curadoria, para medir esses mesmos impactos, e para saber como reduzi-los. Criei primeiramente este método para mim mesma, para me ajudar a navegar nesta nova forma de trabalhar, mas também para outros profissionais da arte, pois apercebi-me de que cada vez mais curadores questionavam o impacto da sua prática, mas não sabiam por onde começar. Esta investigação levou à criação do breve curso ‘Gestão Sustentável de Exposições’, que desenvolvi para a Central Saint Martins, em Londres. Dada a situação atual, não pude começar a ministrá-lo na CSM, por isso decidi partilhar a investigação online. Nos últimos seis meses, fui convidada a organizar um workshop para a Ki Culture, intitulado ‘Comissariar uma Exposição Ecologicamente Sensível’, para apresentar o meu trabalho ‘Como os Curadores de Arte podem Diminuir o Impacto Ambiental das Exposições de Arte Contemporânea’ numa conferência organizada pela Art Switch, e para contribuir para o programa de pós-graduação ‘Políticas da Curadoria de Arte Contemporânea’, na Universidade Católica de Lisboa, encabeçando uma masterclass sobre ‘Práticas de Curadoria Ambientalmente Sustentáveis’.

JB: Isso exige uma disciplina rigorosa; não é uma maneira simples de agir. Sentes que tens agora uma rede de alianças com outros trabalhadores da arte?

AB: Há cerca de três anos, quando comecei a questionar o impacto da minha própria prática artística, não consegui encontrar uma investigação detalhada sobre este tema. Mais recentemente, começaram a surgir várias iniciativas em todo o mundo a favor da redução da pegada de carbono da indústria artística e cultural, o que é uma tendência altamente positiva. Hoje em dia, muitos são os aliados a criar oportunidades para os profissionais da arte participarem neste movimento ecologista. Comecei recentemente a trabalhar com a Ki Culture, uma organização sem fins lucrativos que apresenta soluções sustentáveis para o património cultural, a fim de ajudar as instituições culturais a abraçar desafios e oportunidades associados à adoção de práticas sustentáveis. Este programa, Ki Futures, foi concebido para apoiar museus, instituições, galerias e outras organizações culturais a tornarem-se mais sustentáveis, cumprindo a Agenda 2023, os ODS da ONU e o Acordo de Paris. Facultamos formação, recursos, networking e apoio, elementos vitais para abordar questões ambientais e sociais.

JB: Jérôme Bel, que chegou a boicotar os aviões a dada altura da sua carreira, sublinha o quão importante é ter consciência do que fazemos, pois estamos a estabelecer um precedente e muitas instituições não querem mudar ou ajustar-se em função do ambiente. Como é que consegues manter esta abordagem?

AB: É bastante verdade. É também essencial lembrar as razões por detrás de decisões tão difíceis como boicotar o uso de aviões, a fim de sustentar todos estes esforços. Por outro lado, compreendo as dificuldades que isto pode criar para as pessoas envolvidas nos projetos, uma vez que as alternativas aos voos exigem rotas mais longas e expansivas. Mas, de uma forma geral, encaro isto como desafio positivo que permite trabalhar com pessoas que podem não compreender ou discordar de certas decisões tidas por alguns como demasiado radicais. Afinal, é nesse espaço que podem surgir discussões construtivas.

JB: VILLA VILLA é o teu próximo projeto, um novo programa de residências artísticas sustentáveis. Como é que está a ser estruturado no tempo?

AB: Há dois anos, uma das razões que me levou a mudar para Portugal foi a possibilidade de avançar com um programa de residências artísticas sustentáveis na zona rural de Lisboa, dedicado ao apoio a artistas, curadores, escritores e pensadores contemporâneos. Interesso-me em facilitar a investigação, a produção e a apresentação de práticas artísticas fora do contexto urbano, ao mesmo tempo que fomento relações e colaborações a nível nacional e internacional. Para tal, estamos atualmente à procura da quinta perfeita para acolher este programa de residências artísticas abertas, exposições, palestras, workshops e investigação culinária baseada em alimentos, com a ideia de criar um sítio seguro e sustentável para os profissionais da arte interagirem com ideias de sustentabilidade contemporânea, crescendo enquanto comunidade que cuida das pessoas e do planeta. Paralelamente, como parte do nosso programa online, estamos a desenvolver um guia prático gerado através de discussões open-source sobre práticas de estúdio sustentáveis com artistas e profissionais da arte, a fim de identificar as ferramentas e os sistemas necessários para práticas artísticas de menor impacto.

JB: Que textos estão a influenciar a articulação da missão para este projeto?

AB: Há muitas fontes de inspiração. Por um lado, os movimentos de ‘regresso à terra’, as filosofias que alimentam uma conexão à terra, princípios que derivam da permacultura e de como o conhecimento ancestral pode ser utilizado hoje em dia. Por outro lado, ideias sobre ecologia profunda, ambientalismo interseccional, ecofeminismos e outros movimentos oportunos que contribuem para a criação de uma sustentabilidade ambiental e justiça ambiental.

JB: Porquê o nome VILLA VILLA?

AB: Gosto sempre do exercício de escolher um nome para um novo projeto ou exposição. Embora tivesse sido difícil encontrar um nome que refletisse todos os aspetos multifacetados da VILLA VILLA, sabia que queria um nome acessível e fácil de compreender. Algo que criasse imediatamente uma imagem visual positiva na cabeça das pessoas e que transmitisse boas sensações. Tendo em conta que o nosso programa físico terá eventualmente lugar numa quinta, num ambiente rural, com estúdios e alojamentos rodeados de hectares de terra, uma horta, um pomar, um poço, galinheiros e uma micro padaria, queria que o nome materializasse essa fisicalidade. No fundo, que inspirasse as pessoas a sentirem-se abrigadas e protegidas ao ponto de participarem na criação de novas experiências contemporâneas construídas sobre a interação social e ambiental.

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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