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Red Flower, de Henrique Pavão

Todas as coisas são uma troca pelo fogo e o fogo de todas as coisas…[1]

Repouso o olhar na penumbra. A subtileza transpõe o domínio retiniano, dando lugar ao cheiro da terra crua. Como numa noite limpa de lua cheia, o meu corpo adapta-se paulatinamente e a silhueta de uns monólitos em taipa transmite uma humidade leve no espaço de exposição. Os sentidos imiscuem-se e o elemento fogo sofre um ciclo de transformação que se expressa entre o revelar e o ocultar.

No topo dos monólitos repousam objetos em terracota. É das entranhas da terra que nascem estas esculturas cozidas em soenga, umas pequenas urnas[2] que nos remetem para as patas de dois animais felinos que lutaram entre si até à morte. Contudo, será esta narrativa trágica um encontro fortuito entre o tigre e o leão na floresta?… ou, por outro lado, o resultado de uma construção onde ambos os animais são induzidos pelo ser humano para um combate mortal com um script onde estão descritas as instruções seguidas pelos intervenientes na ação? A técnica prevalece, escondendo o animal particularmente perigoso que é o próprio homem. Tal como nos revela Arendt, “É o uso da razão que nos torna perigosamente ‘irracionais’, porque a razão é na circunstância propriedade de um ser originalmente instintivo.”[3]

A imagem em movimento dá lugar à estaticidade de uma fotografia a preto e branco que faz alusão à película The Adventure Parade: Lion Tiger Fight. O artista recusa a repetição da narrativa concebida em filme e destrói uma das suas evidências físicas através do fogo. As cinzas da película são colocadas no interior das urnas, onde a representação das patas dos animais felinos se expressa como contentor-conteúdo sagrado. O ritual prometeico expande-se para o vivo, para aquele que dá significado simbólico aos corpos-esculturas remanescentes.

Em paralelo, no mesmo espaço de exposição, projetam-se cinco fotografias de um antigo cinema alentejano da aldeia de Salvada. As projeções em tons de ocre modificar-se-ão subtilmente até à destruição completa dos slides pelos dispositivos.

A recusa da repetição da película e o ato simbólico da sua combustão representam o sentido de possibilidade da construção de novas narrativas, pois é através do fogo que o artista se torna parte do princípio fundamental – duplamente construtivo e entrópico – que subjaz à mutabilidade material.

Red Flower, uma exposição individual de Henrique Pavão, na Galeria Bruno Múrias até 17 de abril.

 

[1] HERACLITO in McKirahan, Richard, Philosophy Before Socrates: An Introduction With Texts and Commentary, Hacket Publishing, Indianapolis, 2010 (1994 ed. original), p. 120, frag. 90 (trad. do inglês para o português por Margarida Alves).

[2] As urnas concebidas pelo artista são “réplicas de artefactos pré-colombianos que integram a coleção de arqueologia da cidade do México (…) Civilização Zapoteca e Mixtecas, documentados pelo artista numa viagem de investigação ao México em 2019” (in folha de sala da exposição Red Flower).

[3] ARENDT, Hannah, Sobre a Violência, Edições Relógio d’Água, Lisboa, 2014 (1969 ed. original), p. 68 (trad. do inglês para o português por Miguel Serras Pereira).

Margarida Alves (Lisboa, 1983). Artista, doutoranda em Belas Artes (FBAUL). Investigadora bolseira pela Universidade de Lisboa. Licenciada em Escultura (FBAUL, 2012), mestre em Arte e Ciência do Vidro (FCTUNL & FBAUL, 2015), licenciada em Engenharia Civil (FCTUNL, 2005). É artista residente no colectivo Atelier Concorde. Colabora com artistas nacionais e estrangeiros. A sua obra tem um carácter interdisciplinar e incide sobre temas associados à origem, alteridade, construções históricas, científicas e filosóficas da realidade.

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