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Um esqueleto entra no bar… de Paulo Lisboa

A verdade é que o trabalho do Paulo Lisboa é um tipo de trabalho que o acompanha depois do primeiro contato. Como uma névoa que se sobrepõe na paisagem à vista, as imagens provocam camadas de compreensão que só se desfazem após uma dilatação entre o encontro. Lembro de apagar a luz do quarto e me preparar para dormir no dia em que visitei a exposição Um esqueleto entra no bar… Com a luz apagada, o meu olhar ao tentar focar nos objetos que me rodeavam relembrou a experiência de olhar os desenhos do Paulo. O espaço entre a luz e a escuridão. Entre a sombra e a silhueta. Esse lugar cinzento, embaçado e misterioso.

A exposição é composta por onze obras, entre elas duas instalações e nove desenhos de carvão sobre alumínio. Nos desenhos monocromáticos observamos círculos preenchidos pelo negro do carvão ou delineadas pelo preenchimento do lado oposto. “Imagens que consistem em nada mais que luz manipulada (…)” escreve Alan Fishbone. A ausência ou presença de luz em um trabalho extremamente meticuloso do carvão esfumaçado sobre o metal cria esferas dentro de esferas, produzindo uma sensação de vibração e movimento.

Há uma clara dualidade expressa na fisicalidade dos desenhos, o branco e o preto. Uma metáfora explorada nos mais diferentes contextos, de Star Wars ao taoísmo, a luz e a escuridão representam dois polos opostos e complementares. O dia e a noite, o feminino e o masculino, o bem e o mal. Mas há um outro elemento subentendido na polaridade expressa nos desenhos: o equilíbrio. Não há luz se não houver escuridão. O contraste revela a interdependência entre as duas qualidades. Há também um movimento de expansão e contração criado pela repetição das formas nos nove desenhos. Repetição e diferença. Resultado: instabilidade e transformação. O equilíbrio não é estático, é dinâmico.

As duas instalações em duas salas separadas dos desenhos utilizam do mesmo procedimento. Uma projeção de luz em um objeto cilíndrico de vidro. O resultado são desenhos de luz e sombra, uma tradução da linguagem pictórica utilizadas nas outras obras. A experiência do observador passa pela compreensão do funcionamento dos olhos. Ao ir da luz para a escuridão o olhar recorre à um período de adaptação. De pouco a pouco o olhar se acomoda na ausência de luz e o desenho é revelado para o observador.

Simples e complexo. Do particular ao universal. Do átomo ao vazio. Os trabalhos de Paulo Lisboa são testemunhos de uma imaginação que raciocina. A exposição está patente na Fundação Leal Rios, em Lisboa, desde dezembro – e reabrirá ao público em Abril.

 

A autora escreve em português do Brasil.

Maíra Botelho (1991, Brasil) tem uma formação multidisciplinar dentro dos campos da comunicação visual, artes plásticas, filosofia e performance. Atuou profissionalmente como designer gráfica no Brasil após se licenciar na PUC-MG, tendo ainda estudado Artes Plásticas na Escola Guignard - UEMG e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Recentemente concluiu uma Pós-Graduação em Estética - Filosofia na Nova Universidade de Lisboa.

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