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Partituras & Objetos – Pedro Tudela na Escola das Artes

Partituras & Objetos[1], a mais recente exposição em exibição na Escola das Artes da Universidade Católica do Porto, com a curadoria de João Silvério, revela-nos a importância do espaço, do tempo e do som na prática artística de Pedro Tudela.

Embrenhados na escuridão que preenche a quase totalidade da Sala de Exposições e que dificulta uma consciência total do espaço, os nossos sentidos agudizam-se, mergulhando o nosso corpo numa experiência sensorial através de uma instalação sonora e visual.

Em destaque e ocupando toda a largura de uma das paredes do espaço expositivo, um pentagrama, sobre o qual se apresentam dispostos uma série de objetos inusitados, desperta a nossa atenção. Concebido e pensado para o espaço em que se exibe, salientemos a opção do artista em recorrer a um plano de imagem panorâmico que se expande pela parede até aos seus limites, sem os ultrapassar. O campo e a escala da imagem remetem para os formatos widescreen do cinema, enquanto a extensão das cinco linhas paralelas evoca uma pauta, remetendo-nos para a escrita musical. O impacto visual e estético da imagem com o seu plano longo e aberto, que nos atrai de imediato, é reforçado pelo jogo de tensões entre escuridão e luminosidade, assumindo-se a própria luz enquanto desenho, recorte do campo da imagem numa sala negra.

Ao longo do extenso pentagrama, diversos objetos, cuja disposição remete simbolicamente para notas musicais numa partitura, provocam curiosidade no espetador. Quais objetos descobertos numa expedição arqueológica, deparamo-nos com peças de proveniências diversas, cuja função é em alguns dos casos imediatamente reconhecível e associada ao uso tradicional e manual: uma lâmina de serrar, uma tesoura de poda, uma escova, entre outras. Numa era cada vez mais tecnológica, não será inocente a opção de Pedro Tudela, cuja prática artística explora também a arte multimédia, em não apresentar um único objeto associado à eletrónica e à área digital, optando por ferramentas de ofícios que nos transportam para um passado e nos quais podemos identificar as marcas deixadas pelo tempo. O interesse do artista pelos objetos e pelo que estes nos podem oferecer, pelas histórias que emanam, pelas narrativas e leituras que resultam da sua recontextualização, constituem aspetos transversais ao trabalho de Pedro Tudela e que encontramos na instalação apresentada. Sobre a parede, o artista expõe os objetos que recolhe e aproveita tal qual como estão, objetos que encontra e integra no processo de trabalho, o objet trouvé, assimilando o que já existe e o que pode ser novo quando construído e relacionado. Para Pedro Tudela, os objetos e as linguagens suportam os seus pré-conceitos, os seus requisitos, mas quando conduzidos afirmam-se, não negando o que já consigo transportavam. A propósito dos objetos que compõem a instalação, Pedro Tudela afirma que:

“[…] têm na sua pele – estes que foram escolhidos e os que foram pontualmente intervencionados – algo que os alterou. Seja de um modo sem controlo da minha parte, objetos que são encontrados na praia e que andam a rolar na areia, sofrem uma alteração formal e uma patine e uma nova pele que é dessa responsabilidade, que é reconhecível, mas que é aproveitado. Seja isso ou o próprio tempo: a tesoura da poda que tem uma patine na sua superfície do próprio uso e do tempo, a escova mais gasta, a escova que é nova […] Todos esses tipos de recados vão-se juntando à ideia do próprio objeto […] é importante que exista esse tempo e que implica uma ideia de corpo, de manuseamento, de uso, de precisão que está inscrita na memória desses objetos.”[2]

Pedro Tudela confronta-nos com objetos reconhecíveis que, sem perderem identidade, libertam-se dos seus espaços e tempos criando em conjunto novas narrativas e sinfonias, cuja interpretação poderá ter leituras diferenciadas consoante o olhar de quem as vê. As alterações a que os objetos estão sujeitos estabilizam, em termos plásticos, no momento em que são integrados no pentagrama desenhado a giz branco na parede negra, que remete para a ideia de leitura, de escrita e de memória.

Aparentemente estáticos e mudos, estes objetos dialogam entre si e connosco não só através da sua presença, mas também pelos sons que produzem, ao converterem-se em instrumentos que interpretam partituras. O ambiente sonoro que nos acompanha e percorre todo o espaço da exposição ecoa a manipulação dos objetos através de dezasseis canais de áudio dispostos num círculo perfeito no centro da sala, que juntamente com a plasticidade do pentagrama compõem uma única instalação.

Desenvolvida a partir de vários momentos e integrando diversas camadas, a exposição-peça Partituras & Objetos apresenta na sua génese duas operações simultâneas: a recolha de objetos encontrados e a pesquisa e seleção de partituras, ambos intervencionados pelo artista. Resultante de uma ação colaborativa com os alunos do Mestrado em Som e Imagem – Design de Som e do Doutoramento em Ciência e Tecnologia das Artes, bem como da vontade do artista em incluí-los no projeto, procedeu-se à recolha e seleção de partituras de diferentes épocas e com diferentes tipos de escrita, desde composições clássicas a contemporâneas, linguagem musical escrita posteriormente convertida em som. A composição de novas partituras resulta de um exercício oulipiano de cortar e fragmentar as partituras iniciais, recompondo-as e montando-as ocasionalmente, como num jogo, estabelecendo novas ligações, “num procedimento próximo do universo plástico e visual que poderia ser repetido infinitamente.”[3]

Ao processo de recomposição do material musical escrito e fragmentado, segue-se a interpretação das novas partituras, que também contou com a colaboração dos alunos e um trabalho de recomposição através de um método generativo. Todas as sessões gravadas de modo independente, objeto a objeto, culminaram na execução de uma programação que recebeu toda a informação e que com uma leitura generativa cria momentos que não são expectáveis, sons em transformação constante, num grau de improbabilidade que resulta da construção do próprio programa. Não sendo sequencial e fechado, o evento sonoro desenvolve-se de diferentes maneiras, expandindo-se infinitamente, possibilitando um prolongamento da ideia de espaço e de tempo.

A espacialização do som e a sua utilização enquanto medium e matéria plástica, a exposição de objetos e a criação através da sua manipulação de ambiências sonoro-musicais particularizam o cenário da exposição Partituras & Objetos. As sucessivas conversões dos objetos, das partituras, das ações, da escrita para o som, apresentam-se em várias camadas e caraterizam a instalação, concebida enquanto experiência sensorial expandida, visual, sonora e somática, que reúne diversos meios e linguagens numa prática experimental que estabelece um diálogo direto entre os meios digitais e manuais.

Por fim, não deixa de ser curiosa a correspondência que podemos estabelecer entre o início do processo de criação da escultura sonora, que implicou a participação dos alunos da Escola das Artes, e a ação colaborativa que o usufruto da instalação requisita enquanto dispositivo imersivo num espaço dinâmico e transitório, sem um ponto fixo de escuta, num envolvimento que pressupõe o outro.

 

[1] Projeto expositivo que resultou de um trabalho colaborativo, durante o ano de 2020, entre Pedro Tudela e os alunos da Escola das Artes, na criação de uma instalação sonora. Devido à situação pandémica atual, a inauguração da exposição, no dia 25 de fevereiro de 2021, ocorreu em formato online nas redes sociais da Escola das Artes. Enquanto a instalação sonora não pode ser visitada presencialmente, encontra-se disponível no site da Escola das Artes uma visita virtual e uma vista de 360º à exposição, assim como uma conversa entre o artista e o curador. Ver aqui.

[2] Citação da intervenção de Pedro Tudela, durante a Conversa entre o artista e o curador, na Sala de Exposições da Escola das Artes, no dia 25 e fevereiro de 2021. Vídeo disponível aqui. Consultado no dia 28 de fevereiro de 2021.

[3] SILVÉRIO, João. (2021). “(Re)Pensar: sobre a memória do tempo e do espaço” in Partituras & Objetos – Pedro Tudela. [Folha de sala da exposição]. Ver aqui.

Mafalda Teixeira mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d'Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.

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