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Entrevista a Catarina Braga

Há várias camadas que permeiam o trabalho artístico de Catarina Braga, desde o trazer para casa elementos naturais, plantá-los e multiplicá-los no nosso habitat, à tentativa da sua mimetização plástica, e, numa terceira possibilidade de leitura, acresce a questão do simulacro, do imaginário de retorno a uma natureza paradoxalmente desfasada – histórica e geograficamente – do seu habitat natural.

Trata-se da centralização da imagem que se afirma como o principal campo de experiência. A proveniência das imagens, a sua relação simbólica com o referente real dissipa-se a favor de uma ilusão que se multiplica incessantemente. Contudo, é nas brechas das imagens, na ação antropológica sobre o mundo que a realidade se impõe no humano.

 

Margarida Alves – Gostaria que nos falasses um pouco acerca deste teu projeto: a post post tropical rainforest of the Central America bioregion.mov.

Catarina Braga – Começo por dizer que escolhi este bioma específico por ser um dos biomas que contém mais biodiversidade, podendo também ser encontrado em vários pontos do mundo. Eu quis especificar esta floresta tropical para que a questão da biodiversidade e da natureza não se tornasse muito abstrata, e porque depois me comecei a aperceber que muitas das plantas que temos em nossa casa vêm deste bioma específico. Parece-me que no momento atual existe uma procura muito grande de um reencontro com as plantas e de as trazer para o nosso espaço, espaço esse que é cada vez mais a casa, especialmente nestes últimos dois anos. Acho essa tentativa de reencontro bastante interessante porque nós retiramos estas plantas do seu habitat natural para vivermos com elas, para as reencontrarmos, mas nessa tentativa de reencontro elas transformam-se também, existe um outro ecossistema que fica transformado. Podemos ver plantas como por exemplo as calatheas, as palmeiras, as costelas de adão, ou as orquídeas, que estão muito presentes nas nossas casas e, de repente, apesar de retiradas do seu habitat natural, a possibilidade de conseguirmos reimaginá-las de volta no seu habitat natural é muito bonito, porque existe todo um contexto e uma ligação da natureza que gere a própria natureza.

No fundo, acho que o ser humano tenta recriar essa criação natural, digamos assim, mas descontextualiza-a e fica tudo transformado e artificial. Artificial, não no sentido negativo ou pejorativo, mas no sentido de que esse reencontro já não é possível, e se calhar estamos a pensar tentar voltar a uma natureza pré-histórica à qual, na verdade, nunca poderemos voltar.

Sinto que digo sempre coisas diferentes acerca deste trabalho porque há vários caminhos, e é tão complexa esta questão… A natureza não consegue ser dissociada da realidade porque a natureza produz esta realidade e a realidade produz a natureza. Isto tudo faz-me lembrar um livro que agora estou a ler que é o Politics of Nature, do Bruno Latour, onde ele introduz uma nova forma de ver a política da ecologia e de como a ciência se afirma como a forma de chegarmos mais perto da natureza.  Existe também esta relação entre o que é que a ciência faz e as máquinas que a ciência usa, entre as imagens e a câmara, o microscópio, etc., que no fundo apontam para esta mediação de natureza, que é aquilo que eu exploro na instalação de floresta que criei virtualmente: a post post tropical rainforest of the Central America bioregion.html. Ou seja, tentamo-nos aproximar dela através deste computador, através destes JPEGs e PNGs que quase não existem porque são tão abstratos… Essa interação interessa-me bastante.

MA – Do ponto de vista ético e político, ambiental, há vários caminhos que se desdobram. Poderias falar-nos um pouco sobre a forma como os mesmos atravessam o teu projeto?

CB – No meu trabalho, aquilo que procuro é fazer perguntas e nunca dar respostas. Acho que já existem tantas narrativas fechadas em relação às questões ecológicas, e existe um lado muito importante na curiosidade, na descoberta e na exploração. Claro que estando no contexto artístico, já existe a predisposição dessa postura de perguntar quais os caminhos, e de uma abertura que nos permite explorar por onde é que podemos ir. Acho que estas questões da ecologia são muito importantes, mas não como um passo nessa tentativa de voltar a uma natureza intocada, nesse reencontro que pode parecer que está para trás, mas sim de pensar como continuar a relação entre nós e as plantas lado a lado e numa harmonia que tem a ver com o estar politicamente envolvido.

MA – Por fim, gostaria de te fazer uma pergunta. Falaste-nos de Latour. Poderias partilhar connosco mais alguns autores que te interessam do ponto de vista conceptual?

CB – Para além do Bruno Latour, o Vilém Flusser está a ser uma referência importante. Uma artista que tenho que referir por ter sido sempre para mim uma grande referência é a Hito Steyerl. O trabalho dela é incrível, com um modo de trabalhar bastante intricado e completo, com imensas questões que também me interessam. Outra referência de que me lembro agora e que me marcou muito foi a exposição Plant Revolution, que esteve o ano passado no CIAJG, com a curadoria da Margarida Mendes. Todo o pensamento à volta destas questões da ecologia e da natureza foram bastante estimulantes, com artistas e obras que exploravam pontos e questões diferentes dentro desta grande problemática, e que se articulavam de uma forma bastante relevante e completa.

 

Como acréscimo a esta entrevista, Catarina Braga disponibilizou-nos um escrito de artista:

“Pensar hoje sobre a natureza é mais complexo do que nunca pois aquilo em que nós pensamos quando pensamos na natureza pode agora provir de duas formas:

1. enquanto experiência vivida ou

2. enquanto simulação.

Neste exercício de pensamento, torna-se importante constatarmos que na segunda forma de obtermos conhecimento criou-se uma nova distância para além da separação do próprio pensamento: uma distância criada pelas imagens. Como a orquídea é bastante comum em Portugal, o mais provável é já termos visto a flor a decorar uma sala de estar ou a janela de uma casa de banho, mas o mesmo não aconteceria se estivéssemos a pensar numa flor-morcego preto. O que significa que não temos que ver a natureza real à nossa frente para a podermos percecionar ou pensar sobre ela. A grande diferença que hoje existe em contraste com épocas passadas (para além de termos alterado por completo as nossas paisagens naturais) é que podemos experienciar a simulação da natureza. Seja através de impressões fotográficas ou imagens digitais em ecrãs, nós conseguimos chegar até qualquer planta.

Se com a Revolução Agrícola transformámos a natureza numa pós-natureza, com a Revolução Industrial acelerámos o processo da agricultura com as máquinas e inventámos novos processos de produção da pós-natureza. Mas para além disso, foi na Revolução Industrial que inventámos também as novas formas de produzirmos a pós-pós-natureza – como a fotografia e o cinema, o plástico e o computador; pelo que com a Revolução Digital apenas refinámos essas mesmas formas de produção do pós-pós-natural.

A pós-pós-natureza é totalmente artificial e falsa, pois os seus artifícios já não têm em si nada de natural, apenas têm referências naturais. É através da imagem da natureza, na ausência da paisagem ou da planta natural, que surge a sensação de natureza. As imagens aparecem no nosso dia a dia para tentarem recriar um reencontro entre ser humano e natureza que já foi perdido há muito. As imagens conseguem criar uma natureza transcendente à naturalidade característica da natureza. Como? Através de artifícios como uma planta de plástico, ou através das imagens como uma fotografia de uma floresta tropical – o artificial cria uma simulação do natural.”

Catarina Braga, Post-Post-Nature, 2021, p. 14.

Margarida Alves (Lisboa, 1983). Artista, doutoranda em Belas Artes (FBAUL). Investigadora bolseira pela Universidade de Lisboa. Licenciada em Escultura (FBAUL, 2012), mestre em Arte e Ciência do Vidro (FCTUNL & FBAUL, 2015), licenciada em Engenharia Civil (FCTUNL, 2005). É artista residente no colectivo Atelier Concorde. Colabora com artistas nacionais e estrangeiros. A sua obra tem um carácter interdisciplinar e incide sobre temas associados à origem, alteridade, construções históricas, científicas e filosóficas da realidade.

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