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Sustentabilidade e Arte — Parte I

Um dos assuntos mais abordados dos últimos meses, até anos, tem sido o ambiente, com o intuito de antever e precaver as alterações climáticas latentes. Esta era a ordem de trabalhos mais importante a resolver, antes de romper a pandemia, por isso, já se tinha vindo a demonstrar empenho de forma a mitigar as suas consequências. Fala-se de sustentabilidade desde o primeiro summit do Planeta Terra no Rio de Janeiro em 1991, apesar de não haver uma definição exata para o que é a sustentabilidade, diz-se que é o desenvolvimento em concordância com as necessidades do planeta, sem por em causa as necessidades das gerações vindouras. A sustentabilidade é a capacidade de satisfazer as nossas necessidades no presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades. Na prática, a sustentabilidade é o desenvolvimento atendendo a cinco princípios: qualidade de vida, justiça e equidade, participação, respeito pelo meio ambiente e os seus limites e pensamento no futuro, sem o comprometer. Posto este cenário, e visto que atinge cada elemento da sociedade em que vivemos, é importante perceber qual o papel da arte nas práticas sustentáveis e que papel podem ter os vários atores e agentes. Qual o papel da arte nas práticas sustentáveis? E qual o papel da sustentabilidade na arte?

Esta reflexão, de contexto macro, faz hoje mais sentido que nunca, em primeiro lugar porque vivemos tempos sem precedentes no seio de uma pandemia, por isso, é possível retirar um largo número de exemplos de práticas em larga escala das várias instituições culturais, desde museus a galerias, pelo globo, bem como moldar tipos de comportamento generalizado – em especial, a aposta no online. Em segundo lugar, porque Lisboa foi a Capital Verde Europeia 2020, demonstrando assim uma posição clara em matéria de combate às alterações climáticas. No âmbito deste programa, apresentaram-se exposições como A Natureza Detesta Linhas Retas, de Gabriela Albergaria, e O Mar é a Nossa Terra, na Garagem Sul do CCB.

Para perceber o conceito de sustentabilidade, é necessário compreender o percurso da procura pelo conceito, que começa a surgir a partir da década de 1970, resultando de vários desastres ambientais como o da Baía de Minamata, no Japão, o acidente de Bhopal, na Índia, e o acidente nuclear de Chernobyl, na extinta União Soviética, que provocaram na Europa um impressionante crescimento da consciencialização sobre os problemas ambientais. É a partir deste momento de tomada de consciência que se começa a pensar na sustentabilidade de forma mais globalizada e menos local, surgindo várias alternativas de relacionamento da sociedade com o ambiente. Finalmente, a perceção da existência de uma relação entre problemas do meio ambiente e o processo de desenvolvimento, que hoje já se sabe ser um ponto central. Por se tratar de um processo complexo e duradouro, existem hoje diferentes abordagens à sustentabilidade, apesar de tudo, pontos comuns a quase todos os conceitos apresentados e estudados são a existência de necessidades por satisfazer e a existência de limitações físicas para atender a essas necessidades, que fazem deste conceito complexo, dinâmico e carregado de valor.

A arte tem um papel fundamental em moldar comportamentos e pensamentos desde cedo, é preciso compreender a arte como um fator histórico que contextualiza várias culturas ao longo dos séculos para o processo de compreensão de uma sociedade. Assim, a arte teve um percurso desde a Antiguidade até à Contemporaneidade. Ao longo dos tempos, foram-se ajustando os seus sistemas até ao que conhecemos hoje em dia, e percorreu-se um longo caminho até à consciencialização da necessidade de sustentabilidade e preocupação com o meio ambiente.

Por um lado, comunica-se informação através da arte, que acarreta em si a capacidade de criar conhecimento, quer para o público em geral, quer através da educação; um segundo caminho é o de criar compaixão e empatia pela natureza, estimulando as pessoas para refletir sobre o seu comportamento e a sua relação com o ambiente; por último, o desenvolvimento económico e comunitário com vista à sustentabilidade ambiental.

Sustentabilidade e Mercados de Arte

Também o setor das artes deve caminhar em direção a práticas mais sustentáveis. Neste sentido, muitas vezes são interligados os dois mundos – como foi o caso do uso da obra Western Flag (2017), de John Gerrard, como apresentação para a Conferência em Madrid COP25 (Ocean and Climate Platform, 2019), pelo Museu Nacional Thyssen-Bornemisza. Em conjunto com a ONU, a obra do artista irlandês foi instalada na entrada do museu, recriando o espaço em que o primeiro poço de petróleo se encontrava, em 1901, no Texas, nos Estados Unidos da América. A instalação replica uma bandeira de fumo escuro sobre imagens do espaço real de Spindletop, transmitindo as mudanças atmosféricas sentidas, como crítica à exploração dos recursos. Francesca Thyssen-Bornemisza diz que “a arte é um agente de mudança, é algo com bastante importância nos dias que correm e tem um papel fulcral. Os artistas têm a capacidade de criar imagens que contam a história completa, como Western Flag, a imagem da bandeira tornou-se a imagem da Conferência COP25, que demonstra o poder e a versatilidade da arte” (Conferência para as Alterações Climáticas, 2019). A arte tem a capacidade de intervir e de criar diálogo, colocando perguntas, e é por isso que temos assistido a um crescente uso deste tema: Arte e Sustentabilidade.

Alguns artistas que têm vindo a brilhar no campo das expressões artísticas focadas na sustentabilidade e ambiente são, por exemplo, Eve Mosher (que colocou telhados floridos em mais de mil edifícios em Manhattan e Brooklyn), Mary Miss (que demarcou edifícios com o nível de água das últimas inundações, mostrando a necessidade de se precaverem para próximas catástrofes). Este tipo de arte não tem regras simples ou um modo de a identificar, da mesma forma que outros movimentos têm, mas tem em comum o facto de por as pessoas a pensar num mundo mais ecológico e refletirem um problema social e ambiental. Cria empatia com o meio ambiente, comunica informação pertinente.

Com a chegada do novo milénio, os artistas começaram a preocupar-se cada vez mais com a sua pegada ecológica, tomando consciência do seu impacto social e ambiental, como o exemplo da arquitetura sustentável, que procura aproveitar os recursos naturais envolventes para otimizar as suas criações e diminuir o impacto ambiental.

Olafur Eliasson mostra-nos, através do seu projeto Waste of Time, que a sua arte é para responsabilizar: criou uma instalação de pedaços caídos de um glaciar na Islândia, para por o comportamento humano e as suas consequências face ao aquecimento global em causa. Este artista, em conjunto com outros nomes como Shepard Fairey e Tomás Saraceno, encheram Paris com instalações como parte de uma iniciativa, para que a ONU tomasse ações sobre o aquecimento global. Iceberg, de Olafur Eliasson, é também um exemplo da interferência da sustentabilidade na prática artística, e criou também a série Ice Watch, onde coloca os mesmos icebergs num formato de relógio (“o tempo está a contar!”), para que de forma tangível o público possa ter a experiência e a consciência de que acabarão por derreter ali, em frente ao Tate Modern. Enquanto ativistas protestam com palavras, artistas protestam através do visual e sensorial, e neste caso, do tangível.

Não só os museus e artistas estão empenhados em trazer a sustentabilidade para os mercados de arte, também as feiras de arte e galerias o estão a começar a fazer, como é o caso de Art Basel, em que no ano de 2019 foi possível ver um crescente nas obras de arte que se relacionavam com o tema, e ainda conferências como Let’s Talk About the Weather e The Carbon Footprint of Contemporary Art. Ainda, com menos impacto, mas não menos de louvar, os estabelecimentos de bebidas e comidas da feira na Suíça não usam plásticos e as paredes e contraplacados usados nos stands têm vindo a ser reutilizados, como forma de upcycling, (reaproveitamento de objetos). Também os fornecedores das feiras têm tomado consciência do momento que vivemos e o fundador da Rokbox começou um investimento na invenção de caixas para o transporte de obras de uso regular em vez do que se fazia anteriormente, em que apenas era usada uma caixa por obra de arte e ficava depois obsoleta. Marc Spiegler, diretor de Art Basel global, diz que cada mudança conta, apesar de naturalmente as feiras não serem intrinsecamente sustentáveis, todos podem tomar medidas para mitigar as consequências. Dentro do movimento ambientalista, é dito que os setores das artes e da cultura têm um papel fundamental como acelerador da mudança, pela sua capacidade de chegar às pessoas através das emoções e das crenças, oferecendo novas formas de ver problemas e possíveis soluções.

A arte tornou-se um canal importante para comunicar e chegar ao público, para tomar consciência de alguns assuntos que de outra forma não chegariam até nós. Os esforços conjuntos entre sustentabilidade e arte são hoje tão precisos, dadas as vastas repercussões das alterações climáticas globais e a dificuldade de perceber isto na maioria das pessoas, sendo que os artistas podem apresentar estes problemas e soluções de forma mais compreensível.

Sem os artistas, as pessoas não atuam no sentido que os cientistas nos impelem, só com a veia criativa e a comunicação feita através da arte podemos efetivamente ver o que está a acontecer e tomar medidas. Gerrard diz-nos que “a arte pode ter um efeito e mover o público!”

Concluiu a Licenciatura em Relações Internacionais com um minor em Ciências da Comunicação, na Universidade Nova de Lisboa, e o Mestrado em Mercados de Arte, no ISCTE. Tem vindo a colaborar com alguns projetos culturais como a AZAN, o ProjetoMAP e a REDE art agency. Assistiu à produção da exposição ProjetoMAP 2010-2020 Mapa ou Exposição, no Museu Coleção Berardo, e produziu a exposição I WILL TAKE THE RISK, na AZAN. Esteve envolvida na edição do livro ProjetoMAP Mapa de Artistas de Portugal e contribui para publicações como a GQ Portugal.

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