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Entrevista a Yuri Firmeza: Seguindo o rastro dos terramotos

No contexto da capa mensal da UMBIGO online, Yuri Firmeza (São Paulo, n.1982) apresenta Arca-Palimpsesto (2015). Esta entrevista serve como complemento da documentação fotográfica da peça, de modo a possibilitar um contexto generalizado ao trabalho do artista e, paralelamente, explorar conceitos mais concretos, característicos da obra de Firmeza. Entre outros assuntos discutimos o seu modus operandi coletivo e diversificado em termos disciplinares, a relação com o sistema da arte contemporânea, as origens de Arca-Palimpsesto e a ideia de viagem nos tempos atuais. Com uma linguagem despretensiosa e lúcida, Yuri Firmeza é manifestamente uma voz singular na prática artística contemporânea, ao contrariar o processo de produção rápido, ao criar objetos antevendo a sua história passada-futura, mas também ao cultivar uma vida comunitária através da idealização de uma rede global de conhecimento e descoberta.

 

Francisca Portugal – O teu trabalho está fortemente assente na pesquisa, no diálogo, na discussão e na interdisciplinaridade. Que vantagens encontras nestes processos e metodologias?

Yuri Firmeza – Sim, há sempre uma tentativa de escapar de uma produtividade difusa e imediatista. O modo que tenho tentado fazer tal operação é através, sobretudo, de uma certa imprecisão do fazer. Imprecisão pautada pela intuição. E, nesse sentido, a pesquisa, os diálogos, a interdisciplinaridade diz mais da partilha deste não-saber do que da tentativa de justificar o que move o processo. Diante do empresariamento produtivista da arte, da educação, da própria vida, parece-me que armar demoras – que em certo sentido corresponderia em perder tempo – configura um gesto radical, um “preferiria não” aos modos de Bartleby. Para mim, a pesquisa que cada trabalho demanda é por um lado a recusa das respostas prontas e, por outro, a afirmação das formas cambaleantes, insuspeitas e provisórias.

FP – Por te dedicares à investigação de acontecimentos ou eventos da memória, do legado cultural e histórico de outros, como é o caso da exposição Turvações Estrátigráficas de 2013 ou do vídeo Nada é para a Bienal de São Paulo de 2014, qual a tua relação com as realidades que documentas?

YF – Acho essa pergunta fundamental e precisa ser elaborada, feita e refeita sempre. Primeiro eu diria que atravessa todos os processos uma dimensão ética com os lugares e as pessoas. E dizer da ética implica respeito, responsabilidade, cuidado. Não há uma fórmula pré-determinada de aproximação com os lugares e com as pessoas. Por exemplo, os dois projetos que você cita tiveram processos completamente distintos. Digo isso para que esta resposta não soe como um manual prescritivo que se aplica em conformidade a todos os projetos. Há sempre o risco de ao lidar com certos contextos o trabalho e o artista serem extractivistas e performarem uma mais-valia simbólica destes contextos. Isso é terrível! Numa outra ponta, há, decerto, sempre uma moral policialesca que tende a fazer crítica fácil e limitada amparada numa leitura reducionista de uma tão importante questão como o lugar de fala. Já estive em uma dezena de lugares que por distintos motivos não realizei nenhum trabalho justamente porque não houve encontros. Dito de outro modo, não ouve mobilização, atravessamento e desejo por parte das pessoas e dos contextos. Quando fiz, em parceria com o Igor Vidor, o videoclipe da banda de rap Brô MCs, ouve alguma crítica sobre nós termos filmados uma banda de rap indígena. Acho essa crítica rasa e preocupante, pois parte do princípio que os integrantes da banda, que, como diziam, gostariam de ver a banda sendo exibida no maior número de lugares, chegaram a participar do programa da Xuxa, por exemplo, enfim… retomando, parte do princípio que os integrantes Bruno Veron, Kelvin Peixoto, Clemersom Batista, Charlie Peixoto não têm autonomia de decisão e escolha sobre fazer ou não o clipe e de pensar juntos o modo de como fazê-lo. Eu acho que aí reside, sem dúvida, um gesto colonizador: tratá-los como incapazes de recusa – caso fosse esse o desejo deles – ou de pensar a agência dos modos.

FP – Numa breve descrição, como está construída a Arca-Palimpsesto e quais são os elementos que a compõem?

YF – Arca-Palimpsesto ocorreu a partir de um convite que recebi da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) para desenvolver um projeto. Mais especificamente o convite partiu de dois grupos de pesquisa – Medios Multiplos e La Colmena – coordenados pelo artista e professor José Miguel Casanova. Eu havia recém preparado um curso sobre terramotos. Estávamos trabalhando os Escritos sobre o Terramoto de Lisboa, do Kant; O Pequeno Livro do Grande Terramoto, do Rui Tavares, entre outros. Organizei este curso após ter presenciado dois temblores no Chile.

Quando cheguei ao México, ainda sem saber exatamente o que iria desenvolver, tive encontros com os grupos a partir de discussões sobre a hipótese de Gaia, A queda do céu, o Antropoceno. A partir daí iniciamos uma série de atividades: derivas seguindo o rastro dos terramotos e dos vestígios pré-hispânicos soterrados na cidade; pesquisa em arquivos públicos; conversas com arqueólogos e arquitetos; entrevistas, entre outras. Ao final de cada dia de pesquisa de campo o grupo se organizava e compartilhava o material que tinha coletado ou produzido. De modo muito sucinto, esse processo resultou em todos os elementos que estão dentro da Arca-Palimpsesto: mapas antigos, mapas construídos em nossas derivas, terra, fotografias, arquivos, pedras de alicerces, textos…

FP – Do teu trabalho surge a ideia de arquivo e catalogação do teu processo de pesquisa. Em que formas expositivas pode desdobrar-se a tua investigação e objetos resultantes? Como vês, por exemplo, Arca-Palimpsesto apresentada num formato digital, numa plataforma como a UMBIGO online, em comparação com a sua apresentação no Museu del Chopo na Cidade do México em 2015?

YF – No México, como você afirma, o trabalho aconteceu também no Museu Del Chopo, quando, como parte do trabalho, realizamos uma fala-performance pública conduzida pelas materialidades encerradas na caixa. Em 2017 realizei uma exposição individual em São Paulo, no espaço Ateliê 397. Intitulada Palimpsesto, a exposição contou, entre outros trabalhos, com um desdobramento do trabalho realizado no México. Construímos uma mesa-escultura em relevo, com o mapa do méxico pré-hispânico em diferentes níveis. Sobre a mesa foram dispostos os elementos que constam no interior da caixa. No entanto, essa experiência comprovou o que eu desconfiava. Reapresentar esse projeto exige fazê-lo novamente como um site-specific. Ou seja, ir ao lugar, escutá-lo, formar grupos, levantar problemáticas, derivar, produzir encontros, pensar socialidades, tornar pública a pesquisa. De 2017 para cá recebi três propostas para apresentar o trabalho. Nas três vezes fiz a contraproposta de ir aos lugares e acionar o trabalho nessa abertura metodológica: o processo com toda sua constelação de acontecimentos. Em nenhuma das três vezes, infelizmente, foi possível fazê-lo. No que diz respeito a apresentação na Umbigo, num formato digital, entendo como um meio possível para divulgar o trabalho e, quem sabe, um convite surge para realizá-lo novamente (risos).

FP – Exprimes uma posição cética relativamente à institucionalização e mercado da arte contemporânea. De que forma é considerado o teu método de trabalho por esses mesmos agentes?

YF – A própria ideia de Arte, do qual fazem parte a institucionalização e o mercado, é uma construção elitista, epistemicida, eurocêntrica e daí afora. Esta é uma questão. Mas estaria sendo cínico se dissesse que meu trabalho não tem circulado por esses lugares. Poderia dizer que minhas operações se dão com e contra esta instituição Arte. Que é aí que se dá o embate. Mas aí, não seria cínico, mas ingênuo em acreditar genuinamente na força do trabalho para tamanha pretensão. O que hoje, depois de alguns anos de trabalho, tenho pensado é que certos projetos, mesmo de dentro desses lugares de poder, conseguem, quiçá, minimamente produzir fissuras, inventar problemas, disparar perguntas.

FP – O teu trabalho artístico implica muitas das vezes pesquisa in loco levando-te a deslocares-te a outros países ou cidades. Como olhas para a viagem neste período de pandemia?

YF – Acho que esta pausa forçada é um alerta ou, se quisermos, uma vingança. Els Lagrou, antropóloga radicada no Brasil, em um de seus textos, escrito durante a pandemia, escreve sobre uma conversa com um líder Huni Kuin. Este lhe diz que ele e seu povo, diante desta pandemia – entendida como nisun, vingança – vai se recolher na floresta. É isso que tenho feito. Atento a estes saberes, tenho me recolhido.

FP – Atualmente, encontras-te em Portugal. Em que projeto trabalhas neste momento?

YF – Neste momento estou a fazer doutoramento em Portugal, mas devo confessar que tem sido difícil estabelecer uma pesquisa diante de um momento tão difícil. Porém, estou a viver em Ericeira e tenho um projeto, chamado Pitomba Natural, com minha companheira. Um projeto gastronômico. Fazemos entrega de comida preparada por nós, sobretudo bolos e queijos, veganos e orgânicos, pela vila de Ericeira e arredores. Além disso, passada a pandemia, estamos com um projeto de cineclube na praia, projeções nas falésias da Praia do Matadouro durante as noites de verão.

Licenciada em Artes e Humanidades (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2018), é programadora cultural e curadora independente de arte contemporânea. Em paralelo com a frequência do Mestrado em Fine Arts Curating (Goldsmiths, University of London), dedica-se à investigação de espaços expositivos não convencionais e metodologias curatoriais alternativas. (retrato por Hugo Cubo, 2020)

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