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pov: Odete — “Não me parece que Portugal seja muito consciente da História enquanto ficção que se diz facto”

pov: | point of view: | parte do individual para ensaiar o coletivo, numa de esgaravatar essas tão polidas superfícies: da vida pública, da obra acabada. Trata-se de uma série de entrevistas a figuras emergentes da arte e da cultura – em torno de algumas das mais prementes questões da atualidade: questões cada vez mais presentes na vida e na obra destas figuras, extravasando os lugares de produção, mediação e exposição ditos convencionais; questões sociais, políticas, económicas, ideológicas, culturais, identitárias ou ambientais – em todo o caso, indissociáveis das causas e das lutas de hoje. Apresenta-se um conjunto de entrevistas incertas, oblíquas, tomadas pelas referências que estas figuras convocam: referências não apenas teóricas ou literárias, mas também visuais ou imagéticas – a ilustrar os seus pontos de vista sobre a Sociedade™ e os mais profundos estratos que a compõem.

 

Henrique Machado da Silva – A propósito de On Revelations and Muddy Becomings, defendes que a (escrita da) História subentende uma “estratégia política” (ex.: “uma definição da violência colonial… como não-violenta”). Parece-te que, em Portugal, se tem progredido no sentido de desconstruir as “técnicas de produção de verdade que beneficiam certas versões da História, certos grupos, certos movimentos” – isto é, no sentido de as revelar enquanto mecanismos de instrumentalização política?

Odete – Não sei bem se essa “revelação” acontece em forma de progresso de desconstrução. Até porque as múltiplas escritas da História que poderiam acontecer (e acontecem) serão sempre instrumentos políticos. Não me parece que Portugal seja muito consciente da História enquanto ficção que se diz facto, admitindo perversidades dentro da estrutura do país que sempre o corroeram. Um exemplo disso são os discursos coloniais e “pós-coloniais” portugueses, ambos presos em ideias de História que não se vê enquanto política. Digo isto porque há uns anos atrás, por exemplo, numa cadeira da Faculdade de Letras que frequentava e que se chamava “Pós-Colonial em Portugal”, ou uma coisa assim, a narrativa vigente era a do pós-colonial marcado por uma colonização falhada. Porque Portugal era pobre, acabava por não se impor como, por exemplo, o Império Britânico ou mesmo o Espanhol, “miscisgenizando” com os colonizados (como diziam os professores). E estamos aqui e nem sei se respondi à pergunta. Isto tudo para dizer que a Portugal falta tudo, sobretudo criatividade e pluralidade na gestão dos discursos do trauma.

HMS – Verifica-se uma certa tendência para enquadrar o(s) preconceito(s) sob uma perspetiva individualizante (ex.: o argumento da maçã podre, o discurso #NotAllMen, etc.), que desatende à dimensão estrutural do(s) problema(s). De que modo encaras o papel da educação – mais concretamente, da escola – na legitimação e na reprodução da “história des vencedores”?

O – De que modo encaro? Há algum modo para encarar isto senão dizer apenas que a escola e a educação são fatores fundamentais na reprodução dessa tal “história”? É desde pequenines que absorvemos as estruturas do mundo e as deixamos modelar as estruturas dos nossos cérebros ainda moles. Portanto, é na escola que se devem imaginar outros passados e futuros. E então as faculdades (e as faculdades de artistas sobretudo) deveriam preparar as pessoas para as múltiplas realidades que existem e poderão existir. Digo isto porque constantemente vejo artistas noves a dizerem “not all cops are bastards” e #NotAllMen sem perceberem como isso constitui uma estratégia histórica/ativista de escrita da realidade com objetivos de libertação e igualdade. Mas se calhar não se pode esperar muito, quando as nossas instituições não fazem o trabalho que deveriam. Porque me sinto sempre mal a “culpar” pessoas individuais, quando no fundo a podridão está na estrutura mesmo. Deveria ser um trabalho conjunto.

HMS – A dada altura, questionas-te sobre a “história des vencides”. De que forma é que as novas construções sobre o passado poderão subverter as relações de poder que es têm invisibilizado?

O – Ao dizer, por exemplo, que não são “vencidos”. Ao criar histórias que surgem das evidências, dos restos arqueológicos, dos documentos, etc., que repensem as categorias em que colocamos cada narrativa. Eu usei “história des vencedores” e “história des vencides” de propósito nessa entrevista [com Elisabete Sá, para o maat ext.], quase para ver se alguém notava como eu própria já criava narrativas a priori. A História é um conjunto de objetos, coisas, ditos, palavras, silêncios, paisagens – e isso não deveria ser mais do que um território que poderíamos reclamar enquanto nosso. A ideia de um facto histórico serve para mil coisas – e uma das prioridades deveria ser curar as feridas deste mundo. Porque é que eu quereria saber sobre o Marquês de Pombal? Estou-me a cagar para isso. Eu quero é ouvir a história de Pedro Furtado, de Estevão Cobra Luís, entre outres. Reconstruir o passado tendo sempre consciência que aquilo que fazemos é quase sci-fi ao contrário… então teremos sempre maneira de repensar o mundo sem estruturas rígidas que determinam quem merece e quem não merece memória. Mas temos que começar por algum lado – e se é preciso preencher os silêncios com mentiras: então let’s do it.

HMS – Há todo um trabalho de “escavação” por fazer – que sustentará (ou não) essas outras narrativas, essas novas ficções. Podes falar-nos sobre algumas das figuras que mais te têm inspirado nestes últimos anos: Pedro Furtado, Estevão Cobra Luís…?

O – Pedro Furtado e Estevão Cobra Luís são nomes que encontrei nas minhas pesquisas pelo depósito online da Torre do Tombo. São pessoas julgadas pela Inquisição Portuguesa e acusadas de bruxaria, sodomia e pactos com o diabo para alterarem o seu corpo. Pedro Furtado teria feito um pacto para se tornar uma mulher, por exemplo. Estevão Cobra Luís teria sido uma pessoa negra que se prostituía vestide de mulher, enfim. São sempre pessoas que colocaram em questão corporalidades de género e, sobretudo, pessoas negras ditas “escravos livres”, que eram acusadas de magia e insubmissão de género. É um trabalho que eu sinto que devia ser feito aqui em Portugal de maneira mais profunda e, como não sou historiadora nem posso aceder livremente à Torre do Tombo, acaba sempre por falhar em alguma coisa. Mas Portugal deve tanto a tanta gente: e este trabalho de ir aos arquivos recuperar uma história do corpo negro e trans (digamos assim) que aparentemente foi vital para a história da Inquisição… deveria ser uma prioridade. Até porque a história trans é branquificada o tempo inteiro.

Mas pouco se sabe destas figuras para além daquilo que encontramos nos processos. Por isso, aquilo que tenho feito é mesmo criar histórias a partir daquelas que sinto que posso trabalhar, honrar nomes, passá-los a outras pessoas, não sei. Também sinto que tenho apenas fragmentos nas minhas mãos.

HMS – Quando as atenções se voltam sobre os programas curriculares de Cidadania e Desenvolvimento ou mesmo de História, a vandalização de determinadas estátuas ou o eventual retorno de certas peças das coleções museológicas aos seus territórios de origem (ex-colónias), as vozes reacionárias denotam uma imensa hostilidade. Face ao progresso nesses domínios, tornar-se-ão estas vozes ainda mais violentas ou sujeitar-se-ão à sua própria obsolescência?

O – Estás a pedir-me que profetize? kssksksksksk Infelizmente não tenho essa capacidade visionária e, ainda que ache que devas manter esta pergunta na entrevista, eu não sou a melhor pessoa para responder. Recuso mesmo fazer profecias sobre realidades que não conheço. Mas podemos combinar um dia e ir ter com alguém que o consiga fazer, quem sabe.

HMS – Voltando um pouco atrás: falavas-nos de algumas experiências pessoais (ex.: a cadeira “Pós-Colonial em Portugal” ou o #NotAllMen e a negação do ACAB pela mais jovem geração de artistas). Tendemos a encarar a arte, a música ou o meio académico enquanto lugares privilegiados para o ensaio de possibilidades e para a construção de alternativas, abertos à pluralidade, teoricamente votados ao progresso. Atendendo ao que tens experienciado, assim acontece nestes três campos? De que forma é que estas ideias se refletem na prática?

O – Opá, eu não quero generalizar assim tanto. As múltiplas realidades e contextos da arte não são uma única voz coincidente e congruente. Esses três campos são muito diversificados e, na maior parte das vezes, muito restringidos pelos seus contextos institucionais. Acho que há, sim, uma conceptualização desligada de uma prática política ativa, mas eu não consigo dar uma overview do trabalho de toda a gente no que toca a aliar essa prática com as ideias. Sinto, isso sim, que as instituições artísticas têm responsabilidades maiores que qualquer um de nós em gerir essa prática, em gerar ação também, em fazer escolhas. E, pelo que me parece, a maior parte das instituições está muito longe disso.

Lisboa, 1995. Pós-Graduado em Sociologia – na vertente de Comunidades e Dinâmicas Sociais – pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2016-2017). Licenciado em Sociologia – com um minor em Relações Internacionais – pela mesma instituição (2013-2016).

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