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IRL Stories: Visualizando ‘Songs for Captured Voices’

O mundo ultrapassou longos períodos de isolamento face à pandemia global que, até à data, causou mais de dois milhões de mortes. Os espaços culturais e de entretenimento encerraram indefinidamente ou mesmo permanentemente os seus palcos, pistas de dança e espaços expositivos, deixando toda uma comunidade artística em risco de sobrevivência. Que impacto têm tido as medidas de distanciamento na relação do artista com o público, a sua comunidade e, consequentemente, a sua Arte?

IRL Stories retrata como artistas e criativos pela Europa estão a potenciar os seus recursos e a sua prática artística ao se adaptarem a estes tempos de mudança radical. Dada a crescente digitalização de tudo o que nos rodeia e a atual crise global de experiências IRL (in real life), esta série reflete sobre identidade e resiliência dentro da comunidade artística, através de um olhar íntimo sobre novas perspetivas. Cada história é documentada em filme de médio formato pela artista visual Rita Couto, e contada em primeira-mão com uma abordagem participante.

IRL Stories: Visualizando Songs for Captured Voices. Berlim, 2021. © Rita Couto.

Pouco antes do final do ano de 2020, encontrei-me com Thea Reifler no parque para nos despedirmos deste ano dramático que víamos chegar ao fim e partilhar os nossos últimos projetos. Eu era toda ouvidos, queria saber como é que elx e x companheirx Philipp Bergmann tinham adaptado o trabalho delxs durante a pandemia. Conheci Philipp e Thea em 2016 numa pista de dança, para mim o melhor lugar para me relacionar com pessoas novas e co-imaginar um mundo de possibilidades. Desde então, temos viajado juntos, colaborado em projetos artísticos e debatido ideias para potenciais novas utopias. São um duo de realizadorxs que trabalha em projetos interdisciplinares com uma abordagem queer-feminista nas áreas da ópera, das artes visuais, do cinema, da performance e do teatro de música.

Thea falou-me do seu atual projeto: uma peça de teatro de música chamada Songs for Captured Voices, criada em colaboração com escritxr Göksu Kunak (conhecidx como Gucci Chunk), compositorx Laure M. Hiendl, cenógrafa e designer de luz Sandra E. Blatterer, figurinista Nicholas Navarro Rueda, Ensemble KNM Berlin e vocalista experimental, sediada em Londres, Elaine Mitchener. A peça é uma lembrança do não falado: dedicada a gravações de vozes humanas que foram repetidamente instrumentalizadas ao longo da história e se tornaram objeto de negociações de poder assimétricas.

IRL Stories: Visualizando Songs for Captured Voices. Berlim, 2021. © Rita Couto.

A estreia estava marcada para o início de fevereiro de 2021 no radialsystem, o icónico edifício na margem do rio Spree, em Berlim. No entanto, já então se temia, devido às restrições relacionadas com a atual pandemia, que uma estreia ao vivo talvez nem fosse possível. A mutação do vírus que começou a espalhar-se no Reino Unido fez com que o país fechasse as fronteiras e era incerto se Elaine Mitchener conseguiria voar de Londres para o início dos ensaios dentro de duas semanas. Despedi-me de Thea, ansiosa pelo andamento do projeto apesar dos desafios à vista, e esperámos encontrar-nos de novo no verso da moeda.

IRL Stories: Visualizando Songs for Captured Voices. Berlim, 2021. © Rita Couto.

Logo depois, certa manhã, Thea ligou-me com um convite. Dadas as contínuas restrições de movimento, a equipa decidiu reconfigurar o projeto e propor-me fotografar uma encenação livre do show como parte de uma estreia dita digital. A peça seria apresentada num álbum – uma apresentação com passagens do libretto e fotografias de cena ao lado de uma gravação da música – a ser divulgado no site da radialsystem de 18 a 28 de fevereiro de 2021.

Aceitei o convite, sabendo que poderia compartilhar esta história como parte da minha série editorial. Queria ver o conceito tomar forma durante os ensaios e testemunhar in loco o processo criativo em constante transformação. Para a fotografia de cena, decidi focar nos elementos que dão visibilidade às vozes anónimas com que a peça lida. A ideia era refletir sobre o estado de ausência, explorando a linguagem corporal individual dos personagens que habitam nesta atmosfera inquietante.

IRL Stories: Visualizando Songs for Captured Voices. Berlim, 2021. © Rita Couto.

Logo após a filmagem, convidei a equipa para uma entrevista coletiva para falar do projeto em retrospetiva.

Rita Couto – Falem-me sobre a visão por detrás desta peça e como tencionavam realizá-la.

Thea Reifler – O conceito foi visualizado em 2018, após uma pesquisa em torno do arquivo sonoro [Lautarchiv] da Universidade Humboldt de Berlim. Uma parte sensível desta colecção são gravações de canções, assim como uma variedade de línguas e dialetos dos prisioneiros de campo da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. Surpreendeu-nos que hoje em dia o Departamento Federal de Migração e Refugiados (BAMF) esteja a utilizar software de reconhecimento de voz para verificar a ‘autenticidade’ dos dialetos, utilizando algoritmos para determinar se os requerentes de asilo vêm realmente de uma zona de perigo – com uma margem de erro claramente significante. Assim, a captação de vozes humanas foi para nós um ponto de partida para ouvir atentamente o que permanece não dito e escondido, o que existe no meio de sons e de ruídos.

Göksu Kunak – Enquanto escrevia o libretto, tinha estado a pensar nos sistemas e tecnologias da alteridade problemática da história (considerando também a história contemporânea) contra pessoas não-brancas e não-ocidentais (outro termo estranho, mas não existe outra palavra). Ainda podemos ver impressões deste pensamento linear de nós versus os outros primitivos na política europeia, em instituições como o Registo Nacional de Estrangeiros, a polícia federal e também nos pequenos gestos de alguns dos europeus brancos (intencionados ou não).

Sendo uma pessoa do sudoeste asiático, oriental, também eu tenho lidado pessoalmente com tais problemas. No entanto, embora tenha uma identidade racializada, não tenho um corpo racializado. Tive de me consciencializar profundamente e respeitar este privilégio. Tornei-me ciente de que o texto não é pessoal. Tive de enfatizar uma longa história de pessoas que foram eliminadas, que existem nas sombras dos arquivos, que nem sequer eram suficientemente importantes para ter cartões de cidadão. Ler os artigos sobre os prisioneiros de guerra ou ouvir as gravações, assim como ler e seguir as notícias atuais, foram cruciais no período de investigação do trabalho.

Um aspecto importante era não criar uma identidade estereotipada, impotente e de outra natureza, como os refugiados sem poder, mas indicar o papel ativo destes e de todas as outras identidades na nossa sociedade. Por isso, tentei ter cuidado em não criar uma voz desolada, mas reunir várias vozes que apontassem os passados e os presentes difíceis, acreditando na possibilidade de mudar o futuro. A não linearidade é importante, uma vez que a abordagem linear da violência sistemática coloca certos povos para trás, a fim de continuar a fazer circular os princípios subsumidos no tempo. A voz no texto não pertence a ninguém em particular, mas aponta para o passado complicado – é polifónica, de certa forma.

IRL Stories: Visualizando Songs for Captured Voices. Berlim, 2021. © Rita Couto.

Laure M. Hiendl – As canções foram um veículo para concebermos múltiplos fragmentos narrativos sem termos de os reunir numa história completa. Vejo o projeto como uma espécie de livro de canções que nos mostra perspectivas diferentes sobre um complexo de temas.

Queria separar a parte musical em dois planos: uma camada são os músicos como ‘técnicos de laboratório’ e ‘artistas de foley’ trabalhando num estúdio de gravação, ouvindo, investigando e traduzindo certos sons do arquivo com os seus instrumentos (como a respiração ou a chuva). A voz, por outro lado, encontraria então formas de encarnar diferentes vozes através das canções. Musicalmente, as canções e a parte dos instrumentistas não estão sincronizadas; de facto, nem sequer foram compostas em conjunto, mas sim montadas e encaixadas numa certa sequência após a composição.

A escrita de Göksu é extremamente musical; muitos dos seus textos desencadearam toda uma situação sonora e paisagística, corpos e vozes na minha cabeça. Em alguns dos textos, senti que não havia nada a acrescentar para os tornar ‘música’ – por isso, limitei-me a ritmá-los com o tempo de um metrónomo. Göksu tem uma prática artística imensamente diversificada. Quando escreve, é muitas vezes em formas curtas, como flash fiction ou poesia. Estas formas moldaram-se naturalmente à estrutura musical das canções.

Philipp Bergmann – Pretendíamos entrar num processo de investigação com Elaine durante várias semanas, descobrindo formas de ligação às histórias das ‘vozes captadas’ com corpo e voz. Estávamos a pensar num teatro em forma de concerto, centrado na interpretação das canções, na intimidade e na proximidade com o público num espaço atmosférico cheio de luz e som.

IRL Stories: Visualizando Songs for Captured Voices. Berlim, 2021. © Rita Couto.

Rita Couto – Como é que as restrições atuais influenciaram o processo criativo e colaborativo?

Elaine Mitchener – É sempre um desafio entrar numa situação nova e esta não foi exceção. As complicações acrescidas não eram apenas a probabilidade de não ser seguro viajar, mas o Reino Unido deixou de ser membro da UE (a partir de 1 de janeiro de 2021) e, por conseguinte, não era claro quais os documentos necessários para trabalhar legalmente na Alemanha. No final, foi assente que iríamos trabalhar juntos, gravando a minha parte vocal à distância, e o intérprete e coreógrafo Djibril Sall foi contratado para atuar no meu lugar. Laure descobriu uma forma engenhosa de ensaiar e gravar remotamente via Skype, enquanto eu partilhava o meu ecrã com elx. Isso acelerou o processo consideravelmente e permitiu que a equipa criativa tivesse a minha voz (sem mim) para trabalhar no espaço.

Laure M. Hiendl – Pessoalmente, as sessões de gravação com Elaine foram um verdadeiro destaque desta produção, pois encontrámos soluções criativas e tivemos tempo para realmente nos focarmos na música. Mas a produção como um todo foi fortemente alterada pela ausência em palco de Elaine, já que a sua prática envolve cantar tanto quanto movimento – uma das razões pelas quais estávamos todos tão animados por trabalhar com ela. Especialmente para a encenação, não ser capaz de entrar nessa intensa pesquisa de incorporação do canto e do movimento basicamente virou a peça – cujo conceito se baseava fortemente neste elemento – de cabeça para baixo.

Philipp Bergmann – Francamente, para mim foi e é uma situação muito desmotivadora. A pandemia obriga-nos a dedicar muito do nosso tempo e do nosso trabalho a estruturas e planeamento de cenários que provavelmente irão mudar outra vez e eu realmente não acho que a situação atual esteja a alimentar a minha criatividade. Como tal, fiquei muito grato por trabalhar com uma equipa tão boa e por termos desde o início feito o nosso melhor sem criar ainda mais stress, sem esquecer o quão importante é também cuidarmos da nossa saúde mental.

Thea Reifler – Toda a reorganização não deu o espaço que eu desejava para um processo de reflexão colaborativa com todo o grupo – pareceu que só nos encontrámos no último dia e por algumas horas. Mas, no geral, estou muito gratx por termos conseguido trabalhar juntos e por nos termos mantido saudáveis. Para mim, tudo isso dá ênfase a toda a criatividade, a arte e o cuidado que está, na verdade, na própria organização do trabalho artístico. Juntamente com a nossa produtora Ilka Rümke, estivemos muito ocupadxs com tudo isto.

IRL Stories: Visualizando Songs for Captured Voices. Berlim, 2021. © Rita Couto.

Rita Couto – E que novas linguagens emergiram dos desafios encontrados?

Sandra E. Blatterer – Como cenógrafa e designer de luz, o meu objetivo era criar algo como um ‘não-espaço’ em que composições, sons e pessoas pudessem encontrar o seu lugar. Enquanto a luz monocromática de sódio simulava a atemporalidade, as esculturas de luz no espaço estavam conectadas com um software de ‘som à luz’. A ideia de sincronizar luz e som eletronicamente resultou do facto de a Elaine não vir a estar presente no palco, portanto dar à voz de Elaine um ‘corpo’ visível com 188 lâmpadas fluorescentes coloridas e programadas tornou-se importante para mim.

Thea Reifler – A voz de Elaine estava em lugar nenhum e em toda parte: incorporada por Djibril e nos tubos de luz sincronizados, através do som e de toda a atmosfera. Partindo dessa voz, mas também da sua própria experiência e prática, Djibril foi desenvolvendo uma grande parte das ideias coreográficas, acrescentado a sua perspetiva à peça, e podendo ainda ser integrada pela Elaine num eventual show ao vivo no futuro. Nico, o figurinista, antecipando os desafios, desenvolveu um traje para Elaine que apresentava as alças como um elemento principal e era, na verdade, facilmente ajustável. E tu [Rita Couto] exploraste livremente o espaço cénico com a tua fotografia, culminando a experiência neste artigo. Assim, o trabalho encontra várias plataformas diferentes das de uma atuação ao vivo e isto não é certamente o fim da história…

IRL Stories: Visualizando Songs for Captured Voices. Berlim, 2021. © Rita Couto.

Rita Couto (1989, Porto) é trabalhadora independente na área do audiovisual em Berlim, onde reside. O seu trabalho tem proporcionado visibilidade a entidades, projetos e iniciativas com impacto social e tecnológico. Com uma especial afinidade pela fotografia analógica, Rita tem vindo a documentar o que a rodeia desde a sua adolescência. Ao longo do seu percurso artístico, foi aliando a escrita à fotografia com um interesse por temáticas como identidade, autenticidade e comunidade, tendo desde então retratado as histórias de artistas e coletivos multi-disciplinares em Berlim e pela Europa. O seu trabalho pode ser visitado em rita-couto.com ou instagram.com/dailydimmak.

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