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Resposta aberta: Paul Hutchinson

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Paul Hutchinson (n. 1987, Berlim, Alemanha) estudou na Universidade das Artes e no Central Saint Martins, College of Art and Design, Londres (Grã-Bretanha). Na sua prática fotográfica e escrita, tem em consideração fenómenos da vida urbana moderna, como a cultura juvenil e as condições de mobilidade social. Entre outros, Paul Hutchinson recebeu bolsas e prémios da Universidade das Artes de Berlim, do Serviço Alemão de Intercâmbio Académico (DAAD) e da Berlinische Galerie, Museu de Arte Moderna. Em 2021, passará três meses em Los Angeles no âmbito da Bolsa de Estudo Villa Aurora. Até agora, já publicou cinco monografias. Vive e trabalha na sua cidade natal, Berlim.

Josseline Black – A sua prática artística tem mudado com o isolamento?

Paul Hutchinson – De certa forma afeta o meu trabalho, pois normalmente estaria rodeado por mais pessoas, e mais gente figuraria nele. Agora, acaba por ficar mais isolado, passo mais tempo com a minha família, a minha namorada e os filhos dela, e há menos interação social além destes círculos. Por outro lado, a energia é canalizada para diferentes alvos. Por isso, não me importo muito. Do início de março até ao princípio de maio, tivemos um confinamento bastante apertado aqui na Alemanha. Mas acalmou-me, pois estaria a viajar intensivamente para trabalhar e conhecer pessoas, e esse lockdown deu-me espaço para reorientar as minhas energias. Continuei a trabalhar 5 dias por semana, escrevi mais, terminei o design de um livro.

JB – Qual é a sua abordagem à colaboração neste momento?

PH – Nesta altura, não trabalho em qualquer projeto de colaboração em particular, mas muito da minha atividade emerge em conversas que tenho com a minha família e amigos. Coisas em que penso na minha vida quotidiana. Acho que essa é a minha forma de colaboração contínua. O diálogo é essencial para mim.

JB – Com o seu livro Pictures and Words (2018), gerou o texto a partir do diálogo?

PH – Não, os textos não provêm dos diálogos. Mas, à semelhança da minha fotografia, muitos dos meus escritos aconteceram em viagem, no metropolitano U-Bahn, no autocarro, enquanto viajava – posso anotar duas palavras ou duzentas. Tenho um email de arquivo para onde envio estes textos. E depois começava normalmente a trabalhar mais neles / com eles sempre que encontrava tempo e propósito para tal: um projeto de um livro, uma leitura, uma contribuição para uma revista. Muita coisa acontece inconscientemente. Há um bom termo em alemão para descrever isso, Kunstwille. Refere-se a algo que seja arte. E tento abster-me disso e deixar o trabalho emergir por si só, para não o forçar demasiado. Penso que a arte não deveria ser sobre o desejo de fazer trabalho, mas sobre o próprio trabalho.

JB – Como definiria o momento presente, metafisicamente/literalmente/simbolicamente?

PH – Acho que vivemos um ponto de transformação no mundo. E, para ser honesto, estou otimista. Muitas coisas não estavam a correr muito bem, creio. E talvez isso não fosse tão óbvio assim para as pessoas. Mas, agora, devido à pandemia, algumas coisas tornaram-se mais visíveis. O ganho de poucos devido ao trabalho de muitos – parece algo cada vez mais evidente. É doloroso. Mas acho que as pessoas podem aprender com isso e tentar mudar. Sem ignorar o sofrimento óbvio e muitas coisas negativas que esta pandemia trouxe, claro. Mas penso que este também pode ser um momento otimista.

JB – Vê potencial para um apoio renovado à produção cultural, apesar das macro e microeconomias estarem atualmente em rápida reestruturação?

PH – Estar na Alemanha… temos muita sorte em estar aqui. Recebi uma bolsa por consequência do coronavírus, o que me ajudou bastante, enquanto noutros países as pessoas não recebem nada. Mas, neste contexto privilegiado, penso que o problema está noutro lado: na sociedade alemã, as oportunidades de produção criativa são ainda relativamente difíceis de alcançar e elitistas. E, portanto, esta atividade profissional pode parecer distante e misteriosa para as pessoas do público em geral. Embora sejamos muito valorizados pelo Estado enquanto artistas em exercício, através de oportunidades de financiamento, ensino superior gratuito, infraestruturas de saúde, creio que é ainda mais importante derrubar as fronteiras entre a suposta “Elfenbeinturm” (torre de marfim) da produção artística e outros membros da sociedade. Todos nós somos trabalhadores, essencialmente. E, por exemplo, não há qualquer misticismo por detrás do que eu faço.

JB – Como é que este período está a influenciar a sua perceção da alteridade em geral?

PH – Julgo que é um pouco difícil neste momento, pois as pessoas dependem cada vez mais dos meios de comunicação da sua própria bolha, alimentados através de algoritmos muitas vezes de índole comercial. Ou seja, há cada vez menos pessoas confrontadas com coisas que desconhecem. Isto é perigoso, pois, com as redes sociais, é fácil cairmos na armadilha de vermos apenas o nosso próprio pensamento refletido. Especialmente em períodos como este, quando dependemos tanto dos meios digitais. As pessoas têm de enfrentar o outro lado, o desconhecido. Estarmos consciente do que não sabemos, das nossas lacunas e falibilidade é cada vez mais importante, pois o acesso ilimitado à informação pode facilmente criar uma ilusão de conhecimento.

JB – O trabalho com o retrato e a solidariedade estão ligados?

PH – Sim, penso que essa ligação assenta na empatia. Na verdade, é uma palavra importante no discurso visual, especialmente na fotografia. Não sei se conseguiria uma boa imagem de alguém que desprezasse. Só posso fazer uma boa imagem de pessoas de quem me sinto próximo ou pelas quais tenho alguma admiração. Isso tem de ser a base do meu trabalho. De vez em quando, porém, tenho a oportunidade de me afastar um pouco do meu modo habitual de fazer retratos. Por exemplo, no outono passado, foi-me pedido pelo teatro Münchener Kammerspiele, em Munique, um teatro muito conhecido e politicamente ativo, que retratasse os seus atores. Fiquei lisonjeado com o convite e conheci 32 pessoas novas. No espaço de uma hora ou hora e meia com cada, tive de estabelecer algum tipo de ligação pessoal para justificar a minha forma particular de tentar fazer uma representação válida de alguém. Foi muito interessante. Alguns destes encontros foram comoventes e fico feliz em poder transmiti-lo nas imagens. Mas é uma situação fora do comum, obviamente.

JB – Pode falar-nos um pouco mais sobre a sua mais recente publicação, Stadt für Alle (tradução: Cidade para Todos)?

PH – Enquanto trabalhava nela, o título era Ugly baby. É uma investigação monotemática com 240 páginas de espessura, mas relativamente pequenas em dimensão. Basicamente, analisa as mudanças que estamos a viver na sociedade, usando como exemplo principal a gentrificação do centro de Berlim: muitas das propriedades que pertenciam ao Estado foram vendidas no início dos anos 2000, pois a cidade estava falida. Os resultados disso verificam-se hoje, onde investidores constroem imóveis de luxo em plástico e invadem grandes partes do centro. Por sua vez, os alugueres dispararam em apartamentos normais. Há alguns anos, reparei em mim a fotografar estes locais de construção, e a arquitetura destes edifícios, alguns dos quais me parecem altamente questionáveis. Este tipo de imagens foi-se acumulando ao longo do tempo, e em 2019 apercebi-me de que tinha de fazer algo com elas. Demorei mais um ano a reunir fundos e a terminar o meu trabalho nos textos, que estão também incluídos no livro. Stadt für Alle levanta a questão sobre para quem é construída a cidade. No geral, acho que é uma narrativa bastante conhecida e algo patética que qualquer grande metrópole atravessa periodicamente. Mas, em Berlim, sinto-me obviamente afetado, ao testemunhar a minha própria cultura a ser empurrada para longe. E a velocidade deste acontecimento parece particularmente vulgar. Valores marcadamente liberais a serem transformados numa competição neoliberal.

JB – Qual é agora a sua utopia?

PH – É difícil dizer, mas acho que a minha utopia é uma sensação de justiça. Haverá sempre uma certa divisão. Não querendo parecer demasiado ingénuo, mas mesmo na minha curta vida tenho visto o fosso entre ricos e pobres aumentar, especialmente em contextos urbanos, e quero questionar isso. Vivi em Londres durante dois anos e meio, e presenciei o que um sistema cada vez mais orientado para o lucro pode fazer. Simplesmente não acho que seja saudável para as pessoas, mesmo para as pessoas com dinheiro. E quero questionar o que esse sistema me faz a mim, ao meu corpo, como é que me separa da minha casa. Defender estes valores e questões dentro do mundo artístico é também obviamente difícil. Trata-se de outro sistema cujo mecanismo é questionável. Mas, por outro lado, haverá sempre dinheiro envolvido e indivíduos, instituições ou o Estado com posses terão de apoiar os praticantes sem recursos monetários. Acredito plenamente que um discurso saudável é vantajoso para a sociedade como um todo e que esse tipo de investimento acabará por ser compensador. Apesar das minhas críticas anteriores, sempre senti que a Grã-Bretanha, por exemplo, é excelente no que diz respeito a arte acessível ao público e a derrubar as barreiras supostamente intelectuais e esta perceção inerente da classe que frequentemente sinto na Alemanha. Também aqui temos o sistema de Kunstvereine, que é excelente para o discurso crítico e para mostrar vozes que podem ser ignoradas por instituições maiores. Acho que todos tentam o seu melhor à sua maneira.

JB – O que está a ler neste momento?

PH – Atualmente, estou a olhar para o lado jornalístico da escrita de Gabriel Garcia Márquez. Ele assemelha-se a Orwell, ambos eram primeiramente jornalistas, o que acho muito interessante. Os seus escritos são fáceis de ler e acho a não-ficção particularmente boa. Há outro livro, publicado recentemente, sobre os discursos de Márquez. É minúsculo, uma compilação de discursos que ele fez em todo o mundo. Está repleto de humor e afabilidade. Para mim, é inspirador como ele consegue disfarçar o seu pensamento sobre injustiça social e classe algures dentro disso. Faz basicamente o mesmo na sua prosa. No fim de contas, acho que é algo que tento fazer também com o meu trabalho – de alguma forma, dar pistas apelativas que levem as pessoas a pensar nas questões maiores que todos enfrentamos.

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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