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Filipe Vilas-Boas não é nem um tecnofílico naïve nem um tecnofóbico

Entre o cidadão ativista, o filósofo crítico e o performer digital, o criador franco-português Filipe Vilas-Boas não deixa de questionar os acessos e excessos do digital nas nossas vidas em geral, e a ambivalência de nossa submissão às redes sociais em particular. Requer uma dieta ativa e o desenvolvimento da ética digital.

Do design interativo ao engajamento cívico

Filipe Vilas-Boas é um ex-designer e escritor freelance cujas primeiras experiências profissionais remontam a 2002 nas agências de publicidade: “a web e as suas potencialidades coletivas abriram janelas a jovens Padawans a quem fecharam as portas”. Mais tarde, ele cofundou um estúdio de design de interação para se concentrar no assunto. Em 2008, iniciou a sua prática artística e acabou por bater à porta do mundo “comercial” em 2016: “Entendo então que não posso mais dedicar o meu tempo ao serviço das empresas, que me esperam assuntos cidadãos mais fundamentais e é isso que eu quero abordar na minha prática artística.”

Filipe multiplica projetos artísticos em torno destas questões: “Marcado pelo meu gosto pelas ciências sociais e pela filosofia, nunca deixei de me interrogar sobre as transformações em curso na sociedade e em particular sobre as convulsões provocadas pelo digital, em particular o seu acesso – conhecimento, informação, imagens, linguagem – e seus excessos – vigilância, mercantilização, automação”.

Uma dupla cultura, como dois pares de óculos para observar o mundo

Filipe nasceu em 1981 de pais portugueses à beira-mar, em Esposende, perto de Barcelos (cidade conhecida pela sua cerâmica e pelo seu galo que se tornou um dos símbolos do país). Pouco antes de os seguir até Olmeto, na Córsega, ficou na região Parisiense perto de Fontainebleau, onde passou a infância. O artista fala uma língua floreada, uma subtil mescla franco-árabe-portuguesa que só se aprende na rua através do contato com múltiplas comunidades. Sem esquecer o seu uso nativo do digital, este “duplo espaço público”, do qual viveu o fascínio antes de compreender as derivas viciantes: “Portanto, fundamentalmente não é a técnica pura que se questiona no meu trabalho, mas sim sua relação e o equilíbrio de poder que ele coloca em jogo em nossas democracias.”

Intervir no mundo digital como um “duplo espaço público”

“Estou muito interessado nesta tecnicização porque ela vem se desenvolvendo há algum tempo: após dois séculos de automação acelerada de nossas funções mecânicas, estamos agora duplicando esse movimento de externalização e automação de nossas funções cognitivas (algoritmos, inteligências artificiais, etc.)” diz Filipe Vilas-Boas. Um movimento que remonta às origens da escritura e está associado à memória e aos mitos da Humanidade. E acontece que estamos precisamente no meio de um estágio de transição em que nossa paisagem se transforma sem realmente sermos capazes de captar suas mutações. Ao meu nível, procuro conceituar as questões, os problemas, as possibilidades e partilhá-los no espaço público”.

Dataísmo, ou a distorção entre os mundos “IRéeL” e “URéeL”

O seu trabalho, muitas vezes participativo e performativo, joga com a porosidade entre os mundos “IRéeL” e “URéeL”. Suas criações combinam recuperação, diversão e novos mídias: logotipo de rede materializado em cruz, telas de computador transformadas e reinterpretadas, robô que é punido, … Todos os símbolos da digitalização do mundo, esse “dataísmo” que o sufoca, são aproveitados em uma obra polimórfica que não impõe limites, intervindo com tanto na arte digital como no espaço público, com um estímulo ético e estético: questionar nossas práticas digitais e nosso fascínio quase religioso pelas redes sociais.

F como Facebook e Fátima

Os “três F” ou a “trilogia Fado, Fátima, Futebol”, que concentraram os valores portugueses durante a ditadura de António de Oliveira Salazar, se reduzem ao “dois F”: Facebook e Fátima. Símbolos religiosos se multiplicam nestes trabalhos tão críticos quanto revigorantes: os títulos (muitas vezes em inglês, a linguagem da Silicon Valley) Loading (usando uma escultura do menino Jesus), iDoll, interactive Madona Saint-Denis, até Carrying the cross Filipe prontamente evoca um “animismo tecnológico” em parte resultante dessa crescente externalização de nossas funções cognitivas e de uma transferência do sagrado para a tecnologia: “As grandes massas hoje são de fato tecnológicas” – insiste. São marcadas pela técnica, o que permite que a aldeia globalizada aí se reconheça, e os próprios rituais são sacralizações dos objetos resultantes dessa técnica. E, de fato, todos somos exortados a comungar – entendam também a consumir – sem fome, nem fim, para satisfazer o apetite gigantesco das grandes potências tecnológicas.”

The Punishment ou o manifesto da ética na robótica

Filipe gosta de desconstruir e lidar com a utopia e o humor de forma brilhante quando discute os medos que a inteligência artificial provoca e quando coloca questões relacionadas à automação. Diversas versões de The Punishment estão circulando no mundo. Um robô executa uma punição preventiva para uma possível desobediência futura e escreve ad infinitum “Não farei mal aos humanos.” Verdadeira ‘antropomorfização da antecipação’, a obra questiona ironicamente as relações homem-máquina no exato momento em que as tecnologias se combinam e reativam o mito da criatura que escapa de seu criador. Este trabalho também reflete o desejo de colocar a ética na robótica. Ela nos lembra que nunca devemos esquecer que sempre há um homem por trás de cada máquina, cada algoritmo e cada rede…

How House, ou como combinar manual e intelectual em um ambiente lúdico

Filipe, filósofo, artista generosamente militante, com o seu amigo engenheiro Benjamin Dallard, criou, em 2018, a How House, uma associação popular de educação que reúne um grupo de amigos artistas, designers, engenheiros, educadores e empresários. Oferece oficinas de artes / ciências nos subúrbios de Paris em parceria com associações locais. Eles também trabalham nos meios prisionais e hospitalares, explorando a realidade virtual como uma ferramenta de tratamento cognitivo.

Sous Les Claviers, La Plage

Com a tecnologia digital, não há fronteiras entre política e arte cívica. Filipe gosta de trabalhos participativos. Sous les claviers, la plage convida o público a expressar-se através da composição de novas palavras e manifestos a partir dos pavimentos de pedra colocados à sua disposição. Esta instalação invoca a imaginação de maio de 1968. Só que aqui, hashtags, posts e tweets fomentam novas revoluções. Movimentos estão surgindo e se estruturando no seio dessas novas ágoras digitais, mas ainda temos que sair de toda ingenuidade: “as plataformas digitais que nos conectam e as religiões em geral ou as várias espiritualidades têm uma raiz metafísica comum que a meu ver se caracteriza por consciência, além de nosso conhecimento, de nossa unidade. Metafísica que também parece ser cada vez mais confirmada pela astrofísica e pelas recentes descobertas nas leis fundamentais do Universo em particular.”

O diploma certificado de “Dieta Digital”

Ele até planejou uma solução para seu público. Seu Ministério da Internet emite diplomas de Dieta Digital (Instagram, Twitter, Facebook, etc.) que melhoram nosso tempo longe das redes sociais. Diploma sem dúvida benéfico, mas que não nos impedirá de seguir este filósofo artista-ativista antes da sua próxima apresentação, em suas contas do Facebook ou Instagram! Nosso tempo não está perto de uma ambivalência!

 

O presente artigo foi também publicado na DASartes. Na Umbigo, a tradução do francês para o português do Brasil é da responsabilidade de Marlene Vilas-Boas.

Especialista em arte moderna e contemporânea há mais de 30 anos. Marc Pottier, francês, residente entre Paris e Rio de Janeiro, é curador internacional de arte contemporânea, autor, especializado em arte em espaços públicos. Está, também, envolvido com plataformas digitais culturais, televisão e webtv.

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