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@blaufuks_daily: um mistério cómico do Instagram

Com o seu início no primeiro confinamento de março, mais concretamente a partir do seu quinto dia, Daniel Blaufuks reproduz o mesmo formato dos vídeos de weather report que David Lynch tem, desde a mesma altura, adicionado no seu Instagram. Nestes curtos clips, Lynch lê previsões meteorológicas comentando de forma poética a entediante variação térmica de Los Angeles, onde vive e trabalha. Acrescentando outros segmentos, como o da lotaria, sem qualquer outro propósito conhecido a não ser o aparente prazer de tirar números de forma aleatória. É notório o aumento destes registos diários que têm surgindo nos últimos tempos, como é exemplo, Hans Ulrich Obrist. O diretor das galerias Serpentine e super-curador publica no TikTok várias ocorrências de poucos segundos de entrevistas a animais em que pergunta: “Podes falar-me dos teus projetos não-realizados?”, dando assim uma continuação alternativa ao seu trabalho de longo prazo em colaboração com a e-flux: Agency of Unrealised Projects.

Blaufuks, por sua vez, dedica-se a uma persona de nacionalidade indefinida, que se encontra entre vários países da Europa, e apresenta o tempo e algumas observações da atualidade política. A tentativa de esgotamento do material parece ser então o exercício da ironia: o que interessa saber do tempo quando estamos obrigados a ficar em casa? Em especial, se muitas das vezes não sabemos onde se encontra o apresentador. Em França? Lisboa? Ou mais recentemente Ilha de Santa Helena. O próprio chegou a questionar-se “— Quanto mais tempo terei paciência para fazer estes relatórios meteorológicos?!”. Acrescenta ainda que, com este retorno ao confinamento, irá ficar em casa a desenhar arco-íris…

@blaufuks_daily, que de momento integra a exposição Free Lunch na Galeria Jean-Kenta Gauthier em Paris, é uma forma de retrato (ou autorretrato) que explora o lugar privado e o confronto do lugar doméstico, condições que o artista explorara já antes da ideia do confinamento se ter tornado generalizada. Através do mapeamento da progressão da luz filtrada por uma janela de sua casa, ou a multiplicação da imagem de uma taça, o objeto torna-se, segundo o artista, uma fórmula de perceção do espaço como um lugar de infinitude metatemporal. Tal como no seu trabalho, @blaufuks_daily desenvolve em série um género de diário de sobrevivência que, de um modo conjunto, é possível comparar com o seu corpo de trabalho artístico mais convencional.

Posto isto, é desafiante pensar de que diferentes formas poderia este projeto ser apresentado num lugar expositivo não digital ou se a sua existência artística se restringe somente ao modo online e ao tempo real. O imediatismo e a capacidade de alcançar um largo público nas redes sociais fazer repensar o papel do público e as instituições culturais? De que forma podem estes arquivos funcionar a longo prazo? E quando é o momento certo para acabarem?

Licenciada em Artes e Humanidades (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2018), é programadora cultural e curadora independente de arte contemporânea. Em paralelo com a frequência do Mestrado em Fine Arts Curating (Goldsmiths, University of London), dedica-se à investigação de espaços expositivos não convencionais e metodologias curatoriais alternativas. (retrato por Hugo Cubo, 2020)

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