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To Unravel a Torment, de Louise Bourgeois

Louise Bourgeois (Paris 1911 – Nova Iorque 2010) tornou-se numa das figuras mais emblemáticas da esfera da arte, principalmente a partir dos anos 80, tendo deixado uma obra que prevalece atual e surpreendentemente interpelante. À sua primeira exposição individual, em 1947, seguiram-se várias outras, algumas delas que cobriram uma ampla temporalidade do seu percurso, como é o caso da inaugurada no passado dia 4 de dezembro, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Com o título To Unravel a Torment e curadoria de Emily Wei Rales, a presente exposição foi concebida a partir da coleção do Glenstone Museum (Potomac, Maryland), instituição onde inaugurou em 2019, seguindo-se um segundo momento no Voorlinden Museum (Wassenaar, Holanda). Agora, adaptada a Serralves pelo diretor do museu, Philippe Vergne, e a curadora, Paula Fernandes, passível de ser visitada até 20 de junho de 2021, a mostra apresenta um conjunto de trinta e duas peças que retrata a valiosa e vasta obra.

Com uma produção artística de oito décadas, Louise Bourgeois ficou reconhecida como uma das raras artistas a destacar-se tanto no campo da arte moderna como no da contemporânea. A sua matriz assenta em várias referências e se, por um lado, revela um espírito vanguardista e modernista, por outro lado, recupera elementos que essa época havia abandonado, caso da narrativa. Ainda, como se verifica em algumas peças, a artista antecipou-se a movimentos tais como as artes conceptual e minimalista. Com efeito, a sua obra compreende grande parte do que pautou a esfera da arte do séc. XX e, como Philippe Vergne explana, cruza o surrealismo com a figuração e o abstracionismo, entre outros. Algumas das suas influências encontram-se inesperadamente relacionadas, como se vê em Personages (1947-1954) que remete simultaneamente para Miró e arte africana, tendo esta última sido a área de estudo do seu marido, o historiador Robert Goldwater (1907-1973).

Formada em instituições de renome, caso da École du Louvre, e tendo trabalhado com personalidades tais como Le Corbusier, Louise Bourgeois iniciou a sua criação artística através de grafismos, gravuras e desenhos, mas foram as suas incursões seguintes no campo da escultura que mais sobressaíram. A trajetória e a experiência em várias plásticas resultaram em algumas das suas criações mais marcantes, caso das icónicas Maman, nove aranhas de grande escala que marcam presença nos maiores centros de arte internacionais. Ora, como se vê no início da exposição, e tal como ocorre com outros elementos que se repetem ao longo da sua obra, a aranha nasceu enquanto ilustração, somente depois se desenvolvendo e transfigurando para a tridimensionalidade. Uma das suas versões de maior escala, concebida em 1999, instala-se, agora, nos jardins de Serralves, com dez metros de diâmetro e mais de nove em altura. Este exemplar, tal como os seus pares, proporciona uma experiência ímpar, absolutamente avassaladora. Porém, neste caso particular, encontra-se numa forte tensão, num confronto exercido entre o seu negro e maciço aço e a harmoniosa arquitetura Arte Déco, de um suave tom cor-de-rosa, da Casa de Serralves. Com efeito, são os contrastes que definem o significado da figura da aranha, já que ela convoca tanto a morte como a vida, a destruição e a proteção, a força e a fragilidade e, ainda, representa a mãe da artista, sendo ao mesmo tempo um autorretrato.

É interessante realçar que, apesar de Luoise Bourgeois ter explorado inúmeras plásticas e expressões, sobressai um mesmo sentido estético ao longo da sua obra e tudo se sustenta e decorre de uma mesma perspectiva, ou visão basilar. Deste modo, há motivos que se repetem e emergem sob diversas faces, como é o caso das escadas e espirais. Também a necessidade da escrita foi contínua e, como esclarece Philippe Vergne, surgem recorrentes relações entre imagem, forma e linguagem. De igual modo, cruzam-se arquitetura, escultura e corpo. Acima de tudo, o trabalho da artista revela as mesmas preocupações e motivações, principalmente provenientes da sua infância, marcada pela relação com os seus pais, e entre eles, resultando num profundo medo do abandono que perdurou ao longo da sua vida. Também o impacto da Primeira Guerra Mundial e a mudança para Nova Iorque antes do eclodir da Segunda, marcaram-na profundamente. Tais vivências, ou como o título da exposição apela, tormentos, refletem-se nela e os seus efeitos repercutem-se ao longo de toda a criação artística, que funcionou como forma de catarse. O mesmo se pressente ao percorrer a exposição, a qual, apesar de comportar uma certa delicadeza própria à artista, é sobretudo pautada por um denso caráter obscuro, frequentemente evidenciado através de temas de extrema violência, caso da castração e do canibalismo, como se vê numa das suas peças mais conhecidas, The Destruction of the Father (1974).

O caráter autobiográfico da obra de Louise Bourgeois insinua-se com particular evidência em trabalhos tais como a série Cells. A primeira peça a ser concebida, Cell (Choisy) (1990-93), representa a casa e a oficina de tapeçarias dos pais, e a segunda, Cell I (1991) retrata o quarto da sua mãe e o leito de morte. Ambas encontram-se em Serralves, no piso inferior e na segunda área da exposição, respectivamente. Porém, a complexidade formal, os vários elementos e detalhes, bem como o título, passível de traduzir enquanto Celas ou Células, sugerem múltiplas interpretações. Ocorre que, apesar de retrospetiva, a obra de Louise Bourgeois é altamente relacional, abordando questões e convocando emoções comuns tais como a opressão, a rejeição, a maternidade, a esfera do doméstico, o corpo, a sexualidade, a memória, a perda e a morte, entre outros. Também universal é a sua ação e intenção feministas, exaltadas em peças tais como a escultura Fillette (sweet version) (1968/1999) que, como o título Rapariguinha já insinua, apesar de representar, nitidamente, o órgão genital masculino, foi concebida com tamanho cuidado plástico e apresenta contornos delicados que se vê dotada de uma certa vulnerabilidade e mesmo feminilidade.

Como Philippe Vergne comenta, os duplos significados, as dicotomias e dualidades são recorrentes em Louise Bourgeois. Amor e ódio, doçura e maldade, nutrir e destruir, homem e mulher, passivo e ativo, conflito e diálogo, exalam uma energia vertiginosa e inebriante que contamina o espaço, bem como qualquer um que nele se detenha. Sendo esse caráter, ambivalente e complexo, transversal a toda a sua criação, há diferentes elementos que se revelam em cada peça. Donde, para conhecer a artista, é requerido observar uma considerável extensão da sua obra, através de uma recepção atenta e dedicada, com predisposição para nela imergir, somente assim se alcançando a experiência estética por si proporcionada. O mesmo se propõe na presente exposição de Serralves que, com uma distinta curadoria, se estende ao longo de toda a ala esquerda do museu até ao jardim, à Maman, que encerra de forma soberba e memorável a visita a uma imensa mestria expressa ao longo de um insigne percurso.

Constança Babo (Porto, 1992) é licenciada em Fotografia pela Escola Superior Artística do Porto e Mestre em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Conta já com um relevante número de textos críticos, maioritariamente publicados na revista online ArteCapital, desde 2015 até ao presente, com alguns textos de folhas de sala relativas a exposições em galerias, assim como com a produção de press releases. A par do trabalho de escrita, dedica-se, igualmente, ao trabalho fotográfico de exposições e eventos de arte.

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