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Ballad of Today, de André Cepeda

Comecemos pelo início e pela primeira forma de contacto que temos com esta exposição, que é justamente pelo seu título. Ballad of Today, ou, em tradução (literal), uma balada de hoje (ou talvez do presente; bem, não sei se há uma tradução que faça inteira  justiça à ideia original inerente à expressão na língua inglesa, mas adiante). Como bem sabemos há títulos e títulos, sejam figurativos ou literais, há sempre uns mais participantes ou determinantes, no que são os projetos em causa, do que outros. Neste projeto considero ser importante começar pelo início, o título, pois este acaba por servir de mote, em forma de ritmo, para o que é a exposição.

A balada, artifício predominantemente plural devido ao contínuo serviço prestado tanto à música como à literatura, é na sua origem um poema de características narrativas, que se via consumado através do canto. Ao longo dos tempos e assim como qualquer outra modalidade ou género artístico, esta tem vindo a sofrer as suas mutações, ainda que de alguma forma vá mantendo as suas qualidades originais (em alguns casos mais do que noutros, claro). Aliás, na verdade, não se trata tanto de uma mutação do seu core original, mas antes do surgimento de afluentes – foi o termo balada que foi albergando em si mais sentidos ou que começou a ser definição para mais do que, originalmente, um poema (narrativo) cantado. Assim sendo, são diversas as variantes, muitas vezes distinguidas por períodos históricos: desde a balada medieval, à clássica, à romântica até ao entendimento contemporâneo de canção de cariz sentimental e de ritmo lento.

Dito isto, e considerando esta lacónica definição de balada, podemos traçar um primeiro plano de intenções de André Cepeda. Ou, pelo menos, a forma como o artista vê e propõe ver este conjunto de fotografias – e das duas uma (e porventura as duas em simultâneo), ou assumimos uma perspetiva mais contemporânea do termo balada, e empenhamo-nos nesta exposição enquanto uma lenta (e íntima) dança, de coreografia própria, por Lisboa; ou, podemos embarcar por uma outra via, a clássica, e pressupor a exposição enquanto um canto, desta feito com uma distância algo retrospetiva, da mesma cidade. Em qualquer uma das modalidades a estrutura mantém-se poética, não se associando a ideias de linearidade. O que ao longo da exposição podemos ver são versos ou aforismos, de universos próprios ainda que passíveis de cruzamentos ou de serem incluídos num plano maior (e que inevitavelmente o são! Em última instância no universo Lisboa).

Ao chamar a este considerável conjunto de fotografias de balada do hoje, ou do presente, Cepeda assume que há nelas algo de universal. Reivindicação que de alguma forma me parece ser apropriada. Até porque, ainda que saibamos, por menção no texto que lança a exposição, que estas fotografias foram todas feitas (e de alguma forma são sobre) em Lisboa, não há nelas quase evidência da cidade em si. Não há traços fortes ou singulares que nos levem a reconhecer de imediato a cidade. Reconhecemos que é cidade, mas não obrigatoriamente qual. Ainda que, e também com referência ao texto de sala, a recente mudança de Cepeda para a cidade de lisboa aparente ser de alguma forma um marco significante para o artista, o significado desta mudança não o leva a fazer um retrato da cidade propriamente dito, mas antes a ir mais fundo, saltando os primeiros layers da cidade – o vistoso, o turístico e o referenciado – dirigindo-se assim diretamente ao miolo a um miolo. Como tal, declara uma necessidade e vontade de chegar perto, que se traduz nesta dança lenta, neste canto, de tom reservado e taciturno ainda que categoricamente sóbrio e eloquente.

Umas imagens mais enquadradas do que outras.

A preto e branco, a cores; ora toscos e efémeros passadiços, ora sólidas e robustas pontes de betão armado; espaços abandonados, espaços ocupados; interior e exterior; com vida ou sem (ou no fio da navalha); ora apontamentos soturnos de fachadas, ora interiores de casa estagnadas; à beira do abstrato, expressamente figurativo – seres vivos, natureza morta – ora com planeamento ora sem – com luz, sem luz (uns outros ainda de luz azul, e luz verde!); a par das fotografias há ainda duas pequenas salas que, fechadas e mantidas escuras por uma espessa cortina preta, com som (ruidoso e por vezes agonizante) e um foco luminoso são mais uma ferramenta para a experimentação desta cidade (as músicas são, numa, de Gabriel Ferrandini e, na outra, de Maria Reis).

Não há um assunto ou interesse estrito, mas antes um turbilhão de empatias. Não é uma exultação do quotidiano, nem um carimbo sobre o olhar as coisas que teimam em nos passar despercebidas. Nem obrigatoriamente uma história de tangências.

Na verdade, tem tudo um aspeto bastante circunstancial.

Um ir de encontro a.

A esta altura conseguimos identificar o cão farejante que vai farejando e continuando o percurso sem desígnios ou um lugar específico como destino. Sem hierarquias. Não interessa como, e nem o antes, nem depois, as coisas aqui não são consecutivas (voluntariamente pelo menos). Há um cheiro que compele, vai-se nessa direção – agora ali, agora a acolá; e assim vai-se fazendo caminho, e assim vamos vendo a cidade.

Ballad of Today, que conta com a curadoria de Urs Stahel, pode ser visitada no MAAT até 25 de janeiro de 2021.

Rui Gueifão (Almada, 1993), vive e trabalha em Lisboa. Licenciado em Artes Plásticas na ESAD.CR e mestrando em Filosofia-Estética na FCSH – Universidade Nova de Lisboa. Já colaborou com diferentes instituições e espaços dedicados à arte contemporânea, como o Museu Fundação Coleção Berardo, Caroline Pàges Gallery e Galeria Baginski. Tem vindo, desde 2018, a produzir diferentes tipos de textos, já tendo contribuído para publicações e textos de exposições. Desenvolve e expõe o seu trabalho artístico desde 2015.

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