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Surender, Surender., de Nikolai Nekh

Ao longo dos últimos anos, o centro histórico de Lisboa presencia o discurso regenerativo da gentrificação e, em paralelo, as presenças-ausências que permeiam o lugar. Os despojos da reabilitação urbana evidenciam subtilmente o fabrico de uma segregação residencial a escalas mais finas.[1]

Creio que na origem dos conceitos estão os afetos.[2] Talvez por isso, Nicolai Nekh, residente num bairro típico de Lisboa, tenha iniciado um projeto que parte de fragmentos de objetos encontrados nas ruas da cidade que habita: cadeiras, estrados de camas, escorredores, entre outros. Ao longo de dois anos, o artista transportou-os para o seu atelier e registou-os fotograficamente, removendo-os do seu contexto e apresentando-os como uma catalogação exaustiva de resquícios funcionais. Um dos objetos encontrados, uma esponja protetora de uma televisão, deu origem à maquete de um edifício imaginário concebido num estilo modernista: o Museu da Gentrificação.

É a partir desta ideia que o artista inicia um processo de reconfiguração das formas. Nikolai concebe um conjunto de expositores que serviriam como suporte das fotografias dos objetos encontrados. Estes expositores constituem uma alusão formal e cromática aos andaimes das obras que entremeiam a reabilitação urbana. O interior intangível deste Museu imaginário seria constituído pelo testemunho fotográfico dos resquícios da gentrificação e simultaneamente pelos expositores/andaimes que aludem à parte mais efémera do processo de construção e reabilitação dos edifícios.

Retomando a maquete do Museu, a mesma foi concebida em contexto de residência de artística em Beirute. Por coincidência, aquando da sua estadia, começa a revolução no Líbano. As manifestações populares invadem as ruas da cidade e o artista sobe ao rooftop de um hotel, onde mergulha numa piscina e se deixa fotografar a observar a revolução à distância. O olhar de Nikolai debruça-se sobre a cidade e o seu corpo refugia-se no conforto do edifício. Contudo, é a lonjura que prevalece, o afastamento físico e emocional que nos remete para os processos globais de gentrificação.

De regresso a Portugal, e num outro momento de coincidência, Nikolai recorre a uma empresa privada de transporte de passageiros, onde é atendido duas vezes consecutivas por um motorista imigrante chamado Surender. O título da exposição Surender, Surender. reporta-se a estes encontros fortuitos, mas creio que o som da palavra, a sua fonética nos aproxima também da expressão inglesa surrender, traduzida para o português como rendição, renúncia ou cedência. Onde se situam os gestos de resistência perante a gentrificação? O artista denuncia as evidências efémeras no bairro que habita. A suas ações de coleta e registo fotográfico, as suas composições formais funcionam como testemunho poético das cidades globais que se metamorfoseiam entre os escombros invisíveis da regeneração urbana.

Surender, Surender., de Nikolai Nekh, na Balcony Contemporary Art Gallery, com a curadoria de João Silvério, está patente até 19 de janeiro de 2021.

 

[1] MENDES, Luís, Gentrificação e a Cidade Revanchista: que lugar para os Movimentos Sociais Urbanos de Resistência?, Forum Sociológico Online, 18, 2008, disponível em: https://journals.openedition.org/sociologico/226.

[2] Alusão ao conceito de afeto em Deleuze & Guattari a partir da obra: DELEUZE, Gilles, GUATARRI, Félix, What is Philosophy?, Columbia University Press, New York, USA, 1996 (1991 ed. original).

Margarida Alves (Lisboa, 1983). Artista, doutoranda em Belas Artes (FBAUL). Investigadora bolseira pela Universidade de Lisboa. Licenciada em Escultura (FBAUL, 2012), mestre em Arte e Ciência do Vidro (FCTUNL & FBAUL, 2015), licenciada em Engenharia Civil (FCTUNL, 2005). É artista residente no colectivo Atelier Concorde. Colabora com artistas nacionais e estrangeiros. A sua obra tem um carácter interdisciplinar e incide sobre temas associados à origem, alteridade, construções históricas, científicas e filosóficas da realidade.

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