Top

Between Fear and Desire, do coletivo Who Knows?

Between Fear and Desire foi a performance que encerrou a programação de 2020 do espaço cultural Rua das Gaivotas 6. Uma criação do coletivo Who Knows?, com interpretação de Telma João Santos e Helena Baronet. Who Knows? é um coletivo de cariz efémero, criado a partir da necessidade de des-identificar a autoria à partida, permitindo uma abordagem menos afunilada do que são os trabalhos das pessoas que o compõem e mais direcionada para a possibilidade do desconhecido. Telma João Santos é performer e investigadora. O seu trabalho artístico explora conceitos matemáticos de modo a compreender e criar metodologias de produção artística, “não só ao nível do fazer, mas também do pensar-sobre”. Helena Baronet é atriz e performer. Pertence à associação cultural Um Coletivo, uma associação que trabalha em colaboração desde 2013.

A performance começa numa paisagem densa, dramática e escura. Uma rede (que parece um mosquiteiro) desce do teto até ao chão cobrindo o corpo de Helena. No centro do espaço criado pela rede, está pendurado um microfone ao nível da sua boca. Utilizando a voz constrói uma atmosfera de sons sombrios, vitalizando o espaço cénico. Paralelamente a esta ação, Telma vai executando uma partitura de movimentos espessos e demorados. A posição dos corpos em cena é diametralmente oposta entre si, mas lentamente Telma vai-se aproximando do corpo de Helena. A partitura de Telma joga com avanços e recuos, num movimento que sempre volta atrás depois de andar para a frente. O corpo de Telma vai se metamorfoseando na demora desta coreografia inicial, aludindo a uma figura quadrúpede fantasiosa-animalesca. Esta figura não é nova, faz parte do imaginário da performance Perfect landscape [to let your (s)hit flows], o que nos leva a relacionar ambas as performances. Esta última “é sobre recomeços, (…) sobre resistir, ficar, continuar, respeitar, encontrar formas de sobreviver, criando paisagens de desejo e dor, raiva e amor. Nesta performance, mergulho numa zona cinzenta de não saber como propor a estranheza do colapso, propor-me não saber”. Em Between Fear and Desire, observamos as performers a mergulhar nesta “zona cinzenta de não saber”. Os seus corpos nus manifestam vulnerabilidade e fragilidade. À medida que Telma se vai aproximando, Helena vai verbalizando palavras que refletem este universo do não saber, de desejo, dor, raiva e amor. As luzes apagam-se assim que Telma chega perto de Helena.

Lentamente, um foco ilumina o corpo de Telma deixando o corpo de Helena numa leve escuridão. Estão ambas nos lugares opostos de onde estavam quando a performance começou, a rede que cobria Helena cai, e Telma assume a palavra pegando no microfone. Inicia um discurso bastante científico e pormenorizado sobre conceitos matemáticos que têm como referência Lagrange e o princípio do máximo. Enquanto Telma profere este discurso, Helena vai dançando. A sua dança não é de todo uma ilustração daquilo que está a ser dito. Podemos olhar para esta coreografia como reação àquilo que está a ser dito, mas ao mesmo tempo o movimento e o gesto de Helena partem de um lugar muito pessoal, de um imaginário próprio. O espectador estabelece uma relação entre estas duas ações aparentemente isoladas, uma relação que vem do sentimento de que Helena está a reagir ou a questionar aquele discurso através do corpo. Estamos perante uma linguagem profundamente complexa que seguramente não é entendida pela maioria dos espectadores, porém, esta não é a questão. Uma vez que estamos no lugar do não saber, aquele discurso pode ser visto como símbolo da narrativa da ciência, em vez de termos que entender literalmente tudo o que é dito. A ideia desta simbologia vem da cena posterior – a última parte da performance. Assim que Telma termina o seu discurso, as luzes voltam a apagar-se. Acende-se lentamente um foco no centro da cena iluminando ambas as performers. Iluminado pela luz está também um jerrican com um líquido dentro. As performers pegam no jerrican e colocam o líquido nas suas mãos, espalhando-o depois pelo corpo todo. A junção deste gesto com as circunstâncias que estamos a viver devido à pandemia da Covid-19 faz-nos pensar que aquele líquido poderá ser álcool-gel. A maneira como o líquido é espalhado pela pele é muito semelhante ao gesto de desinfetar as mãos.

Ao terminarem de besuntar todo o seu corpo, Helena e Telma iniciam uma caminhada demorada e vagarosa em direção à plateia. O olhar intenso de ambas está focado no público, saltitando de pessoa para pessoa, como que estabelecendo uma relação de intimidade com cada espectador. Ao chegarem junto da plateia, as luzes apagam-se e as performers saem de cena. A conclusão de que o discurso matemático de Telma simboliza uma narrativa hegemónica científica vem desta última cena. O simbolismo desta é claro: alude à ideia do medo, do desejo e do lugar que está entre — explícito no título da performance. Uma vez que a cena final é uma alusão clara à pandemia, a cena que lhe antecede pode ser uma ilustração do sentimento que partes da sociedade têm quando confrontadas com o discurso científico sobre o vírus: muitas vezes incompreensão, algumas vezes ceticismo e desconfiança. Pegando nas palavras das performers, Between Fear and Desire é uma “paisagem que se metamorfoseia por entre lugares de fala. Queremos entrar. Não sabemos como, mas queremos entrar. Entrar e engolir o espaço, o tempo, as pessoas, cada uma de nós. Fazer desaparecer o mundo dentro de nós. O que fazer com o vazio? Explodir, vomitar, conspirar, amar, partilhar. A arte efémera do encontro. O espaço vazio. O mundo a rebolar e nós com ele aos trambolhões. Amemo-nos. Comamo-nos. Comamos o amor. Who Knows?”.

Rodrigo Fonseca (1995, Sintra). Estudou na Escola Artística António Arroio, é licenciado em História da Arte pela FCSH/UNL, e pós-Graduado em Artes Cénicas pela mesma faculdade. Viajou pela Europa central, pelos Balcãs, América do Sul, e viveu na Itália, Grécia, e Brasil. O seu trabalho artístico desenvolve-se na música e no corpo, entre a pele da planta do pé e a pele da superfície do chão. Organiza e programa o festival Dia Aberto às Artes (Mafra), e é membro fundador da associação cultural A3 - Apertum Ars. É um dos fundadores da CusCus Discus. Participou como músico no espetáculo CusCus World Musik Radio 196.7 FM, apresentado em Bruxelas (Festival Vivarium, 2019), Lisboa (Desterro, 2019) e Marselha (La Deviation, 2020). Participou como performer no espetáculo PARAANDAR, inserido no Festival Snow Black 2019 (Moita), e no evento A TROPA BELADONA (2019), na ADAO - Associação Desenvolvimento Artes e Ofícios (Barreiro) — produções d’A Bela Associação.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €25

(portes incluídos para Portugal)