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Uma floresta de pontos e linhas: Quacors e Prismas, de Ascânio MMM

Ao primeiro vislumbre, a exposição Quacors e Prismas, de Ascânio MMM, parece conduzir-nos a um exercício de transitoriedade, de permutabilidade, a um questionamento sobre os verdadeiros elementos que compreendem e definem cada disciplina artística. Na sua base, os materiais adotados, como o alumínio ou os parafusos em aço inox, são aplicados, com igual desenvoltura, tanto nas esculturas como nas obras bidimensionais, e de modo fluido. Mantêm os elementos do desenho, e as suas tensões, que parecem comuns entre as diferentes artes, como “o ponto, a linha, o plano”.

No início, somos confrontados com a variabilidade das formas de arte, pintura, arquitetura, escultura, e o modo como se distanciam e se aproximam entre si. Somos impelidos a analisar o lugar de pertença, e a natureza de cada uma dessas formas de arte.

A interioridade da obra também é invocada. Uma vez que as formas escultóricas, presentes no espaço da galeria, estimulam, pela delicadeza e transparência das suas estruturas, à perceção de uma intencionalidade, de uma interpenetração, e justaposição, de umas obras sobre as outras, e, por sua vez, a uma “anulação” ou estreitamento do campo visual. Como se se pretendesse anular a espacialidade da galeria, ao olhar as obras sem esquecer as outras obras que se revelam por detrás. Dando lugar, por isso, a uma possível fusão.

Mas não nos iludamos, a identidade de cada uma destas formas está garantida. As peças escultóricas mantêm a sua unidade. A sua integridade. Aludem a um espaço exterior, urbano, de centro de cidade, como se se tratasse de uma grande praça. No entanto, as formas reanimam uma ideia de arquitetura. Uma sugestão de transitoriedade, entre interior e exterior. Evocam as grandes construções arquitetónicas. As dimensões aplicadas nas divisões internas destas estruturas, especialmente na escultura Prisma 2, bem como na Prisma 3, não chegam a ser suficientes para permitir uma deslocação ao seu interior. O convite, que é feito à entrada, e a vivência deste espaço, é retido. Faz-se por meio da sugestão, e no domínio das ideias e da imaginação. E é justamente essa condição, de um “para lá de” – das coisas que só pertencem à obra de arte – que parece acontecer no espaço da galeria, e que nos alude a Kandinsky.

O ponto como elemento, nesta exposição, aparenta ter um lugar de protagonismo acentuado. Desloca-se de uma realidade para outra com grande agilidade. É mencionado na sua condição de simultaneidade. Tanto pode ser elemento prático, de sustentação da estrutura, como pode, a qualquer momento, assumir um papel importante e autonomizar-se face à estrutura. À medida que nos deslocamos na galeria, o ponto parece evidenciar-se gradualmente. Começa primeiro por sugerir o lugar geométrico resultante da interseção entre várias retas, de modo a garantir a estrutura, para se tornar, depois, ele próprio, no elemento, por excelência, de fruição.

É impossível não recordar Wassily Kandinsky, e o modo como o pintor denominava estas estruturas. Chamava-lhes obras construtivistas. No seu livro Ponto, Linha, Plano, mencionava a exposição construtivista de Moscovo, 1921, e salientava “a combinação de linhas”, paralelas ou perpendiculares, “a lei de justaposição e de oposição”. E mais belo ainda, relembrava a leveza de construções como torres de radiodifusão, ou postes de alta tensão.

Assim, com as obras Quacors, o plano e a cor, habitualmente associados à pintura, vão sendo progressivamente substituídos pela forma escultórica, dando-se a autonomização do ponto. Depois, libertando-se da forma escultórica, passam a levitar no espaço da galeria e desvelar o pensamento para uma “floresta” de pontos.

Da densidade da estrutura, até à sua quase ausência, à sua leveza, encontramos o reflexo da grelha, da trama, tão cara, esta última, aos fundamentos da arte moderna, como diria Rosalind Krauss. Uma grelha que, segundo o pensamento modernista, “silenciaria o discurso”, e realçaria a importância da perceção visual, em detrimento da narratividade. Na realidade, as obras de Ascânio aparentam trazer a lume as grandes questões sobre arte, despertadas por Greenberg e Fried, assim como as tendências dos anos 60 e 70 do século passado, com a arte literal a florescer, nomeadamente as “estruturas primárias”, encontradas em obras minimalistas, como as construções de Sol LeWitt, de 1971, Donald Judd, de 1963, a monocromia de Yves Klein, entre outros.

Quacors e Prismas, de Ascânio MMM, está patente na Galeria 111 até 9 de janeiro.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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