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¿De qué casa eres? Episodios de un cotidiano. Del bando republicano de la Guerra Civil Española, por Ana Pérez-Quiroga

Ana Pérez-Quiroga inaugurou a sua primeira exposição na galeria NO.NO em Lisboa. ¿De qué casa eres? Episodios de un cotidiano. Del bando republicano de la Guerra Civil Española dá continuidade ao trabalho artístico e projeto de investigação ¿De qué casa eres? que a artista tem vindo a desenvolver desde o final de 2017. Este projeto gira em torno do episódio sociopolítico que ocorreu em Espanha durante a Guerra Civil (1936-1939) em que 30 mil crianças republicanas, os “Niños de la Guerra”, foram exiladas em diversos países, das quais 2.895 tiveram como destino a União Soviética, os “Niños de Rusia”.

Regressando ao país de origem apenas passados 19 anos (1937-1956), estas crianças viveram de perto a invasão da URSS pelas tropas alemãs nazis durante a II Guerra Mundial, a chamada Operação Barbarossa, assim como cresceram perante uma educação e ambiente soviéticos que tiveram necessariamente grande impacto nas suas vidas. Um fenómeno que cruza a história de Espanha com a história da Europa e do Ocidente.

Este trabalho comporta um cariz autobiográfico, uma vez que a mãe e a tia de APQ fizeram parte deste grupo de crianças exiladas, na altura com 4 e 5 anos respetivamente. A pergunta “¿De qué casa eres?” era feita por estas crianças umas às outras não só durante a sua estadia na Rússia, mas também em Espanha após o seu regresso, e poderá ser transcendida no sentido em que poderá também questionar uma identidade, um sentido de pertença a um país, perante a sua condição migrante.

A exposição ¿De qué casa eres? Episodios de un cotidiano. Del bando republicano de la Guerra Civil Española remete para um imaginário revolucionário, neste caso, de luta pela República. Uma República que antecedeu a Guerra Civil Espanhola despoletada em 1936 por um golpe de estado liderado por Franco. Uma Guerra que durou três anos, onde muitos milhares de vidas se perderam, e que terminou a 1 de Abril de 1939, data em que a República é derrotada e em que se inicia a ditadura militar franquista.

APQ propõe através desta exposição a transposição deste espírito revolucionário para o presente. Um presente em que atravessamos uma crise pandémica que nos obriga a repensar muitas questões nomeadamente ao nível do modo como nos relacionamos e de como gerimos o nosso dia a dia com as devidas restrições e distanciamento, um presente dominado pela tecnologia, as redes sociais e um ritmo demasiadamente acelerado, onde racismo, discriminação e a destruição da natureza ainda ocupam lugar.

Na primeira obra que avistamos ao entrar na galeria, “¡VIVA! República, República ¡VIVA!” lê-se uma dupla expressão Viva República! ou República Viva!, pintada em duas das três cores da bandeira da II República espanhola – vermelho e roxo – proclamada em Abril de 1931, que pôs fim ao então regime monárquico.

A obra ¡NO PASARÁN! é composta por 30 sacos de sarapilheira cheios com granulado de cortiça que constituem uma trincheira. Cada um dos sacos tem um conhecido slogan político pintado na cor vermelha associado a um episódio mais recente ou mais antigo da história. A obra ¡NI UNA MENOS! reúne todos eles – ¡NI UNA MENOS!; VIVRE LIBRE OU MOURIR; NO GENDER NO PROBLEM; BLACK LIVES MATTER; JE SUIS CHARLIE; REVOLUTION IS NOT A DINNER PARTY; VENCEREMOS; entre outros.

Cada um dos sacos de ¡NO PASARÁN! destina-se a ser adquirido por uma pessoa diferente que ficará responsável por uma das partes da trincheira. A sarapilheira de juta cuja resistência é conferida pelo cruzamento entre os vários fios de fibras grossas e ásperas que a compõem, metaforiza a rede de 30 pessoas que unidas dão sentido e força à luta contra o totalitarismo, o populismo e o esquecimento.

O vídeo Venceremos mostra-nos APQ a transportar e abanar a bandeira republicana rumo ao horizonte, um horizonte de esperança. 30 imagens retiradas deste vídeo constituem a obra ¡Hasta la victoria sempre! #1-30 e registam o caminho traçado pela artista com a bandeira transmitindo um sentimento de desejo de vitória. A acompanhar todas as obras, escuta-se Ay Carmela. A conhecida canção revolucionária republicana da Guerra Civil Espanhola é cantada por Ângela Petra, mãe da artista.

O conjunto das seis obras remete para um imaginário de revolução, de persistência e luta que preserva uma memória contra o esquecimento e que se projeta no presente instigando-nos a um sentimento revolucionário necessário e atual. Como Maria do Mar Fazenda enuncia no texto que acompanha a exposição, “Separados, estamos juntos (Séparés, on est ensemble. Mallarmé) e vivemos o mesmo presente”.

¿De qué casa eres? Episodios de un cotidiano. Del bando republicano de la Guerra Civil Española é uma exposição urgente e cuja visita é obrigatória. Poderá ser vista até 9 de Janeiro de 2021 na galeria NO.NO em Lisboa.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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