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Bela Silva na galeria Rui Freire – Fine Art

Na obra de Bela Silva, cada pincelada é ondulante, vibrante, e repercute-se, com igual veemência, na modelação da matéria cerâmica. Evoca os gestos, outrora vigorosos e enérgicos, que se faziam sentir em obras de artistas, dos primeiros movimentos de vanguarda, como os expressionistas, os fauve, ou ainda os cubistas, com as suas implicações subjetivas e questões de interioridade.

Neste caso poderíamos mencionar o artista Pablo Picasso. O vigor, a impetuosidade, a força pictórica e a gestualidade, que tanto Bela Silva apreciava neste artista, ajudou a firmar, a configurar o seu corpo de trabalho.

Bela Silva haveria tido, aos seis anos de idade, o primeiro contacto com a obra deste grande pintor. Cedo aprendeu a valorizar a polivalência do artista, a pluralidade dos meios de expressão, como a escultura, o desenho, a pintura, a cerâmica.

O trabalho de Bela Silva assume uma valência experimental, onde há lugar, também, para uma obra de arte total, para uma Gesamtkunstwerk. Noção que, segundo Anne Bony, a artista aprendeu com um arquiteto espanhol, que conheceu, quando se aventurou um dia numa escavação, algures na Grécia, e por conta do seu gosto pela arqueologia.

Encontramos também uma clara referência à arquitetura, sugerida pelas formas escultóricas que desenvolve, presentes na exposição, e que aludem a elementos arquitetónicos da antiguidade. A artista é uma observadora exímia, e as formas arquitetónicas não lhe passam despercebidas. Este gosto, surge potenciado pelo contacto, que teve, com as diversas cidades, e tipologias, e pela formação que recebeu, nos Estados Unidos, em 1994, quando estudava na Chicago Art Institute. A escola oferecia um largo exemplo de arquitetura modernista, de enorme referência, como compreende a obra de Frank Lloyd Wright.

A exposição ostenta também um grupo de desenhos, de vasto colorido, em grande e médio formato, realizados entre 1995 e 2020, e que evidenciam uma recolha de elementos vegetalistas, e animalistas, com clara alusão à natureza.

Este empreendimento na natureza compreende o uso de ferramentas herdadas do modernismo, mas num sentido algo divergente deste. Aos artistas das primeiras vanguardas era pretendido que se afastassem da representação naturalista. Elogiava-se, até, a máquina. O progresso e a velocidade, pareciam constituir os novos paradigmas, ou os símbolos da evolução tecnológica.

Bela Silva, desse modo, aparenta apreciar o dinamismo e a velocidade dessa época, usa as suas ferramentas e utensílios, mas talvez os use para nos alertar, para nos chamar a atenção da urgência em despertar para as formas naturais, e para a veloz, e gigantesca extinção em que se veem condenadas. A natureza é autorreguladora, já dizia Aristóteles, porém, o homem tem vindo a provar que é capaz de a destronar, e diminuir a sua diversidade. Bela Silva parece emergir essa urgência em parar a destruição. Com a paciência de um arqueólogo, vai registando cada espécime, na esperança de conservar, envolto num sentimento de melancolia, o pouco que já está irremediavelmente perdido.

Até 9 de janeiro de 2021, na galeria Rui Freire – Fine Art.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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