Top

Campo/Contracampo, de José Pedro Croft

Seis chapas de aço pintado, organizadas em dois trípticos, ocupam o Convento de Santa Clara-a-Nova em Coimbra, mais concretamente o espaço que correspondia ao refeitório. São peças colossais, que nos esmagam aos poucos na relação com o corpo humano e na cor pontualmente ausente para ser ocupada pelo real, ou para se fundir com ele.

No texto de folha de sala, assinado por Carlos Antunes, Diretor do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, instituição que assinala assim a sua primeira coprodução internacional da Bienal Anozero, é citado o artista José Pedro Croft, autor da obra em questão, numa entrevista em 2001: “A obra de arte é um objeto de passagem e a nossa vida é também uma passagem”. Passagem é evidentemente condição sine qua non para a composição da situação onde o cruzamento com esta obra possa resultar em epifania ou num outro modo de transcendência. Voltando à folha de sala, Carlos Antunes refere que José Pedro Croft retira do Minimalismo a “economia dos meios” e da Arte Povera resgata “a possibilidade do objeto”. Mais do que a “economia dos meios” extraída do minimalismo, José Pedro Croft cria aqui a ambiência quase total desse movimento.

Como referi anteriormente, a situação é criada pelo corpo em movimento do espectador, que permite a existência da escultura e revela o seu antropomorfismo oculto – é um possível outro, maior que nós. Estas, mais do que esculturas, são presenças (cf. Tony Smith) de um exemplo perfeito da experiência como objeto. Estas peças surgem no caminho, são obstáculos à linha reta, e são elas próprias propostas de outras linhas que, em interceção ou não, propõem novas possibilidades de experiência do espaço. É necessário desobedecer ao normal movimento do corpo para as fazer existir, e com tudo isto, estando, portanto, a ativação do nosso lado, do nosso corpo, teremos de falar em teatro, teremos de falar em minimalismo, teremos de falar em Michael Fried. Acima de tudo, devemos contrariar a lógica da Gestalt, desbloqueando o ocultismo destas presenças metálicas e geométricas, assumindo a sua inclusão no mundo, para assim o compreendermos melhor.

Inaugurada a 19 de setembro, Campo/Contracampo de José Pedro Croft pode ser visitada até 30 de dezembro de 2020.

Daniel Madeira (Coimbra, 1992) é licenciado em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e mestre em Estudos Curatoriais pelo Colégio das Artes da mesma universidade. Coordena desde 2018 o Espaço Expositivo e o Projeto Educativo do Centro de Artes de Águeda.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €25

(portes incluídos para Portugal)