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ProjectoMAP 2010–2020. Mapa ou Exposição no Museu Colecção Berardo em Lisboa

“Um mapa é uma ferramenta que nos permite descobrir um território desconhecido, um código para compreender novos lugares, novos conhecimentos e novos mundos. Serve também para classificar: é através das leituras feitas pelos mapas que classificamos e que criamos sistemas de organização de dados.”

Assente na definição de mapa que se lê à entrada da exposição ProjectoMAP 2010-2020. Mapa ou Exposição, o ProjectoMAP ou Mapa de Artistas de Portugal, surge em 2010, por iniciativa de um coletivo de curadores acabados de chegar a Portugal, com o objetivo de mapear o universo da arte contemporânea portuguesa e de compreender a sua cartografia. Passados dez anos de trabalho e pesquisa, este mapa é-nos apresentado através da exposição ProjectoMAP 2010-2020. Mapa ou Exposição com curadoria de Alda Galsterer e Verónica de Mello, a decorrer no Museu Colecção Berardo em Lisboa.

A metodologia para traçar este mapa encontra as suas raízes na exposição Freunde-Friends-Fründ que teve lugar nas Kunsthallen de Berna e Düsseldorf em 1969. Harald Szeemann e Karl Ruhrberg, comissários da exposição, propuseram apresentar o universo pessoal de quatro artistas – Daniel Spoerri, André Thomkins, Karl Gerstner e Dieter Roth – convocando os amigos e os amigos dos amigos de cada um. A exposição contou assim com 50 participantes e mais de 400 peças de, entre outros, Josef Albers, Arman, Joseph Beuys, George Brecht, John Cage, Christo, Marcel Duchamp, Méret Oppenheim e Günther Ücker.

Tomando como ponto de partida o modelo de exposição impulsionado por Szeemann e Ruhrberg, o ProjectoMAP propõe que cada um dos quatro artistas inicialmente nomeados (1ª geração) – Ana Pérez-Quiroga, João Paulo Serafim, Pedro Barateiro, Sara & André – sugira dois nomes para adicionar ao mapa (2ª geração). Por sua vez, esses dois artistas nomeiam outros dois nomes (3ª geração) e assim sucessivamente, fazendo como que o mapa cresça exponencialmente. Assim, esta cartografia é formada através de uma cadeia de afinidades em que os artistas se legitimam uns aos outros a partir da sua rede de relacionamentos, construindo-se nomeação após nomeação, de geração em geração até à décima geração, dez gerações em dez anos.

Apresentado sob a forma de um mapa interativo online, o ProjectoMAP constitui uma vasta base de dados acerca de mais de 360 artistas pertencentes ao cenário artístico português contemporâneo. Ao longo dos últimos dez anos, realizaram-se visitas a ateliers e entrevistas a artistas, curadores, diretores de museus e galeristas, que são agora documentadas através desta exposição, ao lado de obras dos artistas pertencentes ao MAP.

Segundo as curadoras, o projeto persegue o espírito das intenções manifestadas por Harald Szeemann numa entrevista em 1995, de criar um “novo mundo” e fugir à simples documentação. Apresenta-se assim por meio de uma exposição em aberto, um organismo vivo que permite a compreensão não apenas da cena artística em Portugal, mas também de diversas formas de mapear.

Organizada através de diferentes “colmeias”, correspondentes a cada duas gerações, o seu ritmo é interpelado por diferentes momentos essenciais para a compreensão do projeto. Um primeiro momento onde se dá a conhecer a exposição génese Freunde-Friends-Fründ; um segundo momento dedicado à ideia de mapa e mapeamento associada a obras de Miguel Palma, Pedro Cabrita Reis, Mafalda Santos e Sara & André; um terceiro momento onde são apresentados catálogos da maioria dos artistas pertencentes ao MAP, ferramenta essencial de apresentação e pesquisa na produção artística contemporânea; e um quarto momento onde é possível assistir às entrevistas feitas ao longo dos dez anos de duração do projeto.

Simbolicamente colocada à entrada da exposição, a peça Árvore de Alberto Carneiro, representa metaforicamente o ProjectoMAP, uma árvore que cresce exponencial e infinitamente através das suas ramificações, e homenageia o artista cujo atelier foi o primeiro a ser visitado.

Representando a primeira e a segunda gerações, são apresentadas obras de Sara & André, João Paulo Serafim, Pedro Barateiro, Ana Pérez-Quiroga, Ramiro Guerreiro, Rodrigo Oliveira e Joana Craveiro. Curiosamente, a primeira dupla de artistas concebe especificamente para a exposição, um irónico mapa, imbuído do humor característico do seu trabalho, que inventaria “Cuecas de 39 artistas famosos (d’après Frank Gaard)”. João Paulo Serafim fala-nos de modos de ver, através de Rembrandt no Acervo do Museu Improvável / MIIAC, enquanto a obra Self de Pedro Barateiro remete para o universo do autorretrato e Breviário do Quotidiano #2: Índia de Ana Pérez-Quiroga questiona o carácter “sagrado” do museu.

Na colmeia da terceira e quarta gerações encontramos obras de Ângela Ferreira, Ana Vieira, Rui Chafes, João Queiroz, Helena de Almeida, Ana Jotta, entre outros. Aqui é importante destacar a fotografia Hotel da Praia Grande (O Estado das Coisas) de Ângela Ferreira, alusiva à liberdade artística da mulher, colocada ao lado de obras de grandes referências femininas no cenário artístico português, Ana Vieira e Helena de Almeida. Já as linguagens de Graça Pereira Coutinho, Paula Rego e Ana Hatherly cruzam-se e encontram-se na colmeia alusiva à quinta e à sexta gerações ao lado de obras de José Pedro Croft, Nuno Sousa Vieira e Carlos Bunga que desafiam o espaço e a sua arquitetura nas suas várias dimensões.

Musa paradisiaca, Carlos Lobo, André Cepeda, Gabriela Albergaria, Paulo Brighenti, Ernesto de Sousa, entre outros constituem a sétima e a oitava gerações e as obras escolhidas incentivam um questionamento acerca do olhar e do pensamento que é formulado através do olhar. A título de exemplo, Desenho – Escultura de Gabriela Albergaria estreita a relação entre as duas disciplinas ao continuar o desenho do ramo de árvore colocado na vertical a lápis de cor sobre papel. Por outro lado, o grés revestido a pigmento de Sem título #2 (da série pai) de Paulo Brighenti, esconde o búzio que se adivinha na parte de trás do objeto escultórico. Já Ernesto de Sousa intervém sobre um livro de José Augusto França, transformando-o numa paisagem cuja topografia é moldada com as suas próprias páginas.

Por fim, a escultura Untitled de António Bolota é colocada com esforço no espaço da galeria, dadas as suas grandes dimensões, podendo a tensão que permanece entre a peça e o espaço metaforizar a dimensão infinita associada ao MAP. Ao seu lado, representando a nona e a décima gerações, encontramos obras de Ana Vidigal, Diogo Bolota, Jorge Molder, Margarida Correia, Nikias Skapinakis, Bruno Cidra, Joana Vasconcelos, Mané Pacheco, etc.

Para além de todos os intervenientes já referidos, também o espectador é incluído neste projeto, tendo sido continuamente implicado no processo de construção da exposição, não apenas através do convite que lhe é feito à entrada da exposição para construir o seu próprio mapa recolhendo as biografias dos artistas que escolhe e arquiva na sua pasta pessoal, mas também através das perguntas que se encontram espalhados pela exposição às quais vai naturalmente respondendo à medida que a percorre.

No seguimento da exposição irão ser disponibilizadas online as 16 entrevistas realizadas no âmbito do projeto a Paulo Pires do Vale, Maria João Gamito, Filipa Oliveira, João Silvério, Maura Marvão, Miguel von Hafe Pérez, Nuno Centeno, Gabriela Vaz-Pinheiro, Ana Pérez-Quiroga, Jorge Molder, Sara & André, Luísa Santos, Joana Vasconcelos, Julião Sarmento, Sara Antónia Matos e Penelope Curtis. Será ainda lançado um livro onde serão registados todos os conteúdos recolhidos ao longo destes dez anos de pesquisa.

O ProjectoMAP enquanto cartografia de ligações e afinidades, poderá constituir-se como uma importante ferramenta para o conhecimento da história da arte em Portugal. Como refere Sara Antónia Matos na sua entrevista “o mapa não é uma solução, é um diagnóstico”. Diagnóstico que necessariamente inclui todas as questões que acompanham o cenário artístico português nos últimos dez anos, tais como questões relacionadas com um passado histórico colonialista ou mesmo questões de género.

A exposição ProjectoMAP 2010-2020. Mapa ou Exposição com curadoria de Alda Galsterer e Verónica de Mello constitui um documento único que poderá ser visto no Museu Colecção Berardo em Lisboa até ao dia 10 de janeiro de 2021.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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