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Something Happened on the Way to Heaven, de Kiluanji Kia Henda

A exposição Something Happened on the Way to Heaven, de Kiluanji Kia Henda, com a curadoria de Luigi Fassi, está patente nas Galerias Municipais | Galeria Avenida da Índia, em Lisboa, até ao dia 10 de janeiro de 2021. A partir de diferentes abordagens – conceptuais e formais – o artista angolano explora a dialética da paisagem mediterrânea, entre o paraíso e a desigualdade social, entre o turismo e o fluxo migratório africano.

A primeira obra, próxima à entrada da galeria, A Balada Geométrica do Medo, apresenta uma série de nove fotografias em preto e branco. Paisagens idílicas das costas sardas são sobrepostas por uma estrutura geométrica, como uma rede metálica de proteção. Em cada fotografia, um padrão diferente. Porém, o efeito é o mesmo, uma sensação de distanciamento – as imagens paradisíacas parecem inacessíveis.  O padrão geométrico ressoa com a obra ao lado, Relicário de um Sonho Naufragado. Em uma sala com paredes negras, encontramos uma instalação composta por um plinto de sal, uma cabeça de bronze e uma estrutura de ferro cercando os outros dois elementos. A iluminação cria um efeito ótico, refletindo a estrutura geométrica em ferro nas paredes ao redor. A impressão é que estamos presenciando um ritual de luto. E de fato estamos. O texto de sala esclarece que a obra alude ao “destino traumático de muitas mulheres e homens africanos naufragados e mortos nas travessias marítimas para a Europa”. A cabeça de bronze reproduz as feições de Orlando Sérgio, angolano e o primeiro ator negro imigrado a interpretar Otelo (Shakespeare) em um teatro em Portugal. A referência a Otelo sucede em outra obra do artista: A Sina de Otelo (Act. I, II, III, IV e V). Em cinco fotografias emolduradas de um homem negro nu em um cenário clássico de um palacete em Lisboa, o artista questiona as associações morais entre bem e mal e raça negra e branca. Em uma ficção irónica, questões são levantadas a respeito das expectativas do espectador e os cânones da arte ocidental.

Mare Nostrum, outra obra fotográfica de Kiluanji, retrata salinas de Arles, na Riviera francesa da Provença. Nas trinta fotografias em preto e branco, elementos negros acompanhando as modulações das salinas são inseridos pelo artista. Enigmático à primeira vista, as figuras fantasmagóricas contrastam com o branco cristalino das salinas, levando o espectador a associar as imagens a uma situação trágica. A intenção de Kiluanji é sinalizada pelo título impresso, localizado em baixo das imagens. Em latim, mare nostrum alude ao significado do império romano ao mediterrânio – o nosso mar. Mais uma vez, o artista evoca a questão migratória e as perigosas travessias do mediterrâneo para a Europa, que muitas vezes resultam em desaparecimentos e mortes.

Na última parede da galeria, lemos: “Migrants who don’t give a fuck”. As palavras em branco acompanham imagens de flamingos de antigos postais e criam uma composição de seis fotografias. Os flamingos, animais nómades, simbolizam a migração como um fenômeno livre e universal. A obra apresenta de forma irónica e provocadora o contraste entre o reino animal e as formas de dominação territoriais do homem. Ao lado das fotografias, encontramos uma instalação em grande escala constituída por grades de ferro e um letreiro em néon, onde se lê “Hotel Flamingo”. As grades formam um encarceramento, contrariando a ideia de um hotel evocada pelas palavras em néon.

A obra O Manto da Apresentação (Segundo Arthur Bispo de Rosário) é um elemento dispare perante os outros trabalhos da exposição. Em contraste com os padrões geométricos das grades em metal das duas instalações, ou das fotografias com intervenções gráficas, a materialidade do manto evoca a parecença do corpo. Seja aquele que produziu com as mãos os pequenos detalhes em lã e missangas, seja o corpo que vestiria o manto. O trabalho é baseado no clichê da “ovelha negra”, questionando a cor negra enquanto estereótipo racial de presença indesejada.

A exposição individual de Kiluanji Kia Henda explora criticamente o desacordo entre a beleza paradisíaca da natureza da costa mediterrânea e o seu legado como território de bloqueio e conflito. O artista apresenta um trabalho conceitualmente instigador e sensível em matéria.

 

A autora escreve em português do Brasil.

Maíra Botelho (1991, Brasil) tem uma formação multidisciplinar dentro dos campos da comunicação visual, artes plásticas, filosofia e performance. Atuou profissionalmente como designer gráfica no Brasil após se licenciar na PUC-MG, tendo ainda estudado Artes Plásticas na Escola Guignard - UEMG e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Recentemente concluiu uma Pós-Graduação em Estética - Filosofia na Nova Universidade de Lisboa.

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