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A palavra, de Nuno Nunes-Ferreira

A instalação A palavra, do artista Nuno Nunes-Ferreira, está patente até 13 de dezembro, no Convento São Francisco, em Coimbra, integrando o ciclo Somos Livres. Conta com um texto de Hugo Dinis.

Uma pequena sala, forrada a jornais. Cada jornal representa aqui um grito, uma forma de traduzir a revolta – são jornais pós-25 de Abril. Publicações recolhidas e colecionadas pelo artista que manifestam, através das suas manchetes, o silêncio ansiosopordeixardeoser do Estado Novo. A premissa para esta instalação é a famosa frase dita por Alberto Martins, presidente na altura da Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra, que a 17 de abril de 1969 ousou pedir a palavra perante o Ministro da Educação José Hermano Saraiva e o Presidente da República Américo Tomás. O pedido que viria a despoletar a crise académica desse mesmo ano: “Peço licença à mesa para falar” foi a versão verbalizada de pedir a palavra, por ele e pelas milhares de vozes que se opunham ao Estado Fascista e à sua Guerra Colonial, exigindo a Liberdade. Publicações como Revolução, Povo Livre, Voz do Povo ou Combate alertam-nos, in situ, para os problemas do capitalismo, reforçam a ideia de Otelo Saraiva de Carvalho como a solução ou, por exemplo, anunciam a libertação das “Três Marias” e a prisão dos “Pides”. A palavra é esbanjada como homenagem a todas as outras palavras proibidas, que não puderam chegar até aqui.

Cada uma das palavras impressas nos jornais que formam esta instalação possuem porão e sótão, pegando na abordagem de Gaston Bachelard em A Poética do Espaço. Podemos olhá-las de vários prismas, percecioná-las de diferentes modos, subir quer em direção ao sonho, quer em direção à abstração. Não as olhar diretamente no rosto, ou então sim. Perceber de que se revestem no exato momento do contacto e aceitar a importância de cada uma delas. O olhar político vigia-nos durante o contacto com esta instalação, legível da esquerda para a esquerda, querendo isso dizer aquilo que possa querer dizer.

A palavra é um silêncio em potência, um eco dos gritos amordaçados da Ditadura, uma ação reivindicativa e responsiva perante alguns atos contra a liberdade de expressão, que inclusive presenciamos no contexto atual.

Daniel Madeira (Coimbra, 1992) é licenciado em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e mestre em Estudos Curatoriais pelo Colégio das Artes da mesma universidade. Coordena desde 2018 o Espaço Expositivo e o Projeto Educativo do Centro de Artes de Águeda.

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