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EmpowerBank, da Plataforma285

A Plataforma285 é um coletivo multidisciplinar, fundado em 2011, com o intuito de criar espetáculos de teatro. A sua dramaturgia assenta na procura da não-teatralidade e de novas linguagens criativas, construindo realidades habitadas por atores e não por personagens.  Trabalha com uma rede alargada de colaboradores e artistas associados. EmpowerBank é a nova criação do coletivo. Está integrada no festival Temps d’Images, em coapresentação com o Teatro do Bairro Alto. Estreou a 27 de novembro, tendo permanecido em cena no Lux Frágil até 29 de novembro.

O espetáculo começa com uma melodia saída da flauta irlandesa de Van Ayres. Este momento é curto, mas marca claramente o início da ação e/ou a entrada para um lugar outro. Sucede-se uma melodia de sons sintetizados, que rapidamente dá lugar a uma batida footwork bastante acelerada. Simultaneamente, os restantes quatro atores entram em cena. Entram em fila e cada um sobe para a superfície achatada de uma plataforma cilíndrica. O espaço cénico está circunscrito a um perímetro retangular azul claro com as extremidades ligeiramente elevadas, sugerindo-nos a imagem de uma piscina quase sem profundidade. A área do perímetro está coberta de milho cru. Os atores posicionam-se individualmente nas plataformas de forma escultórica. Mantêm-se praticamente imóveis com o olhar fixo no vazio. A música muda e os performers começam a discursar ao som melódico de um grand piano. A narrativa deste discurso é sempre a mesma e é transversal a todos eles: a sátira do “eu” neoliberal, fabricado através da junção das ideias de Adam Smith e das ideologias new age dos anos setenta e oitenta. Pegando nas palavras da companhia, EmpowerBank “é um espetáculo sobre a obsessão contemporânea pelos movimentos que promovem a ideia de salvação – do mindfulness às experiências de “conhece-te a ti próprio”: “(…) A solução é um puzzle que mora no interior. Tenha mão na sua vida!”. O tom assenta quase sempre no sarcasmo e na ironia, ridicularizando o discurso simplista de causalidade aplicado a tudo e mais alguma coisa e ancorado constantemente em lugares comuns. O texto da dramaturgia compõe-se de neologismos e informações (aparentemente) aleatórias, que salientam ainda mais o tom irónico e sarcástico da peça: “Dada a conjuntura cósmica que atravessa o arcano menor da ursa maior, tudo lhe pode parecer perdido. Suffocation. No breathing. Planos de recuperação. Bolsinhas de emergência. É fruto dos tempos – não somos nada! Mas não se deixe knockoutear pela vida (…) Empower me. Empower you. EmpowerBank. Banco do poder. Poder no banco. Dinheiro no colchão. Colchão no chão? Não! Não! Não!”.

A ação vai-se desenrolando e os atuantes vão lentamente movendo o corpo, libertando-se da sua pose estática. As imagens que surgem deste movimento relacionam-se com o texto verbalizado sem cair na mera ilustração daquilo que está a ser dito – pelo contrário, o significado e o significante estão constantemente em jogo. A música vai povoando o espaço, estimulando o imaginário dos atores, abrindo espaço para o movimento. O movimento dá lugar à coreografia e, a dada altura, observamos uma partitura de ações bem definidas. A coreografia impõe ritmo à ação e esta está sempre sincronizada com a música tocada ao vivo. Além de impor ritmo à ação, a coreografia estimula a atenção do espectador criando uma tensão no espaço cénico e concentrando o público não só nos corpos em movimento, mas também na palavra dita.

Ao longo da peça, são utilizados vários objetos. Estes objetos interagem diretamente no espaço cénico (por exemplo, os ancinhos que são utilizados para varrer o milho que está no chão), mas também com o movimento do corpo dos performers (por exemplo, as escovas-espanador utilizadas durante as ações coreografadas), sugerindo que em determinados momentos esses objetos podem ser vistos como uma extensão do seu próprio corpo. Mais importante do que procurar uma lógica racional na cenografia e no figurino de EmpowerBank, é compreender a sua plasticidade. Ou seja, a cenografia e o figurino deste espetáculo são trabalhados de forma plástica, relacionando formas, cores e texturas com o espaço cénico e os seus atuantes. Esta característica vem da influência que as artes visuais tiveram na história da performance e na sua metodologia, de que são exemplo artistas como Robert Morris, Robert Rauschenberg ou Yves Klein.

EmpowerBank é um objeto artístico que combina a dança e o teatro, a plasticidade das artes visuais e a energia do espaço performativo, a sonoplastia do som e a palavra dita. Apela à organicidade do espaço cénico e pode ser visto como um momento de reflexão. Ao jeito de Brecht, o espectador é convidado a posicionar-se face àquilo que está a acontecer, fazendo um juízo político ou moral da ação. Contudo, aqui o juízo não é sobre a sociedade, as suas classes, nem sobre a ideia abstrata de comunidade, mas sim sobre “nós” e o “eu” que habita esse “nós”. Esta peça critica o caminho que a sociedade contemporânea capitalista está a tomar, escarnecendo o tipo de individualidade fabricado pela mesma.

Rodrigo Fonseca (1995, Sintra). Estudou na Escola Artística António Arroio, é licenciado em História da Arte pela FCSH/UNL, e pós-Graduado em Artes Cénicas pela mesma faculdade. Viajou pela Europa central, pelos Balcãs, América do Sul, e viveu na Itália, Grécia, e Brasil. O seu trabalho artístico desenvolve-se na música e no corpo, entre a pele da planta do pé e a pele da superfície do chão. Organiza e programa o festival Dia Aberto às Artes (Mafra), e é membro fundador da associação cultural A3 - Apertum Ars. É um dos fundadores da CusCus Discus. Participou como músico no espetáculo CusCus World Musik Radio 196.7 FM, apresentado em Bruxelas (Festival Vivarium, 2019), Lisboa (Desterro, 2019) e Marselha (La Deviation, 2020). Participou como performer no espetáculo PARAANDAR, inserido no Festival Snow Black 2019 (Moita), e no evento A TROPA BELADONA (2019), na ADAO - Associação Desenvolvimento Artes e Ofícios (Barreiro) — produções d’A Bela Associação.

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