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Farci.e, de Sorour Darabi

Sorour Darabi é um/uma coreógrafo/a e bailarino/a iraniano/a radicado/a em França. Faz parte da associação underground ICCD, que organiza o festival Untimely, em Teerão, Irão. Numa entrevista ao jornal Le Monde, o/a artista utiliza o pronome “s.he” justificando que não se define como um/uma “artista trans”, mas sim “não binário/a”, procurando uma “fluidez no género”.  A performance Farci.e estreou em 2016 no festival Danse, em Montpellier, França. Está inserida na programação do Teatro do Bairro Alto através do Alkantara Festival, tendo sessão marcada para 21 de novembro no Lux Frágil.

Farci.e é um monólogo onde a palavra é praticamente inexistente. Aborda as questões da linguagem, do género, da identidade e da sexualidade. A palavra resume-se a uma saudação inicial – “bon soir” – e à despedida que põe fim à peça – “merci”. A designação “monólogo” aplica-se porque não se trata apenas de um solo, existe uma vontade e uma necessidade insubstituível de comunicação. O/A artista iraniano/a está semi-vestido/a, com as pernas despidas. O cenário resume-se a uma mesa, uma cadeira, duas garrafas de água e uma resma de papel. A cena está preparada como se fosse uma conferência. Ao longo da coreografia, temos a sensação de que irá começar a verbalizar um discurso, todavia essa verbalização nunca acontece. Esta sensação é também consequência do olhar fixo e penetrante que Darabi dedica quase exclusivamente ao público.

Devido ao corpo andrógino e em constante transformação de Darabi, o público confronta-se desde o primeiro momento com as questões do género e da sexualidade. O seu discurso materializa-se no corpo, e é através do movimento que o/a bailarino/a constrói a sua linguagem, a sua forma de comunicar. A coreografia é composta por micro-movimentos em cadência lenta, demorada e precisa. O jogo de pernas é evidente e pode ser visto como um dos centros do movimento de toda a ação. O movimento flui lentamente, quase sempre de baixo para cima. O/A bailarino/a iraniano/a explora também a relação do seu corpo com os objetos em cena, acabando por lhes retirar a função, comendo (quase) toda a resma de papel ensopada e interagindo com a mesa como se de uma mesa não se tratasse. A resma de papel vai-se ensopando ao longo da peça por conta da água que o/a coreógrafo/a vai cuspindo e derramando sobre a mesma. Ao fazê-lo, o/a artista poderá estar a levantar a questão da desconstrução. Utilizando estes objetos como exemplo, Darabi evidencia a possibilidade da desconstrução dos nossos próprios corpos, a possibilidade de nos reinventarmos constantemente.

Há uma pergunta silenciosa omnipresente ao longo da peça: O que pode significar o discurso sobre identidade e género, se este é articulado numa linguagem que atribui um género às próprias palavras? Em farsi, língua persa, não existe distinção entre ela e ele. Em francês, como em português, tudo é masculino ou feminino. A palavra que indica o género em persa – “jenssiat” – significa “matéria”. Quando é aplicada a objetos, designa a sua materialidade: o género da palavra mesa é madeira, por exemplo. Ao refletir sobre a lógica desta palavra, o/a artista iraniano/a diz que o seu género são os músculos, a pele, os ossos e as veias do seu corpo. Aceitando esta definição, qual é então o género da palavra “género”? Qual é a sua materialidade? Darabi acrescenta: “Como é que podemos pensar uma linguagem que dá género às ideias?” Para o/a coreógrafo/a, trata-se de violência e de um “ingurgitamento” das normas estabelecidas. A proposta desta performance vai precisamente na direção contrária: de pensar uma linguagem que anula o género do pensamento.

Farci.e é uma peça insolente que ataca formas autoritárias de manipulação. Está em cena um corpo não convencional, que pretende provocar e dar-se a conhecer. Através deste corpo que se quer dar a conhecer, o/a bailarino/a convida o espectador a refletir sobre a sua própria condição: Qual é o género do meu corpo? O meu corpo terá um género? Esta performance, acima de tudo, afirma a beleza da mudança permanente do gesto vivo, do corpo vivo.

Rodrigo Fonseca nasceu em 1995. Finalizou o curso de Realização Plástica do Espetáculo da Escola Artística António Arroio. Licenciado em História da Arte pela FCSH/UNL, e Pós-Graduado em Artes Cénicas pela mesma faculdade. Viajou pela Europa central e pelos Balcãs, viveu na Itália, Grécia, e Brasil. Músico e dj, membro fundador da editora musical CusCus Discus. Organiza o festival anual Dia Aberto às Artes, em Mafra, e é membro fundador da associação cultural A3 - Apertum Ars. Participou como músico no espetáculo CusCus World Musik Radio 196.7 FM, Bruxelas (Festival Vivarium, 2019), e Marselha (La Deviation, 2020). Participou como performer no espectáculo PARAANDAR, Festival Snow Black 2019, Moita, e no evento A TROPA BELADONA (2019), ADAO - Associação Desenvolvimento Artes e Ofícios, Barreiro — produções d’A Bela Associação. O seu trabalho artístico desenvolve-se dentro das artes performativas e cruza disciplinas das Ciências Sociais e Humanas.

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