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The Skull of The Haunted Snail, de Andreia Santana

(…) Isto porque faz parte do que são as propriedades do vidro. Digo, ainda que este seja crystal glass, não é por isso que se deixa ver de forma imediata. É necessário aproximar, rodear, ver daqui e ver dali; recuar um pouco e voltar a aproximar – Tentar perceber as cavidades. Notei também uma certa ginástica nos ferros. De contornos claros e limpos, com os seus ares de leveza e de garbos movimentos, parecem muito certos no que se propuseram (ou lhes foi proposto) fazer – Segurar ou talvez exibir, com uma adequada, e porventura bem-posta, graciosidade, essas tais peças de vidro cristal. A conjugação material é logo à partida motivo de contraste, ainda que se pressinta uma relação umbilical entre os dois. O ferro, de pouca espessura e cor negra, material já habitual no trabalho da Andreia, estende-se e articula-se, reivindicando-se como objeto de vários braços e, consequentemente, movimentos e posições. Já do vidro chega-nos pouco, peças à beira do informe, condensadas sobre si próprias, camufladas na sua própria transparência. O contraste prolonga-se ainda com a aparente fragilidade dos ferros em contraposição com o (, imagino,) peso das concentradas peças de vidro, uma vez que os primeiros suportam os segundos.

The Skull of The Hunted Snail é a mais recente exposição de Andreia Santana que conta com sete novas obras produzidas especificamente para este momento. Exposição esta que conta com a curadoria de Bruno Leitão, é possível ser visitada até ao dia 21 de novembro no Hangar, em Lisboa.

Soul Houses, título partilhado pelas sete obras, eram pequenos modelos de (supostas) casas feitos em barro, originais do Egipto Antigo. Segundo reza a história, estes eram colocados sobre sepulturas e acredita-se terem tido como objetivo o providenciar de um espaço onde o morto se pudesse, na próxima vida, acomodar e eternamente sustentar. O que a Andreia de alguma forma procurou foi um reativar destes Soul Houses (agora em vidro) sem necessariamente envergar nos termos da sua, agora histórica, finalidade. A ideia foi antes a de, ao pegar num objeto-escultura com um valor histórico, tentar empiricamente compreender a fronteira entre os sentidos e significados que pelo Homem lhe são atribuídos e o objeto em si, na sua mais natural condição de coisa permeável. Pode um objeto funcionalmente obsoleto em algum momento transpor os limites dessa mesma classificação para daí se tornar numa outra coisa? Sinto haver a vontade de alcançar (e exigir) uma determinada transparência que permita ver as possibilidades de uma coisa em ter múltiplas faces. Em oposição ao constante etiquetar, sempre no encalço da exatidão, e que acaba por delimitar o mundo ao redor e as suas potencialidades, correndo o risco de nos perdermos num constante tropeçar em conclusões limitativas. Parece que, tanto com o movimento implícito nas peças, como com a ideia em torno das soul houses, Andreia quer trazer à tona a circunstância. – Como tudo depende de demasiados fatores para se poder, de forma absoluta, concluir qualquer coisa sobre o quer que seja; e entendo que com isto haja uma determinação em ressalvar a performatividade inerente às coisas, as suas infindáveis formas. Ficando a questão de que, se de resto, não será tudo somente problemas de leitura.

Em The Skull of The Hunted Snail, podemos conferir esta mobilidade, esta ideia de uma permanente dança – temos este artefacto, estas casas de alma, coisa antiga! Que se supõe ter tido há milhares de anos um uso. Estuda-se essa coisa, colocamo-la em vitrines e espera-se que lá fique assume-se que lá fique! Imutável por detrás da vitrine, ahh, que preciosidade! E foi neste momento que a Andreia decidiu intervir, onde, além de ter dado a tal artefacto (e à ideia deste) um novo corpo (agora transparente) de contornos macios, deu, sobretudo, uma nova dimensão a algo que há milhares de anos tem sido uma só coisa.

Rui Gueifão (Almada, 1993), vive e trabalha em Lisboa. Licenciado em Artes Plásticas na ESAD.CR e mestrando em Filosofia-Estética na FCSH – Universidade Nova de Lisboa. Já colaborou com diferentes instituições e espaços dedicados à arte contemporânea, como o Museu Fundação Coleção Berardo, Caroline Pàges Gallery e Galeria Baginski. Tem vindo, desde 2018, a produzir diferentes tipos de textos, já tendo contribuído para publicações e textos de exposições. Desenvolve e expõe o seu trabalho artístico desde 2015.

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