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Speculative Intimacy, de Alicia Kopf

Speculative Intimacy, como denuncia o título, é uma exposição de conjeturas. Uma investigação de escopo alargado que, através de um conjunto de diferentes materiais e linguagens, nos conduz por entre vídeos e instalações, com referências populares, experiências partilhadas e trocas de emails de índole científicas-quase-científicas. O objetivo é o de criar um discurso ampliado em torno de uma questão vital – que neste caso gira em torno da atração dos corpos (tanto celestes como dos mais mundanos), as suas órbitas e o resultado dos seus encontros, numa ficcionada (ou não) busca por novas galáxias afetivas.

– atração e conquista, espaço pessoal e espaço partilhado – velocidades.

O seu interesse não se resume à quântica ou astrofísica per se, mas sim (e talvez fundamentalmente) nas suas potenciais metáforas. – Seja para procurar entender o porquê da atração e desejo, seja na proposta/simulação de (adensadas) interações e relações entre o Homem e a tecnologia, a artista parece servir-se (aqui) da cosmologia para pelo universo da intimidade deambular.

– as paredes foram pintadas de lilás.

Alicia Kopf, ou Imma Ávalos (ainda que uma seja o nome artístico da outra, estas coexistem) é uma artista nascida em Girona, Espanha. Apesar de ter feito a sua primeira publicação (independente) em 2011, foi em 2016 que chamou à atenção do circuito artístico internacional com o seu livro Brother in Ice. Tanto a sua primeira publicação, Ways of (not) coming home, como o livro Brother in Ice partilham da mesma configuração: há antes de tudo um marco conceptual, uma ideia ou noção que à Alicia interessa genuinamente explorar, de ambas as vezes por razões bastante práticas e experimentadas; delineando uma direção inicial, os projetos (impossíveis de categoricamente resumir a “livros”) tanto podem começar com uma série de fotografias como com um compêndio de excertos tanto próprios como de terceiros. Não interessa muito a forma como os projetos se iniciam. Não na medida da velocidade com que as disciplinas se fundem – e o que supostamente ia ser (e é!) um livro acaba por conter em si diagramas, mensagens de WhatsApp, desenhos, fotografias, etc.

– na primeira sala há, salvo um vídeo onde vemos gestos associados a apps serem reproduzidos em faces de diferentes jovens, duas áreas formadas por azulejos. Os azulejos têm coisas escritas e desenhadas à mão.

Em conversa com a Alicia pude perceber que as obras são resultado de uma contínua investigação que reúne diferentes referências visuais e literárias que vão sendo recolhidas de diferentes disciplinas e contextos. – Termina uma série; é reunida nova informação – há algo que não foi inteiramente mastigado ou que precisa de ser novamente digerido e logo se dá um salto para um próximo momento – dá-lhe uma nova carcaça; um novo nome; coloca-o num outro contexto, próximo de outras obras, dentro de um novo (ou não) [renovado (ou não)] ideário. Sempre com consciência da suscetibilidade que é tão própria das coisas.

– do universo Alicia traz-nos ideias de magnetismo, repetição, armadilha; incerteza, sedução, desejo; projeção, intimidade, intrusão e carinho. Entre outras.

A somar aos interesses e referências histórico-metafóricas da física e quântica, Alicia explora (figurativamente ou não) o crescente e imponente relacionamento e dependência do Homem para com a tecnologia. Na última das três salas que constituem a exposição podemos ver um vídeo onde Alicia, a partir de um argumento cocriado com um chatterbot, propõe, em tom de prognóstico, o retrato de uma relação despótica e abusiva entre uma mulher e um drone.

– corpo com corpo, humano ou não.

Seja de foro cósmico ou tecnológico, o que Alicia procura, com este constante entrelaçar entre questões iminentemente pessoais e questões universais, mais do que o declarar de uma nova existência dentro de uma determinada tese ou proposição, é uma forma refrescante de habitar um tema que para ela se manifesta momentaneamente vital, onde sente a necessidade de se aventurar.

Speculative Intimacy é (será) o terceiro livro de Alicia Kopf. Assim como os dois anteriores, este tem vindo a ser escrito, de exposição para exposição, até que chegue o momento em que a artista se sinta de algum modo saciada. Até lá, vai tirando os seus apontamentos – reúne matéria, funde mundos e adultera outros.

Speculative Intimacy, que conta com a curadoria de Bruno Marchand, pode ser vista até 20 de novembro de 2020 na Fidelidade Arte, Lisboa.

Rui Gueifão (Almada, 1993), vive e trabalha em Lisboa. Licenciado em Artes Plásticas na ESAD.CR e mestrando em Filosofia-Estética na FCSH – Universidade Nova de Lisboa. Já colaborou com diferentes instituições e espaços dedicados à arte contemporânea, como o Museu Fundação Coleção Berardo, Caroline Pàges Gallery e Galeria Baginski. Tem vindo, desde 2018, a produzir diferentes tipos de textos, já tendo contribuído para publicações e textos de exposições. Desenvolve e expõe o seu trabalho artístico desde 2015.

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