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Dissonâncias – no Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado

85 obras de 45 artistas encontram-se expostas no MNAC, e são reveladoras do muito que, por iniciativa própria civil, se tem doado ao museu, num período compreendido, sensivelmente, de uma década.

A exposição Dissonâncias, com curadoria de Adelaide Ginga e Emília Tavares, compreende obras doadas por artistas, herdeiros, colecionadores e mecenas. Obras estas situadas no período compreendido entre o século XIX e o início do século XXI. Pretende, também, constituir uma homenagem a todos os que decidiram doar as suas peças.

A aparente rutura semântica das obras expostas põe a nu a emergência de linguagens artísticas que nem sempre puderam ver a luz do dia, ou que estiveram ocultas na reserva do museu durante muito tempo. Essa desagregação, e como não há uma exposição sem o seu encadeamento e a sua sequência, conduz a um olhar e a uma leitura das obras, potencialmente nova e disruptiva, que é impactante. A exposição faz justiça ao nome escolhido: dissonâncias.

Nas grandes vanguardas do século XX, como o futurismo, o dadaísmo, entediava o que era previsível, expectável. Ora esta exposição parece abrir portas para novas linguagens, ou relembrar que não se trilham caminhos novos com base em linguagens já conhecidas. Mesmo que se trate de uma reunião de obras única e exclusivamente baseada no ecletismo da coleção, a mesma conduz a uma reconfiguração dos princípios estéticos e, pela diversidade que ostenta, amplia, como diz a diretora do Museu do Chiado, “de modo muito significativo a capacidade do museu de criar novos discursos expositivos.”

O Museu Nacional de Arte Contemporânea quer-se vivo e procura, por isso, no domínio expositivo, apresentar núcleos da coleção, num regime de rotatividade, e com base na premissa de promover novos modos de mostrar a coleção do museu.

A exposição Dissonâncias apresenta-se, ao visitante, como aparentando um diamante em bruto, mas a um olhar mais atento problematiza, e desperta a reflexão, sobre a atividade complexa do curador no espaço expositivo. Convida ao questionamento: O que mostrar, como mostrar? Que peças se devem colocar próximas de outras? Que intervalos poderão ser introduzidos entre obras, e que obras poderão ser afetadas pela presença de outras? A previsibilidade das escolhas potência a imaginação? Ou pelo contrário distancia-nos da obra? Poderemos, através de certas escolhas, produzir um olhar novo sobre as obras? Estas e outras questões são desencadeadas pela forma honesta como as obras surgem posicionadas, lado a lado, ao longo da exposição.

Não se pretende, talvez, dar origem a um discurso consensual sobre os elementos integrantes da exposição, mas evidenciar, ou potenciar, novas linguagens e novos caminhos curatoriais. Em causa são as obras que, pela diversidade, não poderiam ser integradas num único discurso artístico, porque se tratam de doações, mas sim em vários, porque não poderia ser doutra maneira, face à heterogeneidade manifestada pelas peças expostas, e a distância temporal em que se inscreve cada uma delas. O visitante vê-se assim incumbido de fazer, ele próprio, como numa obra aberta, as conexões entre as obras, e as possíveis narrativas do espaço expositivo. Tal como uma obra deixa espaço de manobra para várias leituras possíveis, a experiência curatorial cumpre o seu papel quando provoca, no visitante, a reação de estranheza ou surpresa face ao que é exposto.

A exposição Dissonâncias apresenta obras de Ana Pérez-Quiroga, Ana Vidigal, André Cepeda, António Barros, António Olaio, Arnaldo Fonseca, Artur do Cruzeiro Seixas, Augusto Alves da Silva, Carlos Noronha Feio, Columbano Bordalo Pinheiro, Cristina Ataíde, Ernesto de Sousa, Gérard Castello-Lopes, Hein Semke, Henrique Vieira Ribeiro, Hugo Canoilas, Inês Norton, João Cristino da Silva, João Francisco Camacho, João Moniz Pereira, João Pedro Vale, Jorge Barradas, Jorge Molder, Jorge Oliveira, Jorge Pinheiro, Jorge Silva Araújo, José Augusto, José Luís Neto, José Maçãs de Carvalho, José Pedro Cortes, Júlia Ventura, Manuel Botelho, Márcio Vilela, Marco Godinho, Maria Barreira, Maria Gabriel, Mário Cesariny, Miguel Soares, Mónica de Miranda, Nuno Calvet, Nuno San Payo, Paulo Catrica, Pedro Portugal, René Bértholo, Rodrigo Oliveira, Rolando Sá Nogueira, Sara e André, e Vítor Pires Vieira.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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