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Linha Funda, de Nuno Sousa Vieira

A morte dos deuses começa com o nascimento das ciências enquanto disciplinas fundadoras, factuais e fundamentais do ser.

Enquanto isso, a morte do pensamento mágico bifurcava nessa morte dos deuses e numa colagem ao pensamento poético e fenomenológico – aqui já não um produto obscuro do que se experiencia, mas um exercício hermenêutico da experiência, uma síntese espantosa da realidade, que traduz imaculadamente o facto.

Mas é nesse momento de colisão, nesse prenúncio sangrento entre deuses e factos, que o pensamento mágico se torna omnipresente em ambos os lados da barricada: tanto era mágico o deus antigo que se velava e desvelava idiossincraticamente, como era mágico o pensamento iluminado, capaz de desocultar as estruturas e infraestruturas que animam e fundam o mundo. No dealbar das ciências e das tecnologias, não só eram mágicas as criaturas celestes que povoavam os céus noturnos, como eram também mágicas as representações dos mapas estelares e astrofísicos para fins científicos.

Isto é particularmente notório com a invenção da fotografia ou dos dispositivos de captação da realidade como os daguerreótipos, as lanternas mágicas, a heliotipia ou calotipia (dispositivos de captação de imagens; os primórdios da fotografia), e que Tiphaigne de la Roche tão bem condensou, entre o pensamento mágico – o novo, o poético – e o pensamento científico físico-químico, em Giphantie, “A Tempestade”. Nesta obra, a fotografia era uma janela alucinatória da realidade, uma pintura ou um desenho tão real que parecia impossível. Não é em vão que Massimo Tortelli, no final de século XIX assemelhava a fotografia a um “lápis mágico” que desenha e traduz as imagens do quotidiano.

Em Linha Funda, Nuno Sousa Vieira introduz estas tensões entre o pensamento poético e o pensamento científico, mas a profusão de obras e a dimensão quase enciclopédica que encerram possibilitam outras vias de meditação – sobretudo no que toca ao descolamento de duas vias de reflexão dos astros e do mapa celeste, que separa a astrologia e a astronomia. Sousa Vieira abre aqui, portanto, as portas para a contemporização e a reativação de um discurso do século XVIII/XIX sob a luz da arte, que resgata a magia da ciência e a ciência da magia – isto é, da poética. Numa alusão à expressão de Tortelli, o desenho de Sousa Vieira é a reinterpretação de um “lápis mágico” pensante, que recorre aos primórdios da tecnologia de “fixação das imagens fugidias” para refletir sobre o cosmos, o sujeito, arte e a perceção da mesma.

Instrumental para a compreensão desta exposição é a peça Atlas Der Bonner Durchmusterung, uma pequena caixa com slides de vidro para lanterna mágica, que fazem a medição e o levantamento dos céus, das estrelas e das nebulosas. O pensamento científico, redutor e essencialista, esconde muitas vezes as dimensões metafísicas, românticas, poéticas e subjetivas deste pequeno objeto portátil, que comporta toda uma medida do cosmos, mas também da história da ciência. Cabe ao artista fazer renascer nas suas obras o contexto de uma época em que as mentes vibravam febrilmente entre a poesia e a ciência. Relembra-se a escrita atmosférica e arrebatada de Mary Shelley em Frankenstein – uma alegoria que se servia do dealbar das ciências para refletir sobre a mística e a magia do mito prometeico.

Na separação da astrologia e da astronomia cava-se uma linha funda, simultânea à linha que afasta o antropocentrismo do heliocentrismo, simultânea à linha que demarca as narrativas cosmogónicas da construção factual e cosmológica. Ambas, contudo, têm uma implicação humana e individual, no sentido que existem para explicar a vida do homem na terra e é isso que Linha Funda argumenta, principalmente quando o acidente compromete a compreensão do facto, quando a incerteza, a incompreensão e a dúvida assaltam a ciência e oferecem ao indivíduo uma explicação substituta.

Na promenade que Sousa Vieira concebe com a reativação dos slides de vidro percebemos toda esta confluência de visões sob a ação da grafite. A fixação das esquadrias e as malhas de latitudes e longitudes impressas nos slides são vertidas para o papel através do desenho e da grafite, que, na sua escuridão argêntea, refletem o observador. O sujeito revê-se sob o brilho da grafite e através da informação científica que serve de medição e mapeamento do céu estrelado. O nosso reflexo compõe-se como uma imagem larval, que perscruta as constelações e as nebulosas representadas, e completa a informação perdida pelo tempo e pelo acaso.

É esta mediação do corpo e do sujeito, entre os conceitos em análise e as imagens e os objetos construídos e desenhados, que acompanha toda a exposição. São reveladores os objetos pessoais que o artista acrescenta à exposição – a exposição é um exercício tautológico sobre a atividade e a vida do seu autor, densa de camadas que se põem, sobrepõem e justapõem, análoga à formação de uma consciência, de uma cultura e de uma individuação. Mas esta é também uma meditação sobre o olhar, sobre a contemplação, ou como a própria construção das imagens se faz em várias camadas, em vários tempos.

A circularidade da exposição, que termina com indivíduos a olhar o céu e (re)começa com outros a olhar também o céu, é uma linha helicoidal bidirecional, um caminho em espiral que nos permite diversas profundidades de questionamento. A cada profundidade, a cada nível, corresponde um novo entendimento sobre a mesma.

Neste contexto, percebemos que as obras dispostas no acervo da Fundação Carmona e Costa é uma reconfiguração da caixa de slides que serve de ponto de partida a Linha Funda; que o filtro laranja dos vidros que protegem alguns desenhos são manifestações de uma temperatura celeste; que, de tão atarefado, a última vez que voltei a olhar o céu – que coisa banal, que coisa ridícula – foi nesta exposição; que este é um projeto complexo, denso, porque nele está plasmada a dimensão métrica e espiritual do homem e do universo; que o esforço físico está impresso em cada uma das várias obras, risco sobre risco, traço sobre traço, linha sobre linha, grafite sobre grafite, e que o desenho tem uma corporalidade que vai muito para além duma mão ágil; que a arte tem o condão mágico de revelar o que a ciência esconde por processos.

Linha Funda, de Nuno Sousa Vieira, com a curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues, está patente na Fundação Carmona e Costa até 12 de dezembro. O catálogo editado pela Documenta é uma extensão da exposição e um guia para o processo conceptual do artista e do curador.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, arquitetura…

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