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Protótipos: Mecanismos de Ensaio – Miguel Palma na Zet Gallery

Protótipos: Mecanismos de Ensaio de Miguel Palma, na Zet Gallery (Braga), até 28 de novembro de 2020, apresenta trabalhos realizados de 2007 a 2019 e um conjunto de desenhos e esculturas inéditos. A exposição individual surge de um projeto antigo com José Teixeira, do dstgroup e fundador da galeria, que consistia na criação de uma obra para o espaço público, agora materializada numa avioneta de escala monumental – Zénite – , representando a utopia e a harmonia entre arte, natureza e tecnologia.

Ao longo dos últimos meses, a ONU voltou a anunciar que tem havido um declínio do número de espécies do planeta, que a maioria dos recifes de coral estão ameaçados, que este foi o setembro mais quente de que há registo e que as primeiras décadas deste século ficam marcadas pelo aumento de desastres naturais. Por outro lado, as nações mais ricas, continuam a não reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Segundo a CNN, alguns dos países produtores de combustíveis fósseis, face à crise causada pela atual pandemia, estão a injetar dinheiro público em indústrias poluentes. O The Guardian anuncia que a resposta das grandes petrolíferas ao derretimento do Ártico é resfriar o solo para continuarem a perfurar. E o The New York Times reitera, que à medida que o coronavírus se foi propagando, os industriais do petróleo pressionaram os governos para que certas leis ambientais fossem revertidas.

Protótipos: Mecanismos de Ensaio permite questionar estas problemáticas, como a preponderância da tecnologia na vida do ser humano, a forma como exploramos e consumimos os recursos energéticos, a nossa relação com o meio ambiente e a modernidade. Em Air Print (2012), Miguel Palma, apesar de retomar a tradição da abstração de Malevich, Ad Reinhardt, ou Mondrian, confronta a realidade, pois o negro que vemos é a poluição de uma cidade (Liverpool) a que este conjunto de painéis em feltro estiveram expostos durante um mês. Uma evidência física sobre o ar poluído que respiramos. Do mesmo modo, em Oilofon (2015), o artista achatou uma série de latas de óleo de motor de carro e suspendeu-as numa parede branca, com dripping de tinta vermelha, movendo-as no sentido de uma ventoinha, relembrando-nos as potencialidades malignas destas substâncias, mas também o seu poder regenerador. Por último, a mais recente série de desenhos Suspensão (2020) realça como o progresso, a indústria e a tecnologia, os ideais da modernidade, levaram o ser humano a explorar intensivamente os recursos energéticos do planeta.

Miguel Palma, um dos artistas de maior relevo da arte contemporânea portuguesa, constrói engenhos, mecanismos, ou modelos de experimentação, utilizando saberes provenientes da engenharia, da arquitetura, ou da arqueologia, apropriando e reconvertendo símbolos da modernidade e da eficácia, como o automóvel, o avião, ou o barco, e objetos mundanos e obsoletos, retirando-lhes a sua função inicial, para lhes dar uma nova dimensão – veja-se Ocidente (2009), Origens (2019), ou Tempest in a Teapot (2015). De acordo com a comissária de Protótipos, Helena Mendes Pereira: “O seu trabalho não vem de parte nenhuma que não seja o lugar elaborado da imaginação e das inquietações da mente e da mão, inventoras de engenhos poéticos e imemoriais. É um complexo de coisas que convocam saberes diferentes, indagam o espaço e o invadem numa relação dual entre caos e ordem”.

No centro da exposição encontramos Coração (2020), o motor do avião, que deu forma a Zénite, onde Palma reconverteu o instrumento que um dia fez mover o aparelho de navegação aérea, a algo semelhante a um órgão, centro do nosso sistema de circulação, mais próximo de uma organicidade, do que de uma máquina. Miguel von Hafe Pérez, curador da anterior exposição do artista no CCB, Miguel Palma: (Ainda) O Desconforto Moderno (2019/2020), sustenta: “Enquanto dispositivos potenciadores de um olhar crítico sobre o nosso passado recente e o nosso presente, os enunciados de Miguel Palma confrontam-nos com as tensões vividas no frágil equilíbrio da nossa existência. Tal como liminarmente nos diz o artista: “Se o mundo fosse confortável, eu não fazia arte”.

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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