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XXI Bienal Internacional de Arte de Cerveira

Os 42 anos da Bienal Internacional de Arte de Cerveira, com o tema Diversidade-Investigação. O Complexo Espaço da Comunicação pela Arte, tem como objetivo questionar a cultura, tendo em vista o conhecimento, enquanto apanágio para uma melhor qualidade de vida. O evento prossegue o mesmo modelo desde 1978, integrando várias atividades, promovendo a participação de vários públicos e demonstrando uma grande pluralidade de práticas artísticas.

António Reis em Poemas Quotidianos (1967): “Hei-de entrar nas casas/ também/ Como o silêncio”. A XXI Bienal abre as suas portas, atribuindo prémios a obras realizadas por um conjunto de artistas, que permite efetivamente refletir sobre a nossa cultura e contemporaneidade. Salientamos A fala das cabras e dos pastores (2018–19) de Alexandre Delmar (Porto, 1982), um vídeo, onde através de uma montagem ritmada, vemos e ouvimos pastores a chamarem o seu rebanho, criando música e relembrando a primeira cena do filme seminal de António Reis e Margarida Cordeiro Trás-os-Montes (1976). Nelson Miranda (Portugal, 1979) apresenta Fundação Lar do Emigrante Português no Mundo (2019) um projeto de investigação sobre as ruínas da sede da instituição que dá nome à obra, construída por um emigrante venezuelano nos anos 1980, no norte do país. Nas fotografias vemos que o local está atualmente abandonado e contêm vestígios da ocupação de grupos neonazis, permitindo o pensamento sobre a emigração, os espaços abandonados e as teorias político-sociais extremas. Por último, Rafael Ibarra (Braga, Portugal) expõe Estranho país (2020) um tríptico de fotografias, reveladoras de um ponto de vista melancólico, bucólico e poético, acentuado pelo poema visual que as completa.

O projeto expositivo da Bienal, que salientamos, De casa para um mundo… é uma ideia de Sobral Centeno e de Manuel de Novaes Cabral, com curadoria de Fátima Lambert e Paula Freire, responsável pela área da música. A exposição coletiva reúne 30 obras produzidas durante a quarentena, por 15 artistas visuais, 15 escritores e 15 compositores contemporâneos, num diálogo à distância, mas em comunhão, através das suas práticas artísticas. Ressalvamos ainda o contributo de 5 designers, na produção de imagens, que divulgam o projeto e refletem sobre o design, enquanto criação artística.

Gonçalo M. Tavares em Atlas do Corpo e da Imaginação: Teoria, Fragmentos e Imagens (2013) desenvolve o conceito de “o corpo que faz Casa”, segundo as palavras de Gaston Bachelard: “A casa adquire as energias físicas e morais de um corpo humano”. Justamente, Tavares evidencia que uma casa faz-se por quem a habita e que é algo mais do que formas geométricas, pois torna-se corpo, “carne e calor”. São os nossos cheiros, gestos e movimentos, os nossos desejos, afetos e defesas, como a concha do caracol, “imagem da fusão entre construtor e construção, entre anatomia e ação”. Na exposição, com obras realizadas a partir da proteção da casa em plena pandemia, Isaque Pinheiro, com Aberto de Segunda a Sábado, uma cortina de latão e aço zincado, juntamente com as palavras de Maria do Rosário Pedreira [Num eterno domingo/ chora a beleza sentada à janela…] e música de Carlos Marecos, evidenciam a nostalgia de uma casa, vivenciada pelos dias de descanso e as construções provisórias que ainda se encontram pelo nosso país. Por outro lado, Susana Piteira, mostra um desenho a grafite, onde sobressai o vermelho e as palavras de Rosa Alice Branco, com a composição musical de Francisco Monteiro, revelando a casa, enquanto coração, o que pulsa e irriga o sangue pelo nosso corpo. Num outro ponto de vista, Pedro Tudela apresenta Cousa (2020), com texto de Hugo Mezena escrito com grafite sobre placa de madeira e música de Isabel Pires, demonstrando o lado performativo da palavra, do desenho, da imagem e da casa que se transforma efetivamente corpo.

A XXI Bienal Internacional de Arte de Cerveira poderá ser visitada até 31 de dezembro de 2020, sendo que este ano, também está acessível online.

Annie Martins (Porto, 1990) cofundadora do Coletivo de curadoria Hera, é mestranda em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP. Igualmente foi investigadora do Projeto CHIC apoiando na integração de Filmes de Artista no Plano Nacional de Cinema e no Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses. Licenciada em Cinema pela ESTC do IPL (2007-2010) e em Gestão do Património pela ESE do IPP (2013-2017) colabora como Diretora de Arte em ficções e programas de televisão, assim como começou a escrever para a revista Umbigo.

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