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O que não temos podemos criar na PADA Studios, Barreiro

“O que o país não tem, a CUF cria” afirmou o industrialista Alfredo da Silva a propósito da produção da Companhia União Fabril (CUF) instalada no Parque da Baía do Tejo, no Barreiro. Cento e treze anos após a sua fundação, a PADA Studios procura retomar e dar continuidade a esta energia que transformou o Barreiro no século XX, convidando artistas a criar para as antigas instalações fabris.

Os espaços despidos, em bruto, toscos e inacabados, sem que nenhuma superfície tivesse sido regularizada ou pintada, constituem um verdadeiro laboratório de experimentação que pela sua escala e amplitude permite um vasto leque de aproximações e apropriações que não é possível em muitos espaços de exposição convencionais. Tais potencialidades fazem da PADA Studios um lugar inesperado de aprendizagem, experimentação e vida que junta artistas nacionais e internacionais.

A exposição O Que Não Temos Podemos Criar reúne dez artistas. Diogo da Cruz, Emma Hornsby, Erris Huigens, Jéssica Burrinha, João Ferro Martins, Luísa Jacinto, Paulo Arraiano, Sean Donovan, Timothy Yannick Hunter e In Limen, propõem diferentes abordagens para o lugar da antiga fábrica de tintas TINCO, tendo em conta o seu passado, presente e possibilidade de futuro.

Tanto Diogo da Cruz (1992, Lisboa) como Jéssica Burrinha (1993, Barreiro) têm familiares que foram antigos trabalhadores da CUF pelo que a sua relação com este lugar ganha outro sentido. O primeiro apresenta-nos um cenário de futuro distópico para esta área sob a forma de uma intervenção escultórica. Futuro mais-que-perfeito convoca a construção da maquete original do parque industrial projetando-a num futuro assente nas opiniões acerca do desenvolvimento da região e o património histórico do Barreiro.

Noutra perspetiva, Jéssica Burrinha ambiciona um caminho mais ecológico que contraria a poluição a que a fábrica sujeitou aquela zona durante o seu funcionamento. A artista dispõe no chão diversos quadrados de terra compactada, cuja origem é a mesma de muitos dos antigos trabalhadores, o Alentejo. Na sua superfície aparecem registadas as suas pegadas que nos orientam para um caminho de fuga que constitui uma saída de emergência obrigatória.

Existe um imaginário marcado por um ritmo de repetição, ruído e exaustão associado à vida nas fábricas e ao trabalho diário que aí é exigido. Imaginário esse tão bem retratado nos filmes Metropolis de Fritz Lang ou Modern Times de Charlie Chaplin. João Ferro Martins (1979, Portugal) e Sean Donovan (1987, Chicago, Illinois) convocam os sons que outrora ocuparam estes espaços e que tão bem recriam uma ideia de fábrica.

Os pratos de Jorna Címbalos de João Ferro Martins ecoam “enquanto houver sol” já que o funcionamento do motor que aciona uma ponta em plástico que embate em cada um dos quatro címbalos está dependente da energia solar. O som repetido emitido pelo conjunto durante um dia completo, refere-se ao esforço necessário para adquirir uma jorna ou o pagamento de um dia de trabalho.

Já Sean Donovan, reúne sons da envolvente fabril que são capturados através de um microfone cardióide e refletidos numa parede curva executada a partir de painéis de fibra de vidro encontrados no local. Posteriormente esses sons são devolvidos ao espaço através de um amplificador que os exagera e distorce, desorientando quem os ouve. Leftovers evoca o ritmo dos sons que assinalam os gestos repetitivos das tarefas que cada trabalhador estava incumbido de executar e o perturbador ruído a que estavam sujeitos todos os dias.

Por outro lado, Emma Hornsby (1986, Newcastle Upon Tyne, Reino Unido) reflete acerca da transformação da paisagem pelo homem baseando-se no modo como a atividade humana moldou e transformou o Barreiro, lugar que, nas suas palavras, se encontra “suspenso entre a obsolescência e o “renascimento””. A tentativa de conter a água num círculo perfeito metaforiza o jogo entre a ambição do homem e a resistência da terra. A superfície do buraco negro reflete e replica o espaço da antiga fábrica duplicando a sua escala e intimidando com o seu vazio que nos ilude como sendo um poço sem fundo.

Uma intervenção direta sobre a arquitetura do espaço é a de Erris Huigens (1978, Holanda). O mural Geen Titel (wall drawing) foi pintado à distância através das mãos de Tim Ralston, artista fundador da PADA Studios. A pintura convoca o património industrial da CUF que lhe é suporte, os polígonos desconstruídos sugerem dualidades como construção e desconstrução, luz e sombra, equilíbrio e desequilíbrio.

Ao contrário de Erris Huigens, Luísa Jacinto (1984, Lisboa) apresenta-nos pinturas sobre véus disposta no espaço de uma sala de treino de tiro. A delicadeza e leveza da instalação Campo de Batalha contrasta com o espaço em e com a violência da atividade que é aí praticada. O seu posicionamento, transparência e movimento gerado pela passagem dos espectadores sugerem um percurso que suscita incerteza e desorientação. A totalidade das peças origina uma única pintura “atravessável”.

Um novo paradigma físico e até espiritual é proposto por Paulo Arraiano (1977, Portugal). Pro-Sthesis conduz a uma reflexão acerca dos limites entre o natural e o artificial e da aproximação destas duas realidades proporcionada por uma evolução tecnológica e pelo desenvolvimento de conceitos como Inteligência Artificial ou Inteligência Aumentada. Um vulcão que recria a sua atividade através de uma prótese digital, neste caso um tablet, encontra-se inserido num meio natural composto no espaço da antiga fábrica sugerindo a possibilidade de existência de novas espécies híbridas ou máquinas assentes numa base biológica.

Para além da reflexão trazida por Paulo Arraiano, o vídeo de Timothy Yannick Hunter (1990, Toronto, Canada) incide sobre outras questões também elas da máxima relevância nos dias de hoje. Conjugando o colonialismo português, nomeadamente a ocupação do território de Moçambique, e os episódios recentes associados ao movimento Black Lives Matter, Acts of Persistence aborda temas como o racismo e a discriminação que apesar de reportarem a um passado colonialista ainda hoje se verificam.

Por último, complementando o conjunto dos trabalhos expostos, para a inauguração da exposição a organização cultural IN Limen concebeu uma edição original da performance da série This is not a Magritte performance. Desenvolvida em dois atos, no primeiro os espectadores foram convidados a, de olhos vendados, escutarem vozes que ecoam no espaço. As performers Mariana Camacho e Sara Rodrigues percorreram-no a vários ritmos emitindo sons que se repetiam, diferenciavam e/ou alternavam. Um ping-pong de vozes em que uma dá lugar à outra, que dá lugar à outra e assim sucessivamente. Em determinado momento reconheceram-se os nomes das inúmeras empresas que constituíram o conglomerado da CUF. Alternadamente ouvia-se a respiração e o silêncio.

Após a experiência imersiva, no segundo ato, os espectadores foram levados a estabelecer um diálogo colocando uns aos outros questões que lhes foram entregues num envelope fechado no início da performance. Questões relacionadas com o orgulho, a escravidão e o sofrimento proporcionados pelo trabalho ou mesmo com uma ilusão de liberdade que lhe está associada.

O que não temos podemos criar é uma exposição onde a arte anda de mãos dadas com a história abarcando uma perspetiva de futuro. Os trabalhos apresentados perpetuam a memória da antiga fábrica e o árduo dia-a-dia dos seus trabalhadores ao mesmo tempo que refletem questões atuais como as alterações climáticas, a evolução tecnológica, a discriminação ou as desigualdades sociais. Uma exposição a não perder até 31 de outubro na PADA Studios, no parque industrial baía do Tejo no Barreiro, data em que será lançada uma publicação acerca da mesma.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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