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Power Structures (Crouch-touch-pause-engage)

A exposição Power Structures (Crouch-touch-pause-engage) de Ângela Ferreira estará até 17 de outubro na Cristina Guerra, em Lisboa. Trata-se de uma série de desenhos, duas esculturas em grande escala e um vídeo. O projeto da artista é exposto no texto de sala: “relaciona-se livremente com um desporto mostrando não só o seu potencial artístico, mas igualmente a forma como nele está inscrita uma complexidade histórica.” A cada peça que fui sendo exposta na galeria, compreendi que o desporto em questão é o rugby e o contexto histórico, o apartheid, na África do Sul.

Para além do contexto histórico e político convocado nessa exposição, o corpo é colocado em lugar de destaque. As duas esculturas preenchem boa parte das duas primeiras salas, e pela grande dimensão de ambas, fui obrigatoriamente levada a percebê-las com o meu corpo e a minha presença no espaço. A reflexão de Robert Morris em Notes on Sculpture sobre a experiência estética relacionada a obras tridimensionais, me veio em mente. No seu ensaio, o artista minimalista expõe o seu ponto de vista em relação às condições que produzem diferentes respostas à um objeto artístico. A escala é uma dessas condições: “Na perceção do tamanho relativo, o corpo humano entra no continuum total dos tamanhos e se estabiliza como uma constante nessa escala. Sabe-se imediatamente o que é menor e o que é maior do que ele. A qualidade da intimidade está ligada a um objeto em uma proporção bastante direta à medida que seu tamanho diminui em relação a si mesmo. A qualidade pública [publicness, em inglês] é atribuída à medida que o tamanho aumenta em relação a si mesmo.” As esculturas da Ângela possuem a qualidade “pública” à que Morris se refere. É necessário um grande espaço entre o espectador e as obras, e essa distância demanda uma participação física e cinestésica, criando uma qualidade reflexiva – de consciência de si mesmo existindo no mesmo espaço que a obra, observando-a de diferentes ângulos e contextos espaciais.

A participação do meu corpo se intensifica quando os desenhos e fotos expostos ao lado das esculturas revelam que as estruturas são réplicas de equipamentos de treino do rugby, achadas ao acaso pela artista em um centro de referência do desporto na África do Sul. A realização de que essas estruturas eram utilizadas para criarem corpos de excelência a partir do esforço físico, produz uma mudança na relação de distanciamento que anteriormente me encontrava, agora é inevitável que no meu imaginário se criem possíveis formas de interação e performatividade entre o meu corpo e as estruturas, que pelo caráter formal e material (ferro policromado) são de certa forma, intimidadoras. Em direção oposta ao pensamento de Morris, cria-se, apesar da escala das esculturas, uma intimidade entre o observador e a obra.

Os desenhos expostos nas três diferentes salas da exposição, expõem a mecânica por detrás dos equipamentos. Detalhes do funcionamento e design de cada objeto são revelados e se opõem ao carácter escultórico e de valor estético que agora se encontram em exposição. Colocados lado a lado às fotos dos jogadores de rugby em ação – corpos musculosos, em posição de luta –, as esculturas refletem ainda mais o título da exposição: Power structures.

Para além da associação do título aos objetos escultóricos, podemos pensar que as estruturas de poder (Power structures) se referem às estruturas políticas e sociais da história recente da África do Sul. O apartheid foi utilizado como um instrumento de dominação e soberania racial oriundo da colonização do país, tendo como consequência diversos conflitos internos e disparidades de poder na teia social. Em analogia a minha primeira experiência quase intimidadora em relação às estruturas expostas – pela dimensão e características formais, o apartheid se servia do mesmo princípio: segregar, criar distâncias e colocar o indivíduo inferior em frente ao sistema dominante. O que proporcionou na minha experiência uma outra possibilidade de perceção, mais íntima, nos termos de Morris, foi a conexão, mesmo que imaginária dos dois corpos. O rugby, também como é exibido no vídeo na última sala da galeria, proporcionou um ponto de encontro, demonstrando no país sul africano a sua capacidade de união e inclusão racial.

O projeto da artista expressa como os objetos e o seu potencial plástico podem ativar diferentes camadas de compreensão de um momento histórico. Como um eco que responde ao eco, a exposição convoca e torna presente corpos do passado que repercutem no fazer da história.

Maíra Botelho (1991, Brasil) tem uma formação multidisciplinar dentro dos campos da comunicação visual, artes plásticas, filosofia e performance. Atuou profissionalmente como designer gráfica no Brasil após se licenciar na PUC-MG, tendo ainda estudado Artes Plásticas na Escola Guignard - UEMG e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Recentemente concluiu uma Pós-Graduação em Estética - Filosofia na Nova Universidade de Lisboa.

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